Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

12 janeiro 2011

D. Dinis e o seu Sucessor (II)



O carácter de D. Afonso IV, sucessor de D. Dinis, permanece, até hoje, um enigma. Ficou, sobretudo, conhecido por ter ordenado o assassinato de Inês de Castro, o que continua a levantar problemas aos Historiadores, quanto aos seus verdadeiros motivos (não há, aliás, certeza de que o soberano tivesse dado ordens expressas nesse sentido). O Historiador Bernardo Vasconcelos e Sousa, na sua biografia de D. Afonso IV (Temas e Debates 2009), diz-nos que este não é dos monarcas mais conhecidos da primeira dinastia portuguesa, estando o próprio cognome de o Bravo rodeado de alguns equívocos quanto ao seu significado.

D. Afonso, enquanto infante, proporcionou anos de amargura a seu pai, ao provocar uma guerra civil que dilacerou o reino. Um dos motivos teriam sido os ciúmes que o príncipe alimentava em relação a seu meio-irmão Afonso Sanches, filho ilegítimo de D. Dinis:


O rei olhou-o repreensivo:
- Insinuais que ponderais realmente revoltar-vos, à semelhança de vosso falecido tio? Esquecestes-vos do fim que lhe coube?
O infante suspirou, irritado:
- Porque insistis em hostilizar-me, meu pai?
- Porque estais a ser cego, D. Afonso! Esses nobres, que vos convencem que poderíeis tomar o meu lugar sobre o trono mais cedo do que o previsto, são os mesmos que se recusam a submeter-se ao poder régio. Porque lhes dais ouvidos? Não notais que reforço o poder que vós herdareis um dia?
- Tendes a certeza? - replicou Afonso mordaz. - Pelo modo como favoreceis o vosso bastardo, é bem possível que ele se ponha com ideias…
- Não tendes motivos para recear Afonso Sanches. É um homem honesto, ciente dos seus deveres.
- Oh sim - riu-se o príncipe, acrescentando irónico: - Um homem sem ambições, sem maldades, incapaz de aproveitar oportunidades que lhe caiam no regaço! Um santo!
- Proíbo-vos de falar assim de vosso irmão!
- Meio-irmão, se faz favor! Eu, como infante herdeiro deste reino, falo sobre um bastardo como bem me apetecer!

Um outro motivo teria sido a nobreza descontente, fruto da política do Rei Lavrador de concentração do poder na Coroa. Os nobres revoltados terão encontrado eco para os seus protestos na pessoa do príncipe herdeiro:


Mas já Afonso dizia:
- Porque insistis em ignorar as reclamações? Quem sabe, muitas delas não terão razão de ser? Talvez fosse conveniente confirmar no terreno a veracidade de certos protestos. Bastaria declarar essa intenção perante a assembleia para se acalmarem os ânimos.
Da sua cadeira, o rei olhou enervado para o filho:
- Confirmar no terreno?!
O bispo resolveu novamente contemporizar:
- Sempre fostes um monarca próximo dos vossos súbditos. Porque não condescendeis neste caso ir aos locais analisar as situações in loco?
- Era o que mais me faltava! Fazer a vontade a esses fidalgos arrogantes, que têm a mania que mandam no reino e que, desde o tempo de meu avô Afonso II, honram terras sem terem el-rei por tido nem achado. Tenho em muito mais consideração as populações dos concelhos, fiéis à Coroa. Do que esse bando de presunçosos precisa, é de disciplina! E, para isso, tenho os meus meirinhos, que actuam de acordo com as sentenças dadas e confirmadas.
O filho olhou-o desgostoso:
- Não vos dignais sequer a considerar a minha opinião…
- Porque vos preocupais tanto com essa gente? Estais muito enganado, se pensais que eles vos ficarão agradecidos!
 Mas Afonso insistia na sua mágoa:
- Dais mais ouvidos ao vosso bastardo, que fizestes mordomo-mor!
- Estou cheio desses vossos ciúmes - explodiu Dinis com mais um murro na mesa, ao mesmo tempo que se levantava da sua cadeira. - No fundo, é apenas isso que vos move, esses ciúmes, que só revelam a vossa insegurança, a vossa fraqueza. Nunca sereis um soberano à altura, se não modificardes esse vosso carácter!


Enfim, D. Afonso IV ficou para a História com fama de ciumento, rancoroso e vingativo, o que não deixa de ser curioso, tendo ele sido filho da Rainha Santa.

Para ler mais excertos do romance, clicar na etiqueta Citando o Lavrador.

5 comentários:

Daniel Santos disse...

belíssimos momentos que por aqui têm acontecido.

antonio - o implume disse...

A pequenez dele contamina-nos ainda hoje...

Cristina Torrão disse...

Obrigada, Daniel :)

Talvez, implume, talvez...

António R. disse...

Da fama D. Afonso IV não se livra!
O António tem razão...

Cristina Torrão disse...

Pergunto-me, no entanto, se o pai (D. Dinis) não teria realmente responsabilidades no facto de o príncipe ter tantos ciúmes do meio-irmão.