Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

22 março 2011

Batalha de Ourique III - O Combate

Que a Batalha de Ourique se deu a 25 de Julho de 1139 e que as tropas portuguesas, lideradas por Afonso Henriques, aclamado rei nesse dia, embora em menor número, venceram a peleja, parece não oferecer margem para dúvidas. Porém, e para variar, pouco se sabe da estratégia usada e de como decorreu o combate, pois não nos chegou nenhuma descrição pormenorizada.

Eu segui a versão de Miguel Sanches de Baêna, explanada nos Grandes Enigmas da História de Portugal - Vol. I, Ésquilo 2008.





Embora baseadas nessa versão, as citações que se seguem são do meu romance:


O cavaleiro cristão, com o seu armamento pesado e o forte cavalo normando, introduzido na Hispânia pelos francos, montava à brida, com loros compridos, as pernas esticadas para a frente e a lança firme, ou sobre mão, a fim de aguentar impactos e, ao mesmo tempo, apoiar-se na carga de grande violência.
Mas o exército de Ibn’Umar era quase três vezes maior do que o dele, não seria fácil destruir a sua formação, por mais demolidora que a carga fosse. Além disso, os mouros do Andalus tinham desenvolvido estratégias capazes de quebrar a violência de tais impactos. Os seus exímios lançadores de dardos e os não menos habilidosos archeiros posicionavam-se na primeira linha. Nuvens de flechas flagelavam a cavalaria cristã, mantendo-a à distância, e, assim que esta mostrava sinais de desgaste, a infantaria muçulmana criava intervalos na sua formação, a fim de deixar passar a sua cavalaria, que caía então sobre os cristãos desorganizados.
A leveza dos cavaleiros almorávidas revelava-se vantajosa neste tipo de táctica. Montavam à gineta, com loros curtos e ferro de boca em bridão, tirando partido da flexibilidade e da destreza dos seus cavalos árabes. Embora também usassem cotas de malha, os chamados lorigões, os seus escudos redondos eram mais pequenos e mais leves do que os oblongos dos cristãos, apelidados de cometa. Atacavam, fugiam, voltavam a atacar, em manobras que o cavaleiro pesado não conseguia acompanhar. Além disso, esgrimiam os dardos curtos, as espadas e os sabres com grande destreza.

Terras de Santiago


Temos, assim, de um lado, cavaleiros pesados, com mais força de impacto, e, do outro, cavaleiros leves, com mais poder de manobra. Os cavaleiros pesados cristãos europeus correspondiam à nobreza, mas, em Portugal, existia outro tipo: os cavaleiros vilãos. Tratava-se de proprietários de terras com algumas posses, que lhes permitiam sustentar cavalo e comprar armamento. Estavam organizados em concelhos, territórios que não pertenciam a nenhum senhor nobre, e que tinham o seu centro na vila (daí, o nome de "vilãos"). Não raro, eram vistos com desprezo pelos nobres, por andarem mal armados. Porém, por isso mesmo, eram mais leves e destros. Além disso, estavam habituados a fossados em terras de mouros e a combates de fronteira, ou seja, conheciam as formas de luta dos muçulmanos.

Segundo Miguel Sanches de Baêna, em Ourique, Afonso Henriques terá apostado na destreza e na experiência dos seus cavaleiros vilãos, embora tal provocasse o desagrado dos seus barões:


            Afonso acrescentou:
            - Os cavaleiros vilãos de Coimbra e dos outros concelhos formam uma cavalaria bem mais ligeira do que nós.
            Olhavam-no siderado. Fernando Mendes, o Braganção, não se conteve:
- Pudera! Faltam-lhes os recursos, andam mal armados e mal amanhados. Muitos deles nem sequer têm lorigão!
O príncipe conhecia o desprezo com que a nobreza nortenha tratava os cavaleiros sem pergaminhos. Mas ele, que lhes admirava a coragem e a astúcia, ripostou:
- Aprenderam as técnicas de construção dos arcos e das bestas dos infiéis e treinaram o seu uso a cavalo. Também as suas montadas dispõem de grande poder de manobra, são o resultado de cruzamentos com as raças árabes. É desses archeiros velozes a cavalo que nós precisamos, para dar cabo da infantaria de Ibn’Umar!

1 comentário:

Rafeiro Perfumado disse...

Estranho é o termo agora associado a "vilão".

Beijoca!