Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

26 agosto 2011

Cerco e Conquista de Lisboa III



As negociações entre D. Afonso Henriques e os cruzados foram difíceis, pois estes exigiam riquezas que o monarca sabia não lhes poder dar.


Numa primeira reunião com os comandantes estrangeiros, o rei logo deixou claro não saber quão ricos eram os habitantes de Lisboa. Além disso, e em caso de conquista, pretendia evitar um saque, a fim de proteger a população moçárabe, que era tão cristã quanto eles. Em compensação, e como todos podiam ver, a região era fértil, de bom clima e, àqueles que escolhessem ficar em Portugal, ele daria terras e senhorios. De resto, o seu era um reino ainda pobre, situação que se agravava com a guerra contra os infiéis.

As exigências dos cruzados foram transmitidas por D. Pedro de Pitões, bispo do Porto, as negociações decorriam em latim entre os prelados portugueses e os estrangeiros:


- Em primeiro lugar, exigem todas as posses dos mouros vencidos.
- Querem deixar a minha gente de fora? - admirou-se Afonso.
- Em segundo lugar - prosseguiu o bispo, - insistem no saque, ao qual qualquer vencedor tem direito, e do qual também excluem os portugueses. Em terceiro, todos aqueles que ponderam a hipótese de ficar em Portugal, exigem manter os hábitos, direitos e costumes das suas terras, assim como isenção de portagens para os seus navios e produtos em todos os nossos portos e cidades. Sem falar, naturalmente, das terras e dos senhorios que vós lhes prometestes.

Apesar de não estar de acordo com todas as exigências, D. Afonso Henriques acabou por assinar um pacto. E distribuiu as tropas pelo terreno:


Os portugueses montaram o seu acampamento num morro a noroeste de Lisboa, cujo sopé estava rodeado por dois ribeiros, local que lhes permitia vigiar a alcáçova, a couraça, com a respectiva torre de vigia, e parte da muralha ocidental.
Ingleses e franceses posicionaram as suas tendas no cimo da colina a oeste da cidade, à frente da qual se estendia a extensa planície. Os dois ribeiros que rodeavam o morro dos portugueses juntavam-se nessa planura, formando o esteiro, cujas águas se vinham a confundir com as do Tejo. Estes cruzados vigiavam, assim, todo o pano de muralha ocidental, o que incluía a porta principal e a torre albarrã, na ponta sudoeste. Além disso, as suas naus controlavam a ribeira ocidental, uma praia de pescadores.
Os flamengos e os alemães estabeleceram-se a oriente de Lisboa, também sobre um cerro. Fechavam o círculo e as suas embarcações vigiavam a ribeira oriental, que era o porto por excelência. O pano de muralha perante eles incluía duas portas: al-maqbara, junto à alcáçova, assim chamada por dar acesso ao cemitério islâmico, e al-hamā, protegida por uma torre albarrã. Al-hamā eram os banhos públicos, que davam o nome, não só à porta, como a um bairro de mercadores nas suas imediações. À semelhança do lado ocidental, havia um arrabalde incrustado nas rochas que suportavam as muralhas.

Esta imagem não está bem enquadrada e, apesar de aumentada, as legendas são difíceis de ler. Mas mostra muito bem como se procedeu ao cerco. Foi retirada do livro Conquista de Lisboa, de Pedro Gomes Barbosa (Tribuna da História, 2004, Colecção Batalhas de Portugal).
A cidade de Lisboa, naquela altura, quase se resumia à zona do castelo de São Jorge, Alfama, Santa Justa e a Costa do Castelo. Onde hoje se situa a Praça do Comércio, havia um esteiro, que se alargava ao desaguar no Tejo (lembram-se da História do Cerco de Lisboa, de Saramago?). Nessa zona, havia uma praia de pescadores e, aqui, vêmo-la ocupada com os barcos dos cruzados. Fora de muralhas, havia dois arrabaldes: o ocidental (maior) e o oriental.
À esquerda, sobre o Monte Fragoso, vê-se o acampamento dos ingleses; a noroeste, no Monte de Sant'Ana, circundado por dois ribeiros, temos o acampamento português; a vermelho, o cemitério islâmico (almocavar), junto do qual se deu uma primeira escaramuça; à direita, sobre o Monte de São Vicente (mais ou menos onde hoje se situa a igreja e o Panteão Nacional), o acampamento dos flamengos e alemães. 

3 comentários:

alf disse...

hummm.... esta mania de os povos do norte quererem ficar com tudo para eles não nasceu então com a troika, já vem de longe...

muito interessante.

Cristina Torrão disse...

É sempre útil saber um pouco de História ;-)

Olinda Melo disse...

Gostei muito da descrição do posicionamento dos vários grupos e ainda de como era a Lisboa da altura. Permite-nos visualizar um pouco a questão do cerco.