Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

30 novembro 2010

Feira dos Livros Novos e Usados


 Para divulgação, aqui vai (via Fernanda):




Para os amantes de livros ou para quem deseja oferecer livros no Natal, aqui está uma boa sugestão!

A Feira dos Livros Novos e Usados organizada pelos Escuteiros Marítimos de Cascais, terá lugar nos próximos dias 4 e 5 de Dezembro, junto à cafetaria do Centro Paroquial de Nova Oeiras.

Não percam a oportunidade e deixem-nos oferecer-vos um cházinho enquanto bisbilhotam os livros.


29 novembro 2010

Advento



Na Alemanha, há muito tempo que católicos e protestantes vivem lado a lado, de modo pacífico. A população divide-se, em partes mais ou menos iguais, entre as duas formas de cristianismo (estou a falar sobretudo de indivíduos de nacionalidade alemã). No norte, a maioria é protestante, no sul, é católica. Como moro na região de Hamburgo, estou "rodeada" de protestantes, a começar dentro de casa, pois o meu marido é luterano.

Os hábitos e as tradições são praticamente iguais e, sendo os alemães surpreendentemente tradicionalistas em certos aspectos, o início do Advento é uma data a assinalar. Ontem foi o primeiro Domingo do Advento. Começa a anoitecer cedo, à hora do café/chá (costuma-se tomar uma dessas bebidas pelas 3/4 horas da tarde, acompanhadas de bolo). No Primeiro Advento, acende-se a primeira vela de quatro, alinhadas num arranjo como o da fotografia, ou em forma de círculo (Adventskranz, ou Coroa do Advento). Todos os Domingos se acende mais uma vela, até chegar às quatro, no último Domingo, antes do Natal.

Eu adoro este hábito. Além de estar a ficar escuro, já faz muito frio. E é confortável, até romântico, acender a primeira vela, enquanto se bebe um chá quentinho. Ontem comemos Stollen, um doce tradicional, também desta altura, com uvas passas pelo meio.





Resta-me desejar a todos um bom Advento!

28 novembro 2010

Exóticos

Esta caixa encontrava-se na minha revista de programação televisiva, anunciando a transmissão em directo de uma fase dos treinos para o Grande Prémio de Motociclismo, que teve lugar no Autódromo do Estoril, em fins de Outubro passado. É uma caixa pequenina, surgida no lado inferior esquerdo da página, mas não resisto a traduzir o texto:



"Nas três classes ccm há tantos pilotos originários da Península Ibérica como areia na praia. Tudo espanhóis. Não há o mínimo vestígio de portugueses. Estranho, até porque também se encontram por aqui exóticos, como o tailandês Ratthapark Wilairot, ou Mashel El Naimi do Catar."

24 novembro 2010

Visita a Toledo

Assim se intitula o primeiro Capítulo do meu novo romance.  D. Dinis tem apenas cinco anos e encontra-se de visita à corte de seu avô materno, el-rei de Leão e Castela, D. Afonso X o Sábio.

E os leitores deste blogue têm direito a dar uma espreitadela nos acontecimentos:



     "O pequeno continuou a observar a sala e o seu olhar pousou numa escrivaninha, perto de uma janela. Lembrou-se de uma visita que fizera com o pai ao mosteiro de Alcobaça, onde tinha visto os monges copistas sentados em frente de escrivaninhas iguais àquela, copiando e ilustrando livros. Dinis observara fascinado o movimento das penas por sobre as folhas, perguntando-se o que estariam eles a escrever, tão concentrados.
     Também sobre esta escrivaninha se encontravam folhas escritas, uma pena sobressaía de um tinteiro. A curiosidade era grande e Dinis aproximou-se. O tampo era alto demais para ele, mas, notando que a mãe e o avô estavam embrenhados na sua conversa, subiu à cadeira, pondo-se de pé sobre ela.
     Pela forma e tamanho das frases, reconheceu que os pergaminhos continham versos e teve uma pena enorme por ainda não saber ler. Quanto não daria para saber o que estava ali escrito! Adorava recitar versos e cantar com os trovadores. João Soares Coelho, um cavaleiro trovador da corte de seu pai, que aliás também os havia acompanhado naquela viagem a Toledo, já lhe dissera que, assim que ele soubesse ler, lhe seria mais fácil decorar as cantigas.
     Dinis inclinou-se por sobre o tampo da escrivaninha e aproximou o nariz da primeira folha. Gostava daquele aroma da tinta por sobre a pele de cabra curtida. Depois, começou a desenhar as letras com os dedos, imaginando-se o criador daquelas linhas, escrevendo poemas bonitos, que deslumbravam toda a corte. Embrenhado nestes pensamentos, não notou que as folhas por baixo da sua se deslocavam. E, quando começaram a cair em cascata, espalhando-se pelo chão, era tarde demais para evitar o desastre." 

19 novembro 2010

Novo Livro



«E este foi o melhor rei e mais justiceiro e mais honrado que houve em Portugal desde o tempo do rei D. Afonso, o primeiro»
(D. Pedro, Conde de Barcelos)

D. Dinis, sexto monarca português, marcou profundamente a consolidação do reino através dos seus quarenta e seis anos de governação. Fundou a primeira universidade portuguesa, substituiu o latim pela língua portuguesa nos documentos oficiais, reformou quase todos os castelos, foi um diplomata de excepção, admirado, inclusivamente pelo Papa, incrementou a agricultura, a pesca e o comércio, amante da poesia e da música, ficou imortalizado pelos seus cantares.

Mas a tragédia também assolou a sua alma, primeiro foi o conflito armado com o irmão, no final da vida, a dilacerante guerra com o seu próprio filho herdeiro. A seu lado, estava uma rainha de excepção, Isabel de Aragão, com a qual nem sempre as relações foram fáceis…

Neste romance, o leitor é conduzido à intimidade de um Rei justo, sábio e poeta. Nunca a esfera íntima de D. Dinis foi descrita com tanto detalhe e faceta humana.

Disponível nas livrarias a partir de fins de Novembro.

16 novembro 2010

Sindicato da Bondade

Como o seu nome indica, este blogue também trata de outras andanças, que não as medievais. E inauguro hoje a rubrica "outras que tais" com o livro "Sindicato da Bondade", de Eduardo Sá, Edições Salamandra.

Foto Fnac


Apesar de ainda não ter lido este livro, atrevo-me a recomendá-lo (a todos aqueles que são pais e não só), depois de ler a entrevista que o seu autor deu ao número 91 da revista Os Meus Livros (OML) de Outubro.

Eduardo Sá é psicólogo clínico, psicanalista e professor de Psicologia Clínica na Universidade de Coimbra e no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa. Aqui vão algumas das suas afirmações na citada entrevista (os sublinhados são meus):

"Ninguém educa com bons conselhos, mas com bons exemplos."

"Gostava muito de rebater uma ideia condescendente e paternalista que os adultos alimentam das crianças."

A propósito do desleixo no ensino do Português:
"Quem não sabe falar não sabe pensar. E não sabe, seguramente, amar. Há uma diferença abismal entre sentir e comunicar um sentimento. Sentir sem comunicar é meio caminho para nos tornarmos amigos dos ressentimentos. E para adoecermos. Para as relações amorosas e para a vida."

"Conflito é vida. É pluralidade de apelos. São dissonâncias e são contradições."

"O desafio da educação passa, então, por aprendermos a não fugir a nada do que sentimos (...) Compreender sem condescender. Negar sem violentar. Encontrando formas de negociar e compatibilizar interesses."

"A melhor maneira de ficar preso a um medo (o da fragilidade incluído) é fugir dele."

"Basicamente, quem não diz não torna-se bonzinho. E os bonzinhos são os grandes inimigos dos bondosos."

Quem assim pensa e fala merece que se leiam os seus livros! Quando andamos à procura de livros de auto-ajuda, devíamos perguntarmo-nos primeiro se não seria melhor ler obras de especialistas, de quem realmente entende da matéria. Porque é nas famílias que se criam as neuroses, as psicoses, as faltas de auto-estima, dando origem a adultos com tendência a depressões, tristes e insatisfeitos, que não se compreendem a si e ao mundo. Adultos que acabam por ir atrás de qualquer livro que se denomine de auto-ajuda.

Ainda segundo a OML, Eduardo Sá escreveu também:

"Manual de Instruções para uma Família Feliz"
"Más Maneiras de sermos bons Pais"
"A Maternidade e o Bebé, a Vida não se aprende nos Livros"
"Chega-te a mim e deixa-te estar"
"Crianças para sempre"

Porque há livros que podem realmente mudar a nossa vida!

12 novembro 2010

D. Afonso Henriques




Além de ter sido o fundador da nossa nacionalidade, D. Afonso Henriques teve uma vida longa e muito preenchida: Batalha de São Mamede, campanhas na Galiza, Batalha de Ourique, conquistas de Santarém e Lisboa, desastre de Badajoz, etc., etc. Por isso, muito me admira que quase ninguém escreva ficção sobre ele.

Só há cerca de dez anos começou a surgir literatura mais diversificada sobre o nosso primeiro rei (ficção e não-ficção). O Professor Diogo Freitas do Amaral, autor de uma biografia publicada pela Bertrand em 2000, lamentava, no texto da contracapa: "como será que, sabendo Portugal quem foi o seu primeiro rei (...) não há sobre ele uma boa biografia, uma boa tese de doutoramento ou de mestrado, um filme ou uma peça de teatro, uma série de televisão?" Uma boa biografia, felizmente, já existe. Mas, interessada como sou na ficção histórica, eu vou mais longe: porque será que ainda não se fizeram dois ou três filmes, algumas peças de teatro, uma série de televisão e, pelo menos, dez romances históricos sobre D. Afonso Henriques?

A biografia do Professor Freitas do Amaral deu-me o mote. Não sendo licenciada em História, mas interessando-me pela época medieval, comecei, nesse ano de 2000, a juntar toda a informação que me era possível, decidida a escrever um romance histórico sobre o nosso primeiro rei. Não descurando os seus feitos guerreiros, interessavam-me, acima de tudo, os aspectos da sua vida privada, perguntava-me como seria D. Afonso Henriques na intimidade, que mulheres amou, que conflitos o dilaceraram.

Mal sabia eu no que me estava a meter! Enfim, passando por cima de pormenores que não vêm ao caso, realizei o sonho de ver a minha obra publicada, em 2008 (ver faixa lateral). Curiosamente, um ano antes, tinha sido publicado um outro romance histórico sobre o monarca, escrito por Maria Helena Ventura.

Não chega, deveria haver muitos mais! Por acaso, há dois aspectos na vida do nosso primeiro rei que, por si só, dariam belos romances. Um deles assenta na possibilidade de D. Afonso Henriques, numa fase da sua vida, ter pertencido aos Templários. O 1º volume dos "Grandes Enigmas da História de Portugal", publicado pela Ésquilo em 2008, dedica um capítulo a este tema.

Na verdade, o facto de D. Afonso Henriques ter tido o seu primeiro filho apenas com cerca de trinta anos, já levou muitos historiadores a questionar a razão para tal. E, na carta de doação do castelo de Soure aos Templários, em 1129, o primeiro rei português dizia: "... e porque na vossa Irmandade e em todas as vossas obras sou Irmão." Os Templários, além de serem guerreiros, eram monges e cumpriam um voto de castidade. Este podia ser o ponto de partida para uma ficção interessante, tendo ainda em conta que o mistério à volta dos Templários atrai muita gente.

Uma outra ideia seria esse seu primeiro filho, ilegítimo, D. Fernando Afonso, nascido à volta de 1140, quinze anos antes do infante D. Sancho. Pouca gente sabe que ele terá lutado pelo seu direito de suceder ao pai.


Na sua biografia de D. Afonso Henriques, o Professor José Mattoso fala na "existência de tensões ou conflitos, talvez mesmo conflitos graves", pois "a derrota e a diminuição física de Afonso Henriques no desastre de Badajoz criaram no reino um ambiente de apreensão". Mais: depois de um exílio no estrangeiro, onde terá chegado a ser grão-mestre da Ordem do Hospital, D. Fernando Afonso regressou ao reino em 1206, já D. Sancho I era rei e, ainda citando José Mattoso: "... foi envenenado em 1207, num contexto que parece quase de guerra civil. Ou seja, os ódios que envolveram Fernando Afonso e o levaram ao exílio permaneceram insanáveis até à sua morte, quase quarenta anos depois".

Será que houve, na nossa corte, uma conspiração digna dos Plantegenetas? Embora eu planeie a presença de D. Afonso Henriques em romances futuros, não pegarei nestas temáticas, pois já publiquei a minha versão. Mas pode ser que alguém, ao ler este meu post, tenha ficado com ideias...

Adenda: siga as fases mais importantes da vida de D. Afonso Henriques na etiqueta Citando Afonso I.

04 novembro 2010

Divulgar a História




Tenho muitas vezes a impressão de que em Portugal ainda há algum preconceito em tornar a História acessível às massas. Se há algo que eu admiro nos ingleses, é a maneira como comercializam e/ou divulgam a sua História. Fazem-no sem qualquer tipo de preconceitos. O facto de a comercializarem não se traduz numa falta de respeito pelo passado e seus intervenientes, pelo contrário. Ensinaram o mundo inteiro a respeitar (e a sonhar com) o rei Artur, Ricardo Coração de Leão, ou Robin Hood, mesmo tendo em conta que não está provada a existência histórica de duas destas três personalidades. A Inglaterra respira Idade Média por todos os poros, um périplo pelos seus castelos medievais é uma experiência inesquecível, não só para aficionados (as fotografias que ilustram este post foram tiradas no castelo de Warwick).

No nosso país, há ainda a tendência para se tratarem certas figuras históricas como se fossem personagens sagradas, à volta das quais é necessário manter uma certa mística. Não digo que não terá o seu encanto. Mas é preciso não esquecer que homens como D. Afonso Henriques ou D. Dinis não passavam de seres humanos, com as suas dúvidas, os seus receios, as suas paixões e os seus problemas.

Os livros de História não ficcionada (os meus preciosos instrumentos de pesquisa) na sua tentativa (muito louvável) de relatarem os factos secos, com o máximo de objectividade, acabam por nos darem a sensação de que essas personalidades tomaram as suas decisões sem hesitarem, como se soubessem, de antemão, qual seria o resultado. Mas D. Afonso Henriques, por exemplo, ao ser aclamado rei pelos seus guerreiros antes da Batalha de Ourique, ainda não sabia se veria essa aclamação oficializada por escrito; não sonhava que, para atingir a almejada independência, se teria que tornar vassalo do papa; nem tão-pouco poderia adivinhar que conseguiria condições para conquistar Santarém e Lisboa.

Nos meus romances, tento dar a ver a dimensão humana das personalidades, gosto de as aproximar do leitor, de maneira a que este se identifique com elas, vivendo as suas angústias e alegrias, ou, pelo menos, tenha a sensação de estar a observar todos os seus passos. Preencho, com a minha imaginação, as lacunas criadas pela distância de séculos, seja pelo facto de as fontes serem inexactas, seja por se terem perdido.

O Professor José Mattoso, um dos nossos mais prestigiados historiadores, inicia a biografia de D. Afonso Henriques (Temas e Debates 2007) com a frase: “Não é preciso ser historiador profissional para perceber que não se pode traçar a biografia de uma personagem medieval sem uma grande dose de imaginação”.

Assim sendo, que viva a imaginação!