Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

11 setembro 2011

Cerco e Conquista de Lisboa VI

Ilustração de Jorge Miguel

Uma cena de A Cruz de Esmeraldas, quando já se passava fome na cidade:


            Aischa não conseguia adormecer. Esperou que as outras mulheres se deitassem para se escapulir para o jardim. Chegada ao repuxo, que, nestes tempos, não era posto a funcionar, sentou-se no chão, encostada à fonte de pedra, e deixou correr as lágrimas.
            Este dia de início de Setembro tinha sido um dos mais difíceis, desde que o cerco começara. Não que os cruzados tivessem levado a cabo algum ataque mais forte, mas Abdalah morrera, sem parar de balbuciar que o fim do mundo estava próximo.
            (...)
            Abdalah morrera na certeza de que se reencontraria com o seu pai, no Paraíso de Alá, onde reviveria o esplendor do califado de al-Andalus. Mas Aischa arrepiava-se, ao pensar que o cadáver seria devorado pelo fogo, sem lhe fazerem o funeral. Esta era, no entanto, a melhor solução, pois o almocavar estava inalcançável.
Nem todos os cadáveres, porém, tinham tal destino. Morria tanta gente, que era impossível queimá-los todos e havia, além disso, o medo de incêndios. Assim se iam os corpos empilhando pelas ruas, lançando o seu odor pestilento. Doenças iam-se espalhando, o número de feridos em combate aumentava de dia para dia e houvera necessidade de improvisar um hospital na mesquita aljama. Agora, havia quem dissesse que seria melhor levar para lá também os cadáveres, a fim de evitar a propagação de mais doenças. Aischa, porém, atormentava-se com a ideia de que se chegasse ao ponto em que ninguém se prontificasse a ir tratar dos doentes que lá estavam, devido ao cheiro, deixando-os para lá a agonizar.
            Também ela e a sua família se arriscavam a morrer de fome. As refeições eram cada vez mais parcas. O pai dela possuía burros de carga e dois cavalos, mas nenhuns animais de criação. Sempre comprara a carne de cabrito, a mais apreciada entre os mouros, aos aldeões das redondezas. Muitos desses pastores haviam procurado protecção entre as muralhas, trazendo alguns animais, mas já quase não havia nenhum. Também as galinhas desapareceriam antes de começar o Inverno e os pescadores não podiam sair para deitar as suas redes ao rio.
            Ainda se poderiam alimentar dos burros ou dos cavalos, em último caso de cães e gatos. Já havia quem o fizesse e o estômago de Aischa revoltava-se perante tal pensamento. Felizmente, eles ainda tinham alguns grãos de trigo, frutos secos e azeite na cave, mas já eram racionados, o que não causava apenas problemas na alimentação. Os candis que antigamente se encontravam por toda a casa em nichos nas paredes, iluminando os quartos, corredores e até o jardim, limitavam-se agora às divisões onde estivessem pessoas.
Os dias iam ficando mais pequenos, a escuridão, a tristeza e a pestilência apoderavam-se de Lušbūna, outrora a cidade-luz.
            Aischa chorou até não ter mais lágrimas. Se não fosse tão tarde, iria buscar o seu alaúde e cantaria a melancolia que lhe atormentava a alma. Assim, fechou os olhos e começou a compor em silêncio uma cantiga sobre a Lušbūna que desaparecia: a multidão a regatear preços no suq, à sombra das coberturas de pano ou das esteiras de esparto, que se estendiam entre as casas, protegendo as ruelas do sol abrasador; o aroma da canela e dos cominhos, vindos de outras terras do Islão, através do Mar Mediterrâneo; o peixe prateado nos cestos dos pescadores; as lojas dos prateiros e dos ourives, das sedas e brocados, junto à bâb al-hammā
            Viu-se no meio da loja movimentada do pai, que lhe dizia:
            - Precisas de tecidos? Escolhe o que quiseres, minha filha!
            A frescura das sedas deslizava-lhe por entre os dedos…
            Um sopro de vento fez-lhe chegar um odor pestilento às narinas, um gemido de dor fez-se ouvir ao longe, trazendo a moça de volta à realidade, ao seu canto escuro. Lušbūna nunca mais será a mesma, pensou, e eu não tornarei a ser feliz. Mais vale morrer antes que os cruzados tomem a cidade e comecem a saquear, a matar os homens, a violar as mulheres…

Lisboa Mourisca, por Martins Barata

5 comentários:

Daniel Santos disse...

Comecei ao contrário, falta-me ler este. Sou um leitor lento.

Cristina Torrão disse...

Tudo bem, Daniel, não há uma ordem predestinada, os livros são independentes uns dos outros, embora haja pontos de contacto inevitáveis entre este e o de Afonso Henriques.

Há.dias.assim disse...

fiquei curiosa, Muito interessante

Cristina Torrão disse...

:-)

Olinda Melo disse...

Gostei muito da figura de Aisha aqui retratada, mostrando o que teria sido a vida do lado mourisco e as dificuldades por que estariam a passar durante o cerco de Lisboa.

:)

Olinda