Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

21 outubro 2011

Massacre



Para que fique claro: apesar de eu ser uma acérrima defensora dos direitos dos animais e de publicar histórias de amizade entre humanos e criaturas ferozes, não sou uma idealista, que julga que devíamos ir todos fazer festinhas às criaturas, para que elas ficassem mansinhas como a minha cadelinha terrier e  vivêssemos lado a lado, felizes e contentes. Se eu vivesse na cidade americana de Zanesville, estado do Ohio, onde mais de 50 animais perigosos andaram à solta, e se visse um leão ou um tigre à minha frente, também gostava que surgisse um polícia, ou alguém com uma arma, para matar o animal, antes que ele me atacasse.

No entanto, aquilo que, à primeira vista, parece uma ameaça de animais ferozes, foi, na verdade, mais uma vez, terror espalhado por uma mente humana doente, frustrada, perversa, paranóica, depressiva, eu sei lá.

Segundo a Reuters, Terry Thompson, o dono do zoo, mantinha os animais em más condições, chegando a alimentar os leões com carne de cavalos da sua propriedade que morriam de malnutrição. Os animais não estariam sequer habituados à presença humana, dado que Thompson não costumava receber visitas (...) Médicos veterinários que visitaram o local descreveram as condições do zoo como "deploráveis", diz a Reuters.

Ou seja, os tigres, leões, ursos, lobos, etc. não foram só vítimas da polícia que os abateu, mas, acima de tudo, de um ser humano que, um dia, vá-se lá saber porquê, se lhe meteu na cabeça ter um zoo privado!

Os animais do mundo existem pelas suas próprias razões. Não foram feitos para os humanos, assim como os negros não foram feitos para os brancos nem as mulheres foram criadas para os homens - Alice Walker

Quem é aqui feroz e perigoso?
As criaturas não pediram para ir para lá, não escolheram aquela vida e tenho a certeza de que preferiam, milhões de vezes, que as deixassem em paz, a viver no seu habitat natural.
O ser humano, por sua vez, não hesitou em pôr em perigo os seus semelhantes, ao soltar os animais, antes de se suicidar!

No meio de tanta tragédia, tento consolar-me com a ideia de que estes animais, depois de uma vida horrível, viveram algumas horas de liberdade, antes de serem abatidos. E havemos de nos encontrar no Paraíso. Porque, se no Paraíso de Deus, o leão convive com o lobo e o cordeiro, é mesmo para lá que eles vão!

4 comentários:

Olinda Melo disse...

Excelente reflexão, Cristina!
Retirar os animais do seu habitat natural, sujeitá-los a viver em condições inadmissíveis não abona nada a favor do Homem que se considera um animal racional, uma mente superior em relação aos outros animais...

Cristina Torrão disse...

Bem dito, Olinda :)

Bartolomeu disse...

Está aqui um caso difícil de perceber... Em princípio, o dono do zoo privado terá aprisionado os animais, por um motivo. Poderá ter sido para satisfazer uma excentricidade, um capricho, ou também por gostar imenso de animais, do mesmo modo que alguns homens mantêm as suas esposas fechadas em casa, porque as acham extrememente belas, porque as amam demasiadamente, porque desejam protege-las, estando afinal a priva-las do maior bem, a liberdade. Tanto que, por fim, o "dono" dos animais, se suicidou. O que leva a pensar que o terá feito por desgosto por não conseguir proporcionar aos animais as condições ideais de vida.
Aquilo que no meio desta história não estou a conseguir entender, é o facto de as forças policiais terem abatido os animais, em lugar de os terem atordoado com dardos anestesiantes e depois de enjaulados, os terem entregue a uma entidade de protecção à vida selvagem que os habilitaria à vida selvagem, ou os colocaria num zoo com condições adaptadas às espécies...

Cristina Torrão disse...

É verdade, Bartolomeu, o homem em questão devia ter muitos problemas e ser infeliz. Ninguém comete suicídio, se não o for. Mas despoletou toda esta tragédia.
Eu digo no post que, se me visse ameaçada, desejava que alguém abatesse o animal... Em princípio, não! Se houvesse alguém que o conseguisse apanhar, sem o matar, seria preferível. Mas é muito difícil de prever o que faríamos em situações de vida ou de morte, por isso, optei pela versão radical.
Mas a pergunta é pertinente: era mesmo necessário esta carnificina? As pessoas em pânico, a polícia com medo que acontecesse alguma coisa e que fosse depois responsabilizada...
Enfim, li, mais tarde, que alguns animais, uns 5 ou 6, puderam ser apanhados vivos e foram entregues a zoos. Mas 48 (!) foram abatidos.

P.S. Há uma doença psicológica, aqui na Alemanha conhecida pelo nome inglês de "animal hoarding", que consiste em "açambarcar" animais. Já se têm encontrado aqui quintas com 40, 50, ou mais cães; um homem, em Berlim, tinha milhares de canários no seu apartamento. Em todos os casos, os animais vivem miseravelmente, porque essas pessoas, embora gostem de animais, vêem-se, a partir de certa altura, incapazes de tratar deles. Mas não conseguem encontrar um limite, adquirem sempre mais. Uma desgraça! Uma doença!