Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

27 maio 2011

Escritoras



No Horas Extraordinárias, a editora Maria do Rosário Pedreira, a propósito de uma polémica no Facebook, abordou o tema: porque é que há mais escritores do que escritoras? O assunto provou, mais uma vez, excitar os ânimos, o post teve mais de 60 comentários.

As razões podem ser diversificadas, mas, na minha opinião, há duas pertinentes:

1 - Falta de tempo

A escrita é uma actividade que exige, acima de tudo, tempo. Mulheres casadas, com filhos e com actividade profissional dificilmente arranjam ocasião para se isolarem no escritório do lar, duas ou três horas seguidas, algumas vezes por semana. Infelizmente (e embora haja cada vez mais excepções) há mais tolerância e compreensão para os homens, que, em situação semelhante, precisem do seu sossego. O facto de eu constatar que, muitas vezes, apenas o homem dispõe de um espaço em casa a que possa chamar de "seu escritório", parece confirmar esta suposição.

Como também o confirma uma entrevista a Alice Vieira, da qual transcrevo um extracto:


- Ele [Mário Castrim] incentivava-a a escrever?
Muito, muito. Eu acho mesmo que ele deixou a carreira dele de escritor para trás exactamente para que eu pudesse fazer a minha, não tenho dúvidas nenhumas (...) Para eu fazer a vida que fazia, ele tinha que ficar com os miúdos, e tratar da casa. Tinha que aguentar o barco.

Pois!

J. K. Rowling, a autora da saga do Harry Potter, começou a escrever por estar desempregada. Passou para o papel histórias que há muito engendrava na cabeça, mas é caso para perguntar: tivesse ela um emprego absorvente e dois ou três filhos, estaria o mundo privado do seu mais famoso aprendiz de feiticeiro?

Ao contrário do que muita gente pensa, não basta ter talento para se tornar escritor, é preciso ter condições para o desenvolver. E ser persistente e disciplinado. Nada podia ser mais errado do que aquela ideia de um génio que tem uma inspiração, passa-a para o papel... E aí está a obra-prima!



2 - Atrever-se

Uma outra razão, que não foi focada nos comentários ao post da Maria do Rosário Pedreira, mas que considero verosímil, é as mulheres não se atreverem tanto como os homens. Por mais que as coisas tenham evoluído e por mais que se considere que as mulheres estão ao nível dos homens, as meninas ainda são educadas de maneira diferente dos meninos, pois devem ser mais ponderadas e sossegadas. Enquanto se mantenham no seu quarto, a pentear bonecas, tudo bem. Mas poucos pais aceitam que elas queiram jogar à bola na rua, com os rapazes, por exemplo.

O atrevimento, a curiosidade e o experimentar "coisas malucas" continuam a ser mais tolerados neles. O resultado é que os miúdos, mais tarde, acreditam mais nas suas capacidades e são mais seguros de si.

Diz-nos Maria do Rosário Pedreira: recebo dezenas de originais todos os meses para avaliar mas, lamentavelmente, só dez por cento são escritos por mulheres. O mais engraçado é que eu recordo, dos meus tempos de liceu, serem as raparigas quem mais se dedicava à escrita (devaneios, contos, poesia, etc.). E são normalmente as meninas que escrevem diários. Mas desconfio que, mesmo que desejem ser escritoras, pensam não ter talento suficiente e não se atrevem a enviar os seus manuscritos a quem os possa apreciar. É pena!



Mas será que Portugal, mais uma vez, anda atrasado em relação a outros países europeus?  Publiquei aqui, a 25 de Abril (por acaso), fotografias tiradas numa livraria da cidade alemã onde vivo, nomeadamente, o escaparate dedicado aos romances históricos. E constatei que as escritoras alemãs deste tipo de literatura parecem ser mais do que os escritores.

Nesta fotografia, consegue ler-se o nome de oito autores e só um (Frank Schätzing) é homem:



Também em língua inglesa há muitas mulheres a dedicarem-se a este tipo de literatura.

Mulheres portuguesas, de que estão à espera? A falta de tempo poderá ser difícil de contornar. Mas há algo que só depende de vós: atrevam-se!

6 comentários:

Cláudia Moreira disse...

Como já "falamos" nas Horas Extraordinárias já sabe que concordo consigo:)

Cláudia Moreira

antonio - o implume disse...

Se julgarmos pela bloga existem mais mulheres a escrever poesia do que homens...

Quanto ao enigma da Maria do Rosário a explicação é bem simples: existem mais mulheres editoras do que homens e as mulheres são mais bem tolerantes quando se trata de avaliar o trabalho de um homem.

Patrícia Cálão disse...

Concordo totalmente com tudo o que foi dito. Mas em especial com o 2º ponto. Noto que muitas vezes falta coragem e confiança.

jota disse...

Concordo com os dois pontos. Neste momento sinto na pele a falta de tempo. Como estou forçado a ser uma fada do lar no masculino (qual será o equivalente masculino) quase perfeita não tenho tempo nem para a net quanto mais para a escrita.

Para escrever é precisa tranquilidade de espírito (a não ser que o tema seja o relato dos sofrimentos do(a) escritor(a)). Pelo menos no meu caso. Preciso tempo, motivação e alguma alegria.

Em relação ao atrevimento... ainda não cheguei lá... estou a apontar para ser um excelente escritor que publicará postumamente. :)

AFRICA EM POESIA disse...

VIM deixar um beijo, foi bom passar por aqui
e...poesia




INSPIRAÇÃO



A vida inspira-nos...

Ao Amor...

Ao querer...

Ao estar...

E nesta inspiração...

Ficamos...

Mais ricos...

Mais leves

Mais esperançados...


Por isso inspiro-me...

E sinto que...

Valeu a pena...

Pois assim...

Sinto-me feliz...


E com inspiração...


O mundo rola...

O mundo brilha...

O mundo deixa-me

Um presente de inspiração...

Uma cesta

Cheia de Paz...

De amizade...

E de amigos...


Por isso eu...

Continuo inspirar-me!



LILI LARANJO

Cristina Torrão disse...

Obrigada a todos pelos comentários interessantes. E continuem inspirados ;)