Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

06 novembro 2011

Os amanhãs que cantam

Vivo, há quase 20 anos, num país que vê o ideal comunista destituído de qualquer romantismo e constato que, em Portugal, de vez em quando, ainda se nota uma nostalgia herdada da Revolução de Abril. A última vez, foi no Horas Extraordinárias, onde a sua autora dizia:

Quando fui a Cuba no início dos anos 90, levaram-me a uma fábrica de charutos em Trinidad, cidade belíssima, onde alguém me contou que em tempos os operários contavam com a ajuda de um funcionário que lhes lia romances enquanto trabalhavam. Também na Europa de Leste, em alguns países, era prática comum ler-se para os trabalhadores fabris, não sei se para os ilustrar, se para os entreter.

Alguns comentários elogiam igualmente a cultura dos países de leste. A mim não me consta que os habitantes da antiga RDA, que, pelos vistos, terão ouvido grandes obras literárias enquanto trabalhavam, sejam mais cultos que os ocidentais. Pelo contrário! Ainda hoje se nota neles o "novo-riquismo", uma grande ânsia de consumismo e de imitar os do ocidente. Isso verifica-se, aliás, em todos os países do antigo Bloco de Leste, com a Rússia à cabeça. Se liam em voz alta aos operários, ou era para os desviar de certos pensamentos "perigosos", ou se tratava, pura e simplesmente, de propaganda. Os dirigentes de regimes totalitários nunca deram ponto sem nó e sempre se serviram da censura.

Além disso, certos comentários manifestaram igualmente o seu encanto pelo povo cubano, que, mesmo na miséria e sob um regime que o subjuga, não perde a vontade de se divertir e de olhar para o lado belo da vida. Desculpem, mas, com todo o respeito que os cubanos me merecem, isto deixa-me um certo amargo de boca, um sabor salazarista: pobrezinhos, mas alegres, contentes e conformados! Há um certo resíduo letárgico neste tipo de atitude. Se os cubanos mostrassem mais vezes o seu descontentamento e se revoltassem contra a pobreza e a injustiça em que vivem, talvez já tivessem expulsado da sua ilha as múmias que os governam!

Combinar a nostalgia do comunismo com a herança do salazarismo... Só mesmo em Portugal!

8 comentários:

fallorca disse...

«Se liam em voz alta aos operários, ou era para os desviar de certos pensamentos "perigosos", ou se tratava, pura e simplesmente, de propaganda.»
Seriam livros «editados» pela mencionada senhora?

Cristina Torrão disse...

Não faço ideia, fallorca.

Pelos vistos, já havia esse hábito em Cuba, antes da revolução de Fidel Castro (pelo que dizem nos comentários, citando Alberto Manguel). Não sei, se depois, esse hábito persistiu e, se sim, que tipo de obras eram lidas.
Quanto aos países da Europa de Leste, quando falo nesse possível hábito, aqui na Alemanha, as pessoas limitam-se a rolar com os olhos.

Anónimo disse...

A minha vontade era copiar isto tudo e levar para o meu FB e dizer que eu é que tinha escrito este texto... Mas é feio fazer isso, não é Cristina?!

De modos* que só lhe digo que concordo consigo: não há nenhuma beleza na vida sob ditadura. Embora cada um de nós tenha momentos belos, por exemplo, quando os meus filhos nasceram ou quando eu soube que não iria combater numa guerra de que não percebia nada.

Mas apesar de não haver nenhuma beleza nas ditaduras, esta, "esta" democracia em que vivemos, também não é a melhor solução para nós. O dinheiro tomou conta de tudo, o consumismo impera, e eu só sei que tudo nasce, vive e morre. E já morreram tantas civilizações ricas...

*gosto de dizer assim, não faça caso.

Simão Gamito

Bartolomeu disse...

Qualquer ditadura é castradora, obviamente, contudo, no ser humano, existe uma natural propensão para se sobrepor, para a omnipotência, para impôr a sua vontade e exigir que a mesma seja religiosamente respeitada (não foi à toa que coloquei religião e respeito, a par).
;)
No entanto, entendo que a ideologia subjacente ao marxismo e que pretendia forjar um "mundo novo" acabando com exploração burguesa e conservadora exercida sobre aqueles que trabalhavam na indústria e na agricultura, visava uma igualdade social que degenerou nessa ditadura que é uma característica humana.
O mal, não me parece que exista nas ideologias, mas sim nas sociedades.
;)

Cristina Torrão disse...

Sim, eu também vejo virtudes na ideologia marxista, mas pergunto-me se será possível pô-la em prática.

Entretanto, não se vislumbram grandes soluções, é verdade que também vivemos numa espécie de "ditadura dos mercados".

P.S. Simão, se quiser levar o texto para o seu FB, indicando a fonte, esteja à vontade ;)

Anónimo disse...

Não levo, Cristina, obrigada... Numa outra oportunidade, com um outro tema, quem sabe. Mas se algum dia o fizer, dir-lhe-ei, claro e referirei a fonte com todo o prazer e orgulho.
Não sou muito de usar partilhas e coisas assim no meu fb, praticamente, só mesmo as minhas "parvoíces".

Mas, voltando ao tema: o marxismo em si, não serve para ninguém, é a minha opinião. Mas se se tivesse chegado onde ele queria, aí sim, valia a pena: ao socialismo. Mas isso é uma utopia, dada a natureza humana ser como é.

Simão Gamito

Daniel Santos disse...

Somos um país original.

Cristina Torrão disse...

Originalíssimo. O que também tem as suas vantagens, de vez em quando ;)