Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

02 setembro 2011

Cerco e Conquista de Lisboa IV

Ilustração de Jorge Miguel
Depois de assinado o pacto entre D. Afonso Henriques e os cruzados e de as tropas se terem distribuído no terreno, deu-se uma primeira escaramuça, que começou com um ataque dos ingleses ao arrabalde ocidental, chamado bairro de Alcamim, e terminou junto ao cemitério islâmico, o almocavar. A moura Aischa assiste aos acontecimentos a partir do cimo das muralhas de Lisboa:

 
            Os habitantes que restavam no bairro de Alcamim tentavam defender-se de uma tentativa de assalto perpetrada por alguns cruzados, arremessando pedras dos terraços das suas casas. O arrabalde ocidental era conhecido como bairro de Alcamim, devido à sua igreja de Santa Maria de Alcamim, uma santa moçárabe.
            - Os cruzados - perguntou Aischa - não saberão que os habitantes do bairro são cristãos como eles?
            - Ora - retorquiu Amir, - o que sabem estes homens, vindos de tão longe, sobre a realidade aqui na nossa Lušbūna?
            - Os portugueses bem sabem o que são moçárabes - replicou ela furiosa. - Ibn Errik não é o comandante deste cerco? Porque consente ele numa coisa destas?
            - Não me parece que seja um ataque planeado. Pelos vistos, os majus mal podiam esperar para usarem as suas armas e lançaram-se ao bairro já meio desabitado.
            Nisto, alguns mouros atreveram-se a uma surtida pela bâb al-khawkha, pois urgia defender os al-hurî, celeiros subterrâneos localizados no flanco da encosta da alcáçova. Mouros e moçárabes pareciam estar em vantagem devido à sua situação, por sobre a encosta. Mas cada vez mais cruzados se aventuravam pelas ruelas íngremes de Alcamim. Alguns lograram mesmo atingir a linha de cintura defensiva da alcáçova, um caminho que, começando na bâb al-khawkha, circundava o monte do castelo pelo poente e norte. Os atacados viram-se assim igualmente cercados pelo lado de cima.
Ao constatarem que os al-hurî e as suas preciosas reservas estavam perdidos, os mouros apressaram-se a regressar à segurança das muralhas, logo fechando a bâb al-khawkha e barrando a entrada à maior parte dos habitantes de Alcamim, que tentava agora desesperadamente fugir. Iniciaram-se combates sangrentos pelas ruelas do arrabalde. Os moçárabes serviam-se de adagas, punhais, ou mesmo de pedras.
            - Este espectáculo não é para os teus olhos - disse Amir à sua noiva. - Anda, vamos...
            - Não te preocupes comigo! Nada me arrancaria daqui agora. Tenho de ver no que dá esta refrega!
            O rapaz observava-a espantado, mas ela quase não notou, concentrada nos acontecimentos. Até que bradou:
            - Muitos moçárabes conseguem fugir, circundam o monte.
            A moça nem esperou pela reacção do noivo, desatou a correr pelo adarve, entrando na alcáçova. Amir corria atrás dela. Passaram a curva na ponta noroeste, onde a couraça, o lanço de escadas fortificadas, fazia a ligação à torre albarrã. Continuaram até à torre na ponta nordeste, onde Amir constatou:
            - Os fugitivos aproximam-se do almocavar!
            - E não os podemos ajudar? - Na sua fúria, Aischa dirigiu-se aos soldados que estavam de guarda naquela torre: - Porque não se torna a abrir uma das portas, a fim de deixar entrar os coitados?
            - Seria arriscado demais - respondeu um dos homens. - Muitos cruzados poderiam aproveitar a oportunidade para se infiltrarem na al-qasbâ.
            - Os perseguidores não são tantos como isso - insistiu ela. - A maior parte parece ter ficado no bairro de Alcamim, a fim de saquear as casas e os al-hurî.
            - Além disso - acrescentou Amir, apoiando-a, - os moçárabes parecem levar a melhor nos combates junto ao almocavar, põem muitos dos majus em fuga. Bem se podia abrir uma porta, enquanto não surgem mais...
            - Tarde demais - retorquiu o soldado, apontando para a encosta da colina do acampamento português.
            Aischa olhou para a sua esquerda e os seus olhos dilataram-se ao aperceber-se de que os homens de Ibn Errik vinham em ajuda dos seus aliados. E foi ali, junto ao almocavar, o cemitério islâmico onde estava enterrada a sua mãe, que deram o golpe de misericórdia naquele punhado de fugitivos moçárabes.





3 comentários:

Bartolomeu disse...

Tem sido assim, ao longo da existência humana... homens que matam outros homens, somente pela sede da conquista.
Excelente descrição Cristina. Imagino, tanto o trabalho que te deu pesquisar, como o prazer que te deu escrever.
;)

Cristina Torrão disse...

É verdade. O trabalho exaustivo da pesquisa é compensado ao passar as ideias que vão surgindo para o papel.

Obrigada pelo elogio :)

Olinda Melo disse...

Muito bom.
Aqui vê-se o drama dos moçárabes.Cristãos ibéricos a viverem em comunidades muçulmanas, acabam por não serem bem aceites tanto dum lado como do outro.

Gosto desta Aisha.Muito humana.

:)

Olinda