Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

15 setembro 2011

Cerco e Conquista de Lisboa VIII


O ponto de viragem nos acontecimentos acabou por acontecer já em meados de Outubro, quando os cruzados alemães e flamengos alcançaram os fundamentos das muralhas do lado oriental, através de um túnel que os muçulmanos não lograram destruir. Um ataque foi preparado.


            Junto com Arnulf de Aarschot e Christian de Gistell, Afonso e os seus barões posicionaram-se no cimo da colina oriental, de maneira a poderem observar os acontecimentos, que decorreriam na zona do arrabalde, entre as portas al-maqbara e al-hamā.
Os ingleses e franceses já tinham começado o seu ataque no lado ocidental, fazendo com que os mouros concentrassem aí forças, e os cruzados flamengos e alemães esperavam que o fogo, por baixo dos fundamentos ocos da muralha, tivesse o efeito desejado.
            Todos observavam suspensos as muralhas que se erguiam no cimo do morro, por detrás do arrabalde... Até que estas, debaixo de um grande estrondo, ruíram, abrindo uma brecha de uns quinze passos de largura. Lançando os seus berros de guerreiros, os cruzados precipitaram-se colina acima. Só quando a nuvem de pó e terra, provocada pelo ruir dos muros, se começou a dissipar, é que o rei e os seus acompanhantes puderam seguir as lutas sangrentas que se travavam.
            A esperança depressa se desvaneceu. O estrondo da queda das muralhas tinha feito ruir muitas das casas de taipa do arrabalde vazio e, por entre as vielas estreitas, os destroços dificultavam o escalar do cerro. Os mouros, apesar de terem que defender a brecha, encontravam-se na posição mais alta e lograram, mais uma vez, pôr os cruzados em fuga.
- Outro combate perdido - murmurou Afonso entre dentes. Mas, sentindo a frustração à sua volta, disse alto: - Este ataque serviu para enfraquecer ainda mais o inimigo. Que há-de vergar os joelhos! Todos sabemos que receia a vinda do Inverno.
            - Mais do que nós? - retorquiu Arnulf de Aarschot irónico.
Depois de ter obtido a tradução destas palavras, o rei replicou, antes de lhe virar as costas:
            - Em vez de me lançardes olhares descontentes e palavras pessimistas, devíeis rezar para que eu tenha razão.




           Seria por falta de preces que os acontecimentos continuavam a correr em desfavor do monarca português? Apesar de várias ofensivas por parte dos cruzados na zona do arrabalde oriental, os mouros conseguiram tapar a brecha nas muralhas com uma paliçada de madeira.
A 19 de Outubro, a tão esperada torre de assédio ficou finalmente pronta. Coberta pelas peles húmidas, foi deslocada à volta da torre albarrã, na ponta sudoeste de Lisboa. O seu objectivo era novamente o cimo das muralhas por sobre o pequeno postigo que dava acesso à praia.
Os atiradores de arco ingleses, no alto do engenho, apoiados pelos seus companheiros das naus, conseguiram uma primeira vitória: os mouros posicionados na torre albarrã precipitaram-se por sobre o passadiço muralhado, refugiando-se na cidade.
Não obstante, a torre dos ingleses deslocava-se a passo de caracol, por sobre a areia. Talvez por isso os mouros tenham arriscado um ataque através do postigo. Saíram para a praia e caíram em cima dos cruzados, dando início a uma das lutas mais ferozes do cerco. Sabres penetravam nos corpos, machados abriam crânios e, misturada com o sangue, a areia transformava-se numa massa vermelha e pegajosa, envolvendo os cadáveres, sobre os quais os combatentes tropeçavam.
Passado o primeiro momento de surpresa, os cruzados ganharam vantagem e forçaram os mouros a recuar. Destes, os que conseguiram alcançar o interior das muralhas, logo trancaram o postigo, deixando os seus companheiros à mercê dos cristãos, que, atacados pela febre da chacina, só descansaram quando já não havia um único mouro vivo.
            Porém, e apesar de imune às setas incendiárias, só dois dias mais tarde, a 21 de Outubro, a torre móvel alcançou as muralhas.
- Os soldados preparam-se para lançar a ponte que ligará o cimo da torre ao adarve - informou um mensageiro. - A invasão da cidade pode acontecer a qualquer momento.
            Mas logo surgiram perante o rei e os seus barões guerreiros ingleses aos berros. Falavam todos ao mesmo tempo, gesticulando como doidos. Afonso exigiu a presença de Hervey de Glanville, que, com a ajuda de um tradutor, informou que os mouros tinham baixado as suas armas, assim que a ponte de ligação tocara o cimo dos muros e antes que um só único cruzado pudesse saltar para o adarve. Os infiéis solicitavam tréguas. Mas só negociariam com Ibn Errik!


Descontentes com o facto de os mouros só negociarem com D. Afonso Henriques, os cruzados iniciaram uma série de motins, que quase deitaram tudo a perder, quando Lisboa estava já praticamente nas mãos do rei português.

5 comentários:

Daniel Santos disse...

mais uma vez, excelente.

antonio ganhão disse...

Já nesse tempo importávamos tecnologia alemã...

Cristina Torrão disse...

Obrigada aos dois :)

Olinda Melo disse...

Luta renhida!

Esperemos para ver como decorrerão as negociações entre Ibn Errick e os mouros. Será que os cruzados não irão atrapalhar de novo, dando razão aos mouros ao não os quererem presentes?

:)

Cristina Torrão disse...

Felizmente, D. Afonso Henriques soube lidar com a situação, o que prova que era inteligente e não conhecia apenas a força bruta.