Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

08 abril 2011

Afonso Henriques de Outra Maneira

Sendo apreciadora de humor e apaixonada pela Idade Média, gostei muito deste post publicado por JoZe nas suas Crónicas de um Matemático exilado do Mundo (o blogue que escolhi para 2711 da semana): uma conversa com Afonso Henriques, sobre o Portugal actual (embora seja bom acrescentar que foi escrito em Janeiro passado, por altura das eleições presidenciais), passando por Saramago e Cristo. Divertido e inteligente:


Não precisei das recomendações do New York Times para, desde há vários anos, ter feito de Guimarães uma das minhas cidades de eleição. O enquadramento numa região de grande beleza natural, a riqueza histórica, a população maioritariamente jovem e a cultura palpitante, projetam-na, justa e merecidamente, a um lugar de destaque entre as cidades peninsulares. Centro histórico, Paço Ducal, Igreja de S. Miguel, Castelo e estátua de Afonso Henriques são pontos de visita quase obrigatória. Por lá passo com alguma regularidade, muitas vezes em jeito de guia turístico de amigos estrangeiros que me visitam. Assim aconteceu na semana passada.

Suponho que por causa do momento crítico que a nação atravessa, detive-me mais tempo do que o normal em frente à estátua do Fundador. Mais tempo do que o normal e, agora constato, mais tempo do que o recomendável. Uma série de pensamentos profundos e contraditórios (muitos deles inconfessáveis) passaram-me pela memória nesses instantes. A imprudência foi paga na noite seguinte com um sonho estranho: eu morria e, acabado de chegar ao paraíso, dava de caras com Afonso Henriques. Encontrava-o vestido a preceito, não faltando elmo, espada nem escudo. Indumentária um pouco estranha para quem se encontra no paraíso, mas como é bem sabido, os sonhos são criações da mente com estranhas associações de ideias.

Vendo chegar um português (tenho uma vaga ideia de uma etiquetagem à entrada que me deixou com uma bandeirinha portuguesa na lapela), Afonso Henriques apressou-se em minha direção, ávido de notícias sobre Portugal. Mostrei -lhe a minha estranheza pela falta de portugueses que lhe tivessem levado notícias recentes, ao que ele me respondeu:
 Estou na ala dos ilustres. Ultimamente não aparecem por cá muito portugueses. Há uns meses conversei algumas horas com o José Saramago, mas logo ele foi chamado para o grupo dos mais íntimos do Filho.
 Íntimos do Filho?! Jesus?
 Sim, o Todo-Poderoso.
 Não é o Pai quem manda?
 Não, o Pai aposentou-se há séculos, cansado de enviar sinais sobre a terra e ver o seu povo continuar tão pecador. Cedeu a liderança ao Filho, que a exerce de maneira bastante mais suave, deixando ao cuidado do povo a interpretação dos muitos sinais já enviados ao longo dos tempos.
 Ah, interessante sinal de maturidade conferido ao povo. Mas voltando a Saramago...
 Sim...
 Espanta-me que esteja aqui. Ele era profunda e convictamente comunista.
 Pois, por isso mesmo, o Filho adora comunistas. Diz que são os que melhor interpretaram a mensagem que deixou na terra. Uma mensagem de partilha e igualdade acima de tudo. Além do mais, adorou um livro escrito por Saramago, por fazer jus ao seu lado humano. Ao que consta, estava farto que lhe reconhecessem apenas o lado divino.
 A sério?
 Sim.Veja bem: dignar-se descer à terra, tornar-se homem entre os homens, aceitar ser sacrificado e, depois, não lhe valorizarem o lado humano é indecente, não acha?
 Sim, de facto... .
 Mas conte-me, conte-me como anda o país.
 Bom, já deve saber que nos tornamos numa república há cerca de um século.
 Sim, sim, essas coisas eu sei, quero notícias recentes.
 Então indo direto ao assunto: o país encontra-se numa profunda crise financeira e debate-se com sérios problemas de subsistência.
 Ai sim? A república democrática não consegue passar incólume a esse tipo de problemas?
A pergunta, em tom irónico, vinda de alguém seguramente pró monárquico absolutista, causou-me alguma irritação. Contrapus:
 No fundo, no fundo a culpa de tudo isto é sua.
 Minha?!
 Sim, não foi o senhor quem fundou o país?
 Ah... sob esse ponto de vista. Mas, meu caro, em oito séculos podiam ter avançado muito.
 E tentamos. Chegamos a dominar meio mundo. Mas o império desmoronou-se e, no final, pouco ficou. Continuamos com a velha sina de povo relegado ao abandono pela Europa.
 E por que não se aliam a essa Europa?
 Já nos aliamos...
 E então?
 Nada. Uns fundos comunitários, umas estradas e uma série de maus vícios de novo-riquismo foi o que restou. Neste momento estamos completamente à mercê dos mercados.
 Mercados?! Fruta, legumes, carne...?
 Não, não!... Mercados financeiros. Especuladores...
 Mas não é presidente Cavaco Silva, um grande especialista na área?
 Hum, vejo que anda muito bem informado.
 É, sobre esse Cavaco falou-me bastante o Saramago.
 Pois, imagino...
 E que tem feito Cavaco?
 Neste momento anda em campanha eleitoral para a reeleição. Mas nos cinco anos de mandato exerceu uma magistratura de influência.
 Exerceu o quê?!
 Uma magistratura de influência.
 Que é isso?
 Ao certo não sei, mas a julgar pelo que tem vindo a público, creio referir-se à influência que Cavaco tem exercido para salvar a pele de uma quadrilha de amigos encapuçados de banqueiros que, com um gigantesco roubo, ajudaram a aumentar o buraco financeiro do país.
 Então vai ser complicado ser reeleito...
 Não sei, ele já assegurou que no próximo mandato exercerá uma magistratura ativa.
 Ai sim? Deve querer dizer que da próxima será ele o ladrão...

Quadrilha, roubo, ladrão... esses termos associados ao representante das mais altas instâncias da nação causaram-me um grande mal-estar que, de imediato, me fez despertar desse sonho tão incomum. É bom salientar que tudo isto se passou ao nível do subconsciente. De forma consciente, eu jamais ousaria dizer (ou até pensar) essas coisas sobre o presidente e seus amigos. Aliás, repare-se na megalomania do meu subconsciente, que não só ousa entrar no céu, como ainda se guinda à ala dos ilustres. Devo confessar que não é nada fácil conviver com um subconsciente como o meu...

3 comentários:

Anónimo disse...

Gostei!
Só que sou muito mais terra a terra e não preciso de fazer de conta que é o meu subconsciente que pensa julga e vive na pele e no dia a dia esta terrível verdade ou mentira camuflada deste conjunto de mandões que os portugueses colocaram no sítio que lhes fica que nem uma luva.
Vá, não se esconda por detrás do subconsciente. Será por haver tanto português assim, que isto está como está. Cá por mim até gostava de dizer umas verdades que sei ao sério e que tenho que guardar, porque posso estragar este cantinho, que não se define muito bem. OU SE É OU NÃO SE É, e não devemos de ter medo de dizer a verdade. Mas como não sei onde estou e caí aqui de pára quedas não percebo se está com Saramago ou com Cristo.
É que nem há comparação, e deixe lá repousar não sei onde o tal que dizia que depois da matéria nada FICA!!!
Então acabou-se a matéria até para merecer alguma escrita.

Cristina Torrão disse...

Bem, eu gostei, por exemplo, da ideia de Cristo ter adorado "um livro escrito por Saramago, por fazer jus ao seu lado humano". Na verdade, não fazemos ideia do que Cristo pensa sobre os livros do Saramago e dos comunistas, em geral. Cristo, morto há dois mil anos, é, hoje em dia, aquilo que fazemos dele.

Daniel Santos disse...

muito bem.