Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

11 novembro 2011

D. Sancho I (que, na verdade, se chamava Martinho) nasceu há 857 anos

À altura do seu nascimento, D. Sancho I não estava destinado a ser o segundo rei de Portugal. A prová-lo, está o facto de ter sido baptizado com o nome de Martinho, por ter nascido a 11 de Novembro. Martinho era, no entanto, um nome sem tradição entre os reis hispânicos. E, passado algum tempo (de seis meses a um ano), mudaram-lhe o nome para Sancho.

Porquê uma história tão atribulada, tendo como protagonista o sucessor de D. Afonso Henriques?

Afonso Henriques - óleo de Carlos Alberto Santos

Na verdade, no dia de São Martinho de 1154, nasceu, não o primogénito, mas o segundo filho (legítimo) do primeiro monarca português. Destinado a ser o segundo rei de Portugal estava o seu irmão Henrique, que, na altura, tinha já sete anos. Era este o primogénito, a quem D. Afonso Henriques, note-se, deu o nome de seu pai. E o facto de ter dado o nome de Martinho ao menino nascido naquele dia indica que talvez o destinasse à carreira eclesiástica. Se Martinho não era nome para rei, seria adequado para um clérigo.

- Graças a Deus - repetiu o prelado. - E nascer assim, no dia de São Martinho... Tenho para mim que é um sinal dos Céus. 
- Pela minha saúde, senhor prior - replicou a aia, benzendo-se, - tirais-me as palavras da boca. Jesus! Até me parece que Deus nos quer dizer algo! 
- Será que Deus destinou este príncipe para uma carreira eclesiástica? 
Afonso opinou: 
- Ao futuro rei convinha ter um irmão clérigo, que quiçá venha a ser arcebispo… 
- E o nome, D. Afonso?
 O soberano não respondeu logo e Elvira atreveu-se: 
- Nascido neste dia, bem se podia chamar Martinho. 
D. Teotónio olhou-a intrigado, quiçá estranhando aquela impulsividade numa dama normalmente tão introvertida. Mas os olhos de Josefa iluminaram-se e a mulher dirigiu-se ao prelado, as mãos juntas como numa oração: 
- Quem sabe, seja isso que Deus nos tenta dizer, senhor prior: o principezinho deverá seguir uma vida na Igreja e levar o nome do santo! 
- É uma inspiração curiosa - admitiu Teotónio. - Não olvidemos, porém, que Martinho é um nome sem tradição nas casas reais hispânicas. E, enfim... Nunca se sabe se ele, numa qualquer eventualidade, ainda tenha de subir ao trono... 
- Para a vida eclesiástica - interrompeu-o Afonso, enervado com o comentário, - o nome seria adequado. E, fazendo a vontade a Deus, melhor contribuiremos para a recuperação da rainha. 
Josefa tornou a benzer-se e o rei anunciou: 
- Pois que se chame Martinho!

No ano seguinte, porém, talvez no Verão, dá-se uma reviravolta nos acontecimentos: o infante D. Henrique morre, com apenas oito anos de idade. Apesar de a mortalidade infantil ser alta, naquela altura, sou de opinião de que Afonso Henriques terá sofrido um grande golpe.

- Tendes de ser forte, meu rei, muito forte! 
Afonso engoliu em seco. 
- Morreu alguém, não é verdade? Mas quem, D. Teotónio, quem? 
O prelado soluçou, por entre um rio de lágrimas: 
- Nada se conseguiu fazer pelo infante... Nada... Adoeceu tão de repente... 
- O infante?
 Crianças morriam facilmente e Afonso pensou no mais novo, nascido há apenas seis meses:
- Martinho… Valha-me Deus! Martinho morreu? 
O prior levou um lenço aos olhos. Soluçava tanto, que quase não conseguia falar: 
- O infante Martinho... Não. O irmão... O irmão é que morreu... Coitadinho... 
Afonso abriu muito os olhos. De repente, tudo lhe parecia irreal. Devia ser um pesadelo! A respirar pesadamente, olhou à sua volta, como que a procurar a saída do inferno.

 



Devemos considerar que, além de perder um filho, Afonso Henriques viu destruído o seu sonho de o seu sucessor ter o nome do pai. Além disso, ele próprio já não era novo. Ia a caminho dos cinquenta, a esperança de vida não era longa (ninguém podia adivinhar que ele passaria os setenta) e, de repente, o seu sucessor não passava de uma criança de colo.

E havia a questão do nome. Porquê Sancho? No romance, eu dou a minha versão:


Nesta fase de tristeza e desolação, em que Mafalda, no seu quarto escuro, se mantinha longe dele, perguntava-se inúmeras vezes:valera a pena desposá-la?
Não entendia porque Deus o martirizava tanto. Procurava frequentemente o prior, que não perdia uma ocasião de lhe recordar que o infante devia ter um nome mais apropriado. Mas Afonso, depois de se ver obrigado a desistir do sonho de que o seu sucessor levasse o nome de seu pai, não encontrava cabeça para o assunto.
Um dia, deu consigo a pensar no avô, a quem o herdeiro, já homem feito, morrera em combate. Como se teria sentido o imperador, que, na altura, era bem mais velho do que ele? Afonso VI falecera um ano depois do filho, na incerteza do que sucederia aos vários reinos que ele unira, à custa de tantas lutas e de tanto sangue.
Afonso sentiu que devia dar o nome do herdeiro do avô ao filho: Sancho! Era, acima de tudo, um nome cheio de tradição nas casas reais hispânicas. A partir daquele dia, deixou de existir o infante Martinho. O príncipe herdeiro de Portugal chamava-se Sancho!

12 comentários:

Bartolomeu disse...

Cristina;
S'eu fosse o Dan Brown engendrava já, aqui e agora, uma teia enigmática, onde colocaria a tua cadelinha Lucy a qual homenageias no teu "D. Dinis", a encarnar um personagem Templário, eclesiástico ou, qui ça, uma aia de D. Mafalda a, por uma qualquer arte mágica de comunicação telepática que somente os canídeos conhecem, confidenciar-te os promenores dos diálogos íntimos que com imensa inspiração e agilidade literária, tão bem nos descreves.
;))

zorze disse...

Drª., e se fosse hoje chamar-se-ia Martim,
ou Mártine.

Adoro o seu blogue :-)

Cristina Torrão disse...

Bartolomeu, adorei essa da telepatia canina. E obrigada pelos elogios :)

Zorze, obrigada, mas não me chame de Drª...

P.S. Não sei o que se passa com a formatação do texto. Tentei corrigir os espaços, mas não consegui, o blogger dá-me o post para editar sem espaços.

Anónimo disse...

O blogger é um ímpio!

E o meu avô Afonso, o Primeiro, sofreu muito, coitado... Mas safou-de em Alcácer do Sal, terra de todas as suas alegrias!

Simão Gamito

Anónimo disse...

Sendo este um blog de andanças medievais, venho aqui partilhar uma "coisa" que a tv trouxe ao meu conhecimento: Margarida Rebelo Pinto vai lançar um livro onde nos conta a última semana da vida de D. Inês de Castro.

Vou ficar com muita pena de não saber o que se passou nessa semana da vida da rainha, que terá sido atribulada, sem dúvida, porque não tenho intenções de ler o livro.

Mas vim aqui partilhar essa notícia da tv; simultaneamente, a excritora foi entrevistada, não percebi nada do que ela disse, mas sei bem que a falta é minha.

Lembro-me sim, que me veio à ideia o nome de Paulo Coelho, talvez porque me cruzei com ele hoje de manhã, no Jumbo, quando fui às compras com a minha mulher. Com ele, isto é, com os últimos 19 livros que ele escreveu nas últimas semanas e que o Jumbo tem em exposição.

De modos que é assim...

Simão Gamito

George Sand disse...

As coisas que se recordam e se aprendem aqui. Muito bom Cristina

Cristina Torrão disse...

Caro Simão, obrigada pelo seu interessante comentário, que gostei muito de ler, mas que eu própria não comento, pois não conheço nenhum livro de Margarida Rebelo Pinto. Mas algo me diz que o facto de o Simão não ter entendido a entrevista não será defeito seu... ;)

Também nunca li Paulo Coelho.

George Sand, muito obrigada :)

Olinda Melo disse...

Belíssimo, Cristina!

Só hoje pude aqui chegar e encontro textos interessantíssimos que nos actualiza, de forma aliciante, sobre aspectos da nossa História.

Parabéns, por esse seu dom.

Bj

Olinda

Olinda Melo disse...

correcção:

actualizam... :))

Anónimo disse...

Cristina: eu também não!

Simão Gamito

Cristina Torrão disse...

Obrigada, Olinda. O meu principal objectivo é tornar a nossa História interessante. Penso que a maior parte das pessoas não se interessa porque a acha uma coisa muito chata. Também eu já pensei assim. Mas, se nos concentrarmos nos seres humanos que estão por trás dela (da História) , tudo se torna mais interessante.

Simão, confesso que já estive quase, quase a ler o Paulo Coelho...

Anónimo disse...

Cristina, se chegar a ler, conte-me :))

Eu gosto da História por essas razão: as pessoas! O que pensavam, como comiam, que vestiam, como viviam... Refiro-me aos tempos de antigamente, às tais andanças medievais.