Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

24 novembro 2011

Não deixar saudades

Pobre dele? Coitado? Infeliz? Deus se compadeça? Desconhecemos as razões, mas era mau, mesmo para os que lhe queriam, os do seu sangue.
Trombudo, azedo, arrogante, violento, cheio de si. A soco e pontapé, com o cinto, à varada, mais de cinquenta anos bateu na mulher, nos filhos, na mula, no cão, nas galinhas que se lhe atravessavam no caminho. Desdenhoso, olhando de esguelha, as boas-horas, se as dava, saíam-lhe dentre os lábios como a cuspir um insulto.
É terrível, este sentimento: alguém morre e não deixa saudade.

Surripiado ao Tempo Contado.

6 comentários:

João Raposo disse...

Há uns anos contaram-me de um caso semelhante. Um homem morreu sozinho no hospital. Nem a mulher ou qualquer dos filhos o acompanhou.
Não faltaram depois a vozes, sobretudo de vizinhos, a acusarem-nos de que isso não se fazia a ninguém. Os vizinhos eram os mesmos que durante toda a vida assistiram mudos e quedos à violência que aquele homem exercia sobre a mulher e filhos, bêbado ou sóbrio.
É muito bonito fazermos de conta que somos responsáveis e solidários, desde que na prática não tenhamos que ser nós a agir.

Cristina Torrão disse...

Caro João Raposo, é sempre duro ouvir dizer que alguém morreu sozinho. Mas muitas vezes me pergunto que razões conduzem a isso.
Aqui há tempos, em Trás-os-Montes, onde moram os meus pais, um amigo de juventude do meu pai faleceu e, ao contrário do filho dele, a filha não compareceu ao enterro! A aldeia em peso fala, ainda hoje, mal dela, que mora no Porto e nunca mais lá pôs os pés.
Eu ouço todas essas críticas, mas pergunto-me: o que levará uma filha a fazer isso? Porque eu, que a conheci em pequena, não acredito que ela tenha feito isso de ânimo leve. Nenhuma filha o faz! É preciso ter acontecido alguma coisa de grave. Pelo menos, é essa a minha opinião.

Bartolomeu disse...

Gosto imenso da escrita de Jorge Rentes de Carvalho.
A forma como introduz o leitor no ambiente que cria, o modo directo e despretencioso como aborda as questões, a genuinidade como descreve os cenários e os figurantes, etc.
Tenho pena de não ser possível comentar no blog dele.
A questão, ou as questões que levam as pessoas a estarem presente ou o contrário, no momento do falecimento de um familiar ou amigo, poderão ser variadíssimas, incluindo na lista, tanto os motivos de amor, como os de ódio e ainda os de indiferença.
Penso também que tem a ver com a proximidade ou o distanciamento, as memórias de infância ou a ocorrência de actos importantes que marcaram profundamente esse afastamento ou essa aproximação.
Contudo, penso que o momento do falecimento, conta mais para quem fica, que para quem parte, como é obvio, aquilo que provoca a construcção da opinião de terceiros e, por conseguinte, a crítica, tem a ver penso eu, com alguma superstição que ainda domina sobretudo nas sociedades do interior do país, mais arreigadas às tradições e ao misterioso.
;)

Cristina Torrão disse...

Também acho pena não se poder comentar no blog de Jorge Rentes de Carvalho. Adoro os posts. E, como nunca li nenhum livro dele, acho que vou ter de abrir os cordões à bolsa da próxima vez que for a Portugal ;)

Quanto ao assunto em questão, é verdade que o momento da morte de alguém e/ou o seu enterro podem ser boas ocasiões para se esquecerem ódios e rancores. Por outro lado, será isso sempre possível?
Já diz o ditado: Quem semeia ventos, colhe tempestades.

CAL disse...

..."será isso sempre possível?"
Sim, quando reconhecemos as nossas limitações!
Uma pessoa para viver dessa forma, tão bem descrita por José Rentes de Carvalho, devia odiar viver. Pessoas existem com maior ou menor grau de sociabilidade até ao ponto de parecerem desumanas. Serão desprovidas de sentimentos?
P S - Faço minhas suas palavras: quando for a Portugal comprarei alguns de seus livros e de JRC.

Cristina Torrão disse...

CAL, eu penso que ninguém é desprovido de sentimentos. Mas, nalguns casos, estes estão tão recalcados, tão mortos no interior da pessoa, que, desenterrá-los, se torna doloroso. Porque a pessoa tem medo deles e prefere continuar a viver como vive, embora odeie a vida, o mundo e, no fundo, a si própria.

Pela minha parte, obrigada pelo seu interesse :)