Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

07 janeiro 2011

D. Dinis e D. Maria de Molina (II)

Imagem Wikipedia



D. Dinis estava ligado por estreitos laços de parentesco à família real castelhana. D. Afonso X o Sábio era seu avô e o sucessor D. Sancho IV seu tio, apesar de ser apenas quatro anos mais velho. D. Maria de Molina, da idade do rei português, era, portanto, a viúva do tio e o filho dela, com apenas 9 anos, primo de D. Dinis. Não admira, por isso, que o Rei Lavrador se visse envolvido nas lutas pela sucessão do trono castelhano.

O monarca português mudou várias vezes de campo, tanto apoiava o primo de 9 anos, que carecia de legitimação, como o tio D. Juan, irmão do monarca falecido. Os jogos políticos do costume, à espreita do local de onde soprassem os ventos favoráveis. D. Dinis apostaria, sobretudo, numa divisão entre Leão e Castela, que significaria um maior equilíbrio entre os reinos hispânicos.

Porém, sendo D. Maria de Molina uma mulher de excepção e D. Dinis um rei poeta e sedutor, não resisti à tentação de, no meu romance, estabelecer uma atracção entre os dois:

             Maria de Molina não ostentava uma beleza submissa, como muito se apreciava nas mulheres. Era mais uma formosura majestática. Dinis comparou-a a Isabel, embora as duas fossem completamente diferentes. O encanto da rainha portuguesa residia na sua aura de espiritualidade, que a punha inatingível. A castelhana combinava inacessibilidade, dada pela nobreza da sua pose, com atracção física, nos seus traços voluptuosos. Aquela dualidade perturbava Dinis.

Um ano e meio depois da morte de D. Sancho IV, a causa de D. Maria de Molina e de seu filho parecia perdida, o próprio D. Jaime II de Aragão, cunhado de D. Dinis, apoiava os adversários da grande senhora. O Rei Lavrador chegou a entrar em Castela, em Setembro de 1296, à frente de um exército, com o fito de pôr cerco a Valhadolid.

O cerco, porém, nunca chegou a realizar-se, o exército de D. Dinis, que contava com as forças castelhanas e aragonesas, desintegrou-se. Dos motivos, pouco se sabe, hoje em dia. Terão havido desentendimentos, intrigas, negociações secretas...

É nestes casos que o/a romancista pode dar largas à imaginação. Eu inventei uma ida de D. Maria de Molina ao acampamento do exército português em segredo, disfarçada de guerreiro, na calada da noite, a fim de negociar com D. Dinis, ciente da atracção que exercia nele:



- Pedistes-me que desistisse das minhas intenções de montar cerco a Valladolid. E eu estou disposto a fazê-lo… Se atenderdes todas as minhas exigências.
Maria de Molina arqueou as sobrancelhas:
- Quereis dizer que tendes mais a exigir, além da promessa de casamento da infanta D. Constança com el-rei de Leão e Castela e da integração das vilas a leste do Guadiana em Portugal?
- De facto, minha senhora. Sabei que D. Juan, caso seja coroado rei de Leão, me prometeu Castelo Rodrigo, Alfaiates, Sabugal e outros lugares de Ribacoa!
Fixando Dinis irritada, Maria de Molina cruzou os braços, fazendo tilintar a cota de malha. Aquela atitude de desagrado dava-lhe, porém, ainda mais encanto. Dinis achou cativante como ela, esquecendo o peso da vestimenta, agia como se envergasse um dos seus habituais vestidos de seda. E a pequena ruga na sua testa mostrava a sua firmeza em defender os direitos do seu reino. Naquele momento, Dinis achou-a tão adorável, que quase se arrependeu de lhe ter mentido. Porque, afinal, o tio Juan ainda não lhe prometera nada!



É um facto que, além das vilas a leste do Guadiana (Moura, Mourão Serpa e Noudar), Castelo Rodrigo, Alfaiates, Sabugal e outros lugares de Ribacoa passaram a pertencer ao reino de Portugal, depois do Tratado de Alcañices, em Setembro de 1297.

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