Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

29 setembro 2011

Religião e Natureza


Aquilo que parece uma fotografia normalíssima (um lavrador à frente das suas vacas) tem que se lhe diga. O camponês em questão é um monge beneditino, pertencente ao mosteiro de Plankstetten, na Baviera. Na propriedade de 120 hectares, existem à volta de 130 cabeças de gado bovino, 80 vitelos, 150 porcos, 80 cabras e 30 cabeças de gado selvagem. Além disso, há culturas rotativas, de seis em seis anos, englobando trigo, milho, centeio, cevada, batatas, ervilhas e malte para cerveja. E, numa estufa, cultiva-se couve branca e vermelha, alface e rabanetes.

Uma outra particularidade desta quinta: há cerca de quinze anos que pratica agricultura biológica e trata os seus animais com respeito e dignidade. "Recebemos a Natureza de presente e cabe-nos respeitá-la", diz Richard Schmidt, o monge da fotografia. No Verão, as vacas pastam todos os dias ao ar livre e está a ser construído um estábulo para os porcos, onde estes terão quatro vezes mais espaço do que nos convencionais.

O mosteiro tem uma loja própria, onde se vendem os seus produtos (incluindo presuntos, enchidos, pão e cerveja), mas já supermercados e outras lojas biológicas da Baviera os procuram.  Os monges beneditinos de Plankstetten têm tido tanto sucesso, que outros conventos da região seguem o seu exemplo.

O monge Richard Schmidt diz-nos ainda: "A Igreja não se deve limitar a pregar o respeito pelas criaturas de Deus e a preservação da Natureza, deve passar à acção, dando o seu contributo e servindo de exemplo."

27 setembro 2011

É mesmo necessário?

Gosto de ler coisas destas num Jornal Católico (da autoria de Stefan Branahl; tradução minha, do alemão):

Para dissipar as dúvidas: nada tenho contra o facto de se criarem animais para a nossa alimentação. Mas protesto, quando galinhas, porcos ou vacas são sujeitos a vários tipos de sofrimento, para que o consumidor tenha acesso a um assado cada vez mais barato. Gostaria que os animais não fossem mantidos em construções apertadas, onde não se podem mexer e comportar-se como a sua natureza o dita.

Um frango atinge o peso ideal ao fim de 30 dias, equivalente a uma criança de dez anos com 140 quilos, um resultado conseguido igualmente à custa de manipulação genética. Os ossos não conseguem acompanhar este desenvolvimento acelerado, muitos dos animais não se aguentam nas pernas e não conseguem atingir o bebedouro, assim perecendo, ou são esmagados pelos outros. Quando penso nisso, perco o apetite.

Frangos, porcos e vacas são torturados, desde que a indústria se apoderou da sua criação. Milhões de pintainhos machos são gazeados, ou mortos por outros processos, acabando no lixo, quando se trata da criação de galinhas para a postura de ovos. E que dizer de porcos que, devido ao exíguo espaço em que vivem, desenvolvem canibalismo? Os animais tornaram-se produtos que devem ser "manufacturados" com o menor custo possível, perderam toda a sua dignidade. Porque é que nós humanos os sujeitamos a isso? E porque é que nós próprios nos sujeitamos a isso? Chegamos ao ponto de nos preocupamos mais com a qualidade do óleo que usamos nos nossos carros, do que com a da carne que aterra no nosso prato.

Num outro artigo deste jornal, a sugestão: se limitarmos o nosso consumo de carne a três ou quatro vezes por semana, por exemplo, estaremos em condições de pagar a carne biológica, mais cara. Nas quintas biológicas, há mais possibilidades de a dignidade dos animais ser respeitada. E a carne é de melhor qualidade.

26 setembro 2011

Hambúrgueres e iogurtes

Na OML de Setembro, é publicada uma entrevista a Carlos Veiga Ferreira, editor que deixou a Teorema e fundou a Teodolito. Gostaria de comentar a seguinte passagem:

Os eBooks estão ao nível dos iogurtes e dos hambúrgueres. Só comi um iogurte e um hambúrguer em toda a vida. E não vou comer mais nenhum.

Passando ao lado da polémica dos eBooks, gostaria de saber porque é que este prestigiado editor pôs hambúrgueres e iogurtes no mesmo saco. Se os primeiros são o símbolo da fast-food, a comida moderna, descartável e industrial, prejudicial à saúde e aos costumes da boa mesa, os iogurtes são um alimento riquíssimo e (importante) antigo. O único problema é que eles não têm grande tradição em Portugal. Na Alemanha e nos países nórdicos, porém, o iogurte é algo tradicional, campesino, ao lado do queijo, da manteiga e de outros produtos lácteos. Por isso, a comparação utilizada é, a meu ver, um pouco infeliz. Deixemos ficar os hambúrgueres, mas tiremos de lá os iogurtes!

25 setembro 2011

Instituto para a Zoologia Teológica

A Igreja Católica alemã ocupa-se de temas como a defesa do meio ambiente e os direitos dos animais, o que eu considero ser uma boa forma de reinvenção, de provar a sua utilidade na sociedade actual. No Jornal Católico do Bispado de Hildesheim, li um artigo sobre o Instituto para a Zoologia Teológica (Institut für Theologische Zoologie), em Münster. O seu símbolo é uma imagem medieval, representando São Jerónimo, na companhia de um leão.



Um dos fundadores deste Instituto é o Padre Dr. Rainer Hagencord, que, já depois de ter sido ordenado, tirou os cursos de Biologia e Filosofia, com foco na Biologia do Comportamento. Interessou-se pelo diálogo interdisciplinar entre Teologia e Biologia, precisamente o tema em que se doutorou, com uma tese intitulada: "O Animal: um desafio para a Antropologia cristã" (Das Tier: Eine Herausforderung für die christliche Anthropologie).

O Padre Dr. Rainer Hagencord é um defensor da inclusão de animais na psicoterapia humana, como aliás vem sendo prática na Alemanha. Dos golfinhos, aos cavalos e aos cães, todos eles ajudam seres humanos a superarem doenças psicológicas e/ou deficiências. Está provado, por exemplo, que, em contacto com os animais, as crianças criam auto-estima e confiança em si próprias e nos outros. Aliás, a ideia de usar animais em psicoterapia vem dos anos 60. O psicólogo infantil Boris M. Levinson constatou que conseguia "alcançar" melhor um dos seus pacientes, uma criança desprezada e extremamente introvertida, quando esta levava o seu cão para as consultas.

A vantagem dos animais, segundo o Padre Dr. Rainer Hagencord, é que o encontro entre um humano e um animal acontece sempre para além do plano racional. Um cão encara todas as pessoas com as mesmas amizade e despreocupação e desprovido de preconceitos, esteja a pessoa doente, mal lavada e vestida, ou mesmo a babar-se. Porque o animal, através do contacto visual, reconhece a pessoa como um ser perante ele, como um "tu", nunca como uma "coisa", daí se poder estabelecer desde logo uma relação entre os dois.

Mas o Padre Dr. Rainer Hagencord vai mais longe, para falar na questão da alma. Na sua opinião, todos os seres vivos, pessoa ou animal, são providos de alma. Diz ele que a alma é o mistério do outro, uma aura que estabelece proximidade e confiança. Na tradição europeia, os animais foram esquecidos. Descartes via neles autómatos desprovidos de alma e Kant considerava-os coisas. Na Bíblia, no entanto, dá-se um outro valor à relação entre o ser humano e o animal e, mesmo, entre Deus e o animal. Para Jesus Cristo, os pássaros servem de exemplo e de modelo às pessoas. Por isso, na opinião do Dr. Rainer Hagencord, do ponto de vista bíblico, pessoas e animais são almas tornadas vida, São Tomás de Aquino disse mesmo que os animais vivem numa grande proximidade a Deus.

O Instituto para a Zoologia Teológica esforça-se por restituir a dignidade aos animais e, claro, combate o consumo desenfreado de carne, tão característico da nossa época. Este Instituto é muito considerado pelos bispos alemães, o jornal católico acima referido já por duas vezes lhe deu grande destaque, dignificando a imagem dos animais no nosso mundo, criado por Deus.

Brevemente, falarei na psicoterapia com a ajuda de cavalos e de Barney, um cão labrador-retriever que apoia os professores numa escola alemã.

23 setembro 2011

Para onde fogem?

Da autoria de Rui Hebron, publicado no Jugular:

"É certo: há nostálgicos e há espertalhões que defendem seja o que for desde que sirva para manter o seu negócio. O que não há, entre as elites, é desinformados. Sabia-se o que era a RDA e sabe-se o que são Cuba, China, Síria, Arábia Saudita ou Irão. E, em caso de dúvida, temos o senso comum. Em que direcção fugiam os alemães? Isso diz tudo. Corriam do leste para ocidente e não ao contrário, assim como agora há quem vá de sul para norte, também por razões de liberdade, de justiça, de guerra e fome. Se nas escolas se explicasse a fundo em que direcção os povos fugiram ao longo dos tempos, talvez houvesse menos mal-entendidos e mais prevenção perante certos profetas."
(Clicar no link para ler o texto completo).

Não resisto a completar estas afirmações com palavras do escritor cubano Leonardo Padura, a propósito do seu livro O Homem que Gostava de Cães (Porto Editora, 2011):

"O meu livro mostra como a União Soviética, a partir da época de Estaline, sofreu um acelerado processo de dogmatização, de perversão, que acabou por converter o país numa autocracia onde só Estaline decidia. Não decidia só o que acontecia na União Soviética, decidia o que acontecia no resto dos partidos comunistas do mundo. Quem não correspondia a essa ortodoxia ficava de fora".

"O sentido de perda de identidade, de perda de independência, de perda de espaço para se poder pensar, para se poder decidir, é um dos elementos mais dramáticos desta perversão da utopia socialista, que tinha como princípio criar uma sociedade onde houvesse o máximo de liberdade com o máximo de democracia. Digo o mais dramático porque não devo dizer o mais terrível; o mais terrível é o que matou mais de 20 milhões de pessoas".
 

"... o Partido Comunista Cubano trata de afastar-se do que significou esse modelo, trata de propor um modelo social e económico diferente. Como vão conseguir fazê-lo, e se a burocracia vai permitir que esse afastamento seja possível ou não, é algo que só o futuro dirá. Mas é evidente que mesmo os mais altos dirigentes cubanos se deram conta de que tinham cometido um grande erro ao importar um sistema que já vinha doente, que já estava pervertido."

21 setembro 2011

Do trabalho de escrever um romance histórico


Felizmente, vai havendo escritores que mostram todo o trabalho que se esconde por detrás de um romance histórico. Estou a falar do cubano Leonardo Padura, que deu uma entrevista à Ípsilon no passado mês de Abril, a propósito do seu livro O Homem que gostava de Cães (Porto Editora 2011).

Deixo aqui as suas palavras:

"Passei dois anos a investigar, não fazia mais nada. Li muito, sistematizei o meu conhecimento e quando já tinha capacidade para poder movimentar as personagens na história comecei a escrever. Isso aconteceu três anos antes de terminar o romance." (a escrita levou todo este tempo porque o autor não deixou de pesquisar e ia encontrando novas informações, que se via obrigado a incluir no enredo já existente).

(Leonardo Padura) gosta de utilizar a História como componente da ficção porque acredita que "a ficção é capaz de realçar a parte mais dramática da História" (...) "É muito complicado escrever romances históricos no sentido em que os acontecimentos da realidade têm a sua própria dramaturgia e os acontecimentos da literatura têm de ter a sua - que é diferente. Têm leis diferentes. A realidade é realidade, a ficção é ficção, e comportam-se de maneiras dramaticamente diferentes. É complicado tratar o romance histórico tentando ter um respeito pelos factos reais."

Muitos escritores dizem que os seus livros acabam por seguir um rumo diferente daquele que tinham planeado, porque, tanto as personagens, como o enredo, ganham vida própria. Também me acontece. Mas, ao escrever um romance histórico, temos de desenvolver uma grande disciplina, a fim de nos cingirmos aos factos. É necessário seguir um "guião" já existente e precisamos de força para nos despedirmos de ideias geradas pela dinâmica do romance e regressar à linha ditada pela História. Existe a obrigatoriedade de nos adaptarmos a personagens que não foram criadas por nós e do esforço de coordenação das pesquisas, construindo um enredo credível, lógico e susceptível de criar dramatismo e suspense.

Ao ler as palavras de Leonardo Padura, lembrei-me das da autora brasileira Patrícia Melo. Deu uma entrevista à OML nº 83, no já longínquo Janeiro de 2010, mas eu apontei uma das suas afirmações e cito-a aqui, pois, embora pronunciadas num contexto diferente, no seu princípio, podem aplicar-se à escrita de um romance histórico:

"Hoje, tenho medo de fazer adaptações. O fato de já haver uma história e personagens pode dar a ilusão de que o trabalho será mais fácil. Mas é muito mais fácil trabalhar com histórias originais".

Em Espanha, existe o Premio de Novela Histórica Alfonso X El Sabio, que, todos os anos, distingue uma obra de ficção histórica. Para quando, em Portugal, um país com uma História tão rica, tal reconhecimento e incentivo para quem se dedica a este tipo de literatura?

20 setembro 2011

Vida de Abandono



Há um novo blogue, Vida de Abandono, que fala de vidas de animais domésticos recuperadas do abandono. As histórias são contadas sob a perspectiva do animal, o que eu acho muito importante, porque lhes dão uma voz. Muitas vezes, os animais são vistos como coisas e, não, como seres com sentimentos, seres que sofrem. Porque eles sofrem!!! Sofrem quando têm fome, mas, também, quando estão sozinhos e desprezados.

Dizem-se coisas do género:

- Eu tenho os meus cães fechados em jaulas, eles habituam-se!
É verdade. E as pessoas? Também se habituam, tal e qual, já tem havido casos (infelizmente).

- Eu deixo o meu cão sozinho todo o dia, ele não morre por isso!
Pois não. Tal e qual como as pessoas, crianças incluídas!

- Que passe fome, ele aguenta muito tempo sem comer!
Uma pessoa também, mais de um mês!

Uma outra particularidade do Vida de Abandono é que conta casos que tiveram um final feliz. Há muitos blogues que apresentam os maus tratos e as misérias. Também é necessário. Mas uma mensagem de esperança é sempre bem-vinda. E, às vezes, consegue converter melhor os cépticos.

15 setembro 2011

Cerco e Conquista de Lisboa VIII


O ponto de viragem nos acontecimentos acabou por acontecer já em meados de Outubro, quando os cruzados alemães e flamengos alcançaram os fundamentos das muralhas do lado oriental, através de um túnel que os muçulmanos não lograram destruir. Um ataque foi preparado.


            Junto com Arnulf de Aarschot e Christian de Gistell, Afonso e os seus barões posicionaram-se no cimo da colina oriental, de maneira a poderem observar os acontecimentos, que decorreriam na zona do arrabalde, entre as portas al-maqbara e al-hamā.
Os ingleses e franceses já tinham começado o seu ataque no lado ocidental, fazendo com que os mouros concentrassem aí forças, e os cruzados flamengos e alemães esperavam que o fogo, por baixo dos fundamentos ocos da muralha, tivesse o efeito desejado.
            Todos observavam suspensos as muralhas que se erguiam no cimo do morro, por detrás do arrabalde... Até que estas, debaixo de um grande estrondo, ruíram, abrindo uma brecha de uns quinze passos de largura. Lançando os seus berros de guerreiros, os cruzados precipitaram-se colina acima. Só quando a nuvem de pó e terra, provocada pelo ruir dos muros, se começou a dissipar, é que o rei e os seus acompanhantes puderam seguir as lutas sangrentas que se travavam.
            A esperança depressa se desvaneceu. O estrondo da queda das muralhas tinha feito ruir muitas das casas de taipa do arrabalde vazio e, por entre as vielas estreitas, os destroços dificultavam o escalar do cerro. Os mouros, apesar de terem que defender a brecha, encontravam-se na posição mais alta e lograram, mais uma vez, pôr os cruzados em fuga.
- Outro combate perdido - murmurou Afonso entre dentes. Mas, sentindo a frustração à sua volta, disse alto: - Este ataque serviu para enfraquecer ainda mais o inimigo. Que há-de vergar os joelhos! Todos sabemos que receia a vinda do Inverno.
            - Mais do que nós? - retorquiu Arnulf de Aarschot irónico.
Depois de ter obtido a tradução destas palavras, o rei replicou, antes de lhe virar as costas:
            - Em vez de me lançardes olhares descontentes e palavras pessimistas, devíeis rezar para que eu tenha razão.




           Seria por falta de preces que os acontecimentos continuavam a correr em desfavor do monarca português? Apesar de várias ofensivas por parte dos cruzados na zona do arrabalde oriental, os mouros conseguiram tapar a brecha nas muralhas com uma paliçada de madeira.
A 19 de Outubro, a tão esperada torre de assédio ficou finalmente pronta. Coberta pelas peles húmidas, foi deslocada à volta da torre albarrã, na ponta sudoeste de Lisboa. O seu objectivo era novamente o cimo das muralhas por sobre o pequeno postigo que dava acesso à praia.
Os atiradores de arco ingleses, no alto do engenho, apoiados pelos seus companheiros das naus, conseguiram uma primeira vitória: os mouros posicionados na torre albarrã precipitaram-se por sobre o passadiço muralhado, refugiando-se na cidade.
Não obstante, a torre dos ingleses deslocava-se a passo de caracol, por sobre a areia. Talvez por isso os mouros tenham arriscado um ataque através do postigo. Saíram para a praia e caíram em cima dos cruzados, dando início a uma das lutas mais ferozes do cerco. Sabres penetravam nos corpos, machados abriam crânios e, misturada com o sangue, a areia transformava-se numa massa vermelha e pegajosa, envolvendo os cadáveres, sobre os quais os combatentes tropeçavam.
Passado o primeiro momento de surpresa, os cruzados ganharam vantagem e forçaram os mouros a recuar. Destes, os que conseguiram alcançar o interior das muralhas, logo trancaram o postigo, deixando os seus companheiros à mercê dos cristãos, que, atacados pela febre da chacina, só descansaram quando já não havia um único mouro vivo.
            Porém, e apesar de imune às setas incendiárias, só dois dias mais tarde, a 21 de Outubro, a torre móvel alcançou as muralhas.
- Os soldados preparam-se para lançar a ponte que ligará o cimo da torre ao adarve - informou um mensageiro. - A invasão da cidade pode acontecer a qualquer momento.
            Mas logo surgiram perante o rei e os seus barões guerreiros ingleses aos berros. Falavam todos ao mesmo tempo, gesticulando como doidos. Afonso exigiu a presença de Hervey de Glanville, que, com a ajuda de um tradutor, informou que os mouros tinham baixado as suas armas, assim que a ponte de ligação tocara o cimo dos muros e antes que um só único cruzado pudesse saltar para o adarve. Os infiéis solicitavam tréguas. Mas só negociariam com Ibn Errik!


Descontentes com o facto de os mouros só negociarem com D. Afonso Henriques, os cruzados iniciaram uma série de motins, que quase deitaram tudo a perder, quando Lisboa estava já praticamente nas mãos do rei português.

13 setembro 2011

Cerco e Conquista de Lisboa VII


Os cruzados construíram várias minas, a fim de atingirem os fundamentos das muralhas, mas os mouros, adivinhando em que direcção eles cavavam, construíam contra-minas, fazendo desabar as do inimigo, ou atacando-os nos corredores estreitos. O cruzado Konrad vê-se nessa situação:


           Deu meia-volta. As velas ao longo da mina, que ainda não se tinham apagado com a deslocação do ar, chegavam para ver o vulto do inimigo de espada em punho, envergando uma cota de malha e segurando um escudo redondo na mão esquerda. Konrad lançou-se a ele com um grito de raiva, tentando atingi-lo na cabeça com a sua espada que segurava com as duas mãos. O mouro, que não contava com ataque tão repentino, quase caiu, mas teve o reflexo de levantar o escudo, contra o qual bateu a arma de Konrad. E logo respondeu ao ataque.
            Konrad defendia-se como podia, em clara situação desvantajosa, por não estar tão bem armado. Não aguentaria muito tempo. Deu-se entretanto conta de que se formara um grande espaço entre ele e os que fugiam à sua frente. Assim que a luta o permitiu, tornou a virar-se e correu o mais que podia. Quanto faltaria até chegar ao fim do túnel? Tinha perdido qualquer noção de espaço. E quando se aproximou dos seus companheiros em fuga, mais lentos, teve de se lançar mais uma vez à luta.
            O mouro era ágil e rápido, Konrad sabia que dificilmente lhe poderia causar ferimentos letais. Além disso, via-se obrigado a usar a sua própria espada mais como arma de defesa do que de ataque. As forças começaram a faltar-lhe, mas entretanto os seus companheiros tinham-se tornado a distanciar. E o túnel haveria de chegar ao fim.
            Desta vez, revelava-se-lhe difícil arranjar uma oportunidade para virar costas à luta. Arriscou um ataque, descurando a própria defesa. Deu certo: o mouro teve que cobrir a cabeça com o escudo e Konrad aproveitou para lhe virar as costas. Mas não foi suficientemente rápido. O outro avançou de espada em punho e atingiu-lhe o braço. A dor lancinante fez com que as pernas de Konrad lhe fraquejassem. Mas, se ali caísse, era o seu fim. O desespero deu-lhe forças que ele não imaginava ter e viu-se a correr a toda a velocidade.
            O sangue escorria-lhe do braço direito e a dor roubava-lhe o discernimento. Não fazia ideia se já estava perto dos seus companheiros, nem se o mouro o alcançava. Ficou tonto, sentia-se desmaiar. Já não corria, cambaleava de encontro às paredes da mina… Até que caiu ao chão.

Konrad consegue salvar-se, pois os mouros, depois de atacarem os cruzados, regressavam à segurança das muralhas. Nesse dia, dá-se o episódio de Martim Moniz, celebrado, pelos portugueses como o maior herói do cerco.


            Já comiam, quando Konrad comentou:
            - Mais uma mina que falhou.
            - Quem haveria de dizer que os mouros resistiriam tanto tempo? - replicou Gunther.
            - E hoje não deram só cabo do nosso túnel - acrescentou Hadwig. - Também neutralizaram um ataque português à alcáçova.
            - É mesmo? - admirou-se Konrad. - Os portugueses tornaram a trepar às muralhas?
            - Não - respondeu Johann. - Desta vez atacaram a porta perto da torre da cisterna.
            - E o que é que falhou?
            - Ainda não sabemos - respondeu Hadwig. - Mas, ou muito me engano, ou os nossos dois amigos nos virão informar, depois da ceia.
            Assim aconteceu. Julião e Tomé vinham agitados, clamando que naquele dia tinha morrido um herói! Contaram uma história curiosa sobre um grupo de portugueses que, ao notarem que os mouros tentavam fazer uma surtida pela porta da alcáçova, os atacaram. Ao verem-se descobertos, os muçulmanos logo regressaram ao seu refúgio. E preparavam-se para fechar a porta, quando um cavaleiro português, de nome Martim Moniz, não se conformando com o desfecho da refrega, se precipitou sozinho para o meio dos infiéis. Ao mesmo tempo que lutava com uma horda deles, assim contavam Julião e Tomé, atravessou-se na porta, impedindo que esta se fechasse e permitindo que alguns dos seus companheiros entrassem na alcáçova…
Acabou por morrer esmagado. Julião e Tomé juravam que o seu acto servia de exemplo a todos os guerreiros. Os dois estavam convencidos de que, durante todo o cerco, ainda não houvera um herói como Martim Moniz!
            A Konrad, que naquele dia também enfrentara perigos, salvando vários companheiros da morte certa, não lhe apetecia continuar a ouvir os elogios com que os dois portugueses enchiam o tal cavaleiro. Sentindo-se com forças, depois de matar a fome, levantou-se, lançou a sua capa pelos ombros e, com o punhal enfiado no cinto, caminhou até à margem do rio.


Na verdade, os cruzados achavam que os portugueses pouco contribuíam para o cerco, o que, no fim, quando a cidade já estava praticamente rendida, causou alguns problemas a D. Afonso Henriques, como veremos.

11 setembro 2011

Cerco e Conquista de Lisboa VI

Ilustração de Jorge Miguel

Uma cena de A Cruz de Esmeraldas, quando já se passava fome na cidade:


            Aischa não conseguia adormecer. Esperou que as outras mulheres se deitassem para se escapulir para o jardim. Chegada ao repuxo, que, nestes tempos, não era posto a funcionar, sentou-se no chão, encostada à fonte de pedra, e deixou correr as lágrimas.
            Este dia de início de Setembro tinha sido um dos mais difíceis, desde que o cerco começara. Não que os cruzados tivessem levado a cabo algum ataque mais forte, mas Abdalah morrera, sem parar de balbuciar que o fim do mundo estava próximo.
            (...)
            Abdalah morrera na certeza de que se reencontraria com o seu pai, no Paraíso de Alá, onde reviveria o esplendor do califado de al-Andalus. Mas Aischa arrepiava-se, ao pensar que o cadáver seria devorado pelo fogo, sem lhe fazerem o funeral. Esta era, no entanto, a melhor solução, pois o almocavar estava inalcançável.
Nem todos os cadáveres, porém, tinham tal destino. Morria tanta gente, que era impossível queimá-los todos e havia, além disso, o medo de incêndios. Assim se iam os corpos empilhando pelas ruas, lançando o seu odor pestilento. Doenças iam-se espalhando, o número de feridos em combate aumentava de dia para dia e houvera necessidade de improvisar um hospital na mesquita aljama. Agora, havia quem dissesse que seria melhor levar para lá também os cadáveres, a fim de evitar a propagação de mais doenças. Aischa, porém, atormentava-se com a ideia de que se chegasse ao ponto em que ninguém se prontificasse a ir tratar dos doentes que lá estavam, devido ao cheiro, deixando-os para lá a agonizar.
            Também ela e a sua família se arriscavam a morrer de fome. As refeições eram cada vez mais parcas. O pai dela possuía burros de carga e dois cavalos, mas nenhuns animais de criação. Sempre comprara a carne de cabrito, a mais apreciada entre os mouros, aos aldeões das redondezas. Muitos desses pastores haviam procurado protecção entre as muralhas, trazendo alguns animais, mas já quase não havia nenhum. Também as galinhas desapareceriam antes de começar o Inverno e os pescadores não podiam sair para deitar as suas redes ao rio.
            Ainda se poderiam alimentar dos burros ou dos cavalos, em último caso de cães e gatos. Já havia quem o fizesse e o estômago de Aischa revoltava-se perante tal pensamento. Felizmente, eles ainda tinham alguns grãos de trigo, frutos secos e azeite na cave, mas já eram racionados, o que não causava apenas problemas na alimentação. Os candis que antigamente se encontravam por toda a casa em nichos nas paredes, iluminando os quartos, corredores e até o jardim, limitavam-se agora às divisões onde estivessem pessoas.
Os dias iam ficando mais pequenos, a escuridão, a tristeza e a pestilência apoderavam-se de Lušbūna, outrora a cidade-luz.
            Aischa chorou até não ter mais lágrimas. Se não fosse tão tarde, iria buscar o seu alaúde e cantaria a melancolia que lhe atormentava a alma. Assim, fechou os olhos e começou a compor em silêncio uma cantiga sobre a Lušbūna que desaparecia: a multidão a regatear preços no suq, à sombra das coberturas de pano ou das esteiras de esparto, que se estendiam entre as casas, protegendo as ruelas do sol abrasador; o aroma da canela e dos cominhos, vindos de outras terras do Islão, através do Mar Mediterrâneo; o peixe prateado nos cestos dos pescadores; as lojas dos prateiros e dos ourives, das sedas e brocados, junto à bâb al-hammā
            Viu-se no meio da loja movimentada do pai, que lhe dizia:
            - Precisas de tecidos? Escolhe o que quiseres, minha filha!
            A frescura das sedas deslizava-lhe por entre os dedos…
            Um sopro de vento fez-lhe chegar um odor pestilento às narinas, um gemido de dor fez-se ouvir ao longe, trazendo a moça de volta à realidade, ao seu canto escuro. Lušbūna nunca mais será a mesma, pensou, e eu não tornarei a ser feliz. Mais vale morrer antes que os cruzados tomem a cidade e comecem a saquear, a matar os homens, a violar as mulheres…

Lisboa Mourisca, por Martins Barata

09 setembro 2011

A Vida na Idade Média II



Na Idade Média, havia mais higiene corporal do que no tempo de Luís XIV ou da Belle Époque.

O teor de álcool no vinho devia andar apenas entre os 7 e os 10%. Armazenado em pipas, não chegava a durar um ano. Bebia-se muito, um a três litros por dia e por pessoa, incluindo mulheres e monges. O que se havia de beber? A água nem sempre era própria para consumo, causava cólicas e diarreias. A cerveja era mais usada no Norte da Europa.

Tanto o dia, como a noite, se dividiam em 12 horas, que, até ao século XIV, devido às condições naturais, ditadas pelas estações do ano, tinham duração diferente (ou seja, uma hora diária, no Verão, era mais longa do que no Inverno, acontecendo o inverso com a noite). As pessoas regiam-se pelo troar dos sinos das igrejas ou dos mosteiros, que se faziam ouvir às horas das orações: as primas, ao nascer do sol; três horas depois, as terças; ao meio do dia as sextas; três horas mais tarde, as nonas; ao pôr-do-sol, as vésperas. A noite dividia-se em três períodos: as completas, as matinas e o laudes. Ou seja, tomando os equinócios como referência (as ocasiões em que o dia e a noite duram o mesmo tempo), os sinos troavam às 6:00, 9:00, 12:00, 15:00, 18:00, 21:00, 0:00 e 3:00 horas.

Durante a noite, o diabo e as bruxas lançavam as suas armadilhas: pânico no escuro, tentações carnais e, ainda pior, violência, assaltos e violações - mais de metade dos crimes acontecia durante a noite. As pessoas deviam ter muito cuidado, fechar-se dentro das suas casas e, se necessário, renderem-se em períodos de vigilância.

Do ponto de vista económico, não existia o conceito de concorrência. A Igreja assim o ditava, pois via aí a fonte da rivalidade e do ciúme, considerados pecado. A publicidade seria uma forma de vigarizar e um sinal de ambição, a venda a preços mais baixos do que os estipulados seria visto como um ataque ao trabalho do próximo. Os negócios citadinos encontravam-se sob vigilância apertada, tanto no que respeita à sua qualidade, como aos preços praticados. O objectivo do trabalho era o bem comum.

O trabalho era recompensado, mas tinha também o seu preço. O guerreiro atingia fama, mas pagava-a, muitas vezes, com a própria vida. O prelado era muito considerado, posto no topo da sociedade, mas só depois de longos estudos. O mesteiral e o mercador podiam atingir a riqueza, mas tinham de lidar com o risco do mercado e a conjuntura. E o camponês? A ele estava garantida a salvação, mas só se provasse ser devoto e se dedicasse de corpo e alma ao seu trabalho duro, embora pacífico.

A Igreja não via o progresso com bons olhos, pois conduzia à ambição e ao ganho, perigosos para a salvação da alma. Condenava iniciativas que não estivessem de acordo com as Sagradas Escrituras e desconfiava de todos aqueles que enveredassem por um caminho pessoal e inovador.

Das Leben im Mittelalter, Robert Fossier (tradução minha, do alemão).
Versão portuguesa: Gente da Idade Média, Texto Editores

08 setembro 2011

Uma boa surpresa

"Eu fui um privilegiado na publicação deste livro, tive o caminho aberto para aproveitar tal oportunidade, não tive de fazer um esforço porta-a-porta para mostrar o meu trabalho e fazer vingar o meu valor, como acontece com tanta gente. Com a avalancha de conteúdos que há, muita gente com talento fica fora das atenções e do mercado".

São palavras do autor Pedro Vieira, a propósito do seu livro Última paragem Massamá (Quetzal 2011) numa entrevista que deu à OML de Maio (nº 98) e que eu, por acaso, só agora li.

O Pedro Vieira é um excelente ilustrador, co-apresentador de um programa sobre literatura no Canal Q e tem um blogue, irmaolúcia, que eu gosto de seguir e comentar. Se ele é bom escritor, não sei, não li o livro. Em relação à entrevista que deu à OML, ocorrem-me duas palavras para a caracterizar: lúcida e honesta.

07 setembro 2011

Bookcrossing



No Xaile de Seda, Olinda Melo divulga a iniciativa Bookcrossing, que eu acho muito interessante. É raríssimo lermos um livro duas vezes. E, mesmo que não nos consigamos separar da maioria deles, outros há em que esse acto não será tão difícil quanto isso.

A ideia do Bookcrossing é criar uma biblioteca global, um objectivo difícil de atingir, mas não custa tentar. Se há livros que estão a mais, porque não libertá-los, proporcionando a outras pessoas a possibilidade de os ler? Ainda para mais, ao preço a que eles estão, em Portugal...

Já agora, aproveito para dizer que uma visita ao Xaile de Seda compensa sempre. Olinda Melo dá espaço à poesia e tem uma sensibilidade muito própria para escrever sobre os mais variados assuntos.

04 setembro 2011

Cerco e Conquista de Lisboa V

Esquema de trabuco, usado na conquista de Lisboa; retirado de Conquista de Lisboa, Pedro Gomes Barbosa (Tribuna da História, 2004; Colecção Batalhas de Portugal)

 Modelo de torre, utilizado no assalto a Lisboa (retirado do mesmo livro).

Durante o mês de Julho, os cruzados construíram máquinas de guerra: torres de assédio e trabucos. As hostilidades abriram-se a 3 de Agosto. Aqui, o ataque sob a perspectiva do cruzado Konrad e de seu irmão Johann, em A Cruz de Esmeraldas:


            Para melhor se protegerem, os cruzados haviam construído paliçadas à volta das fundas baleares. As suas vestes acolchoadas, chamadas gibões, não resistiriam a um tiro certeiro de besta, que poderia mesmo perfurar a cota de malha de Konrad. A besta era bem mais eficaz do que o arco. Apesar de a sua cadência de tiro ser lenta, pois demorava a carregar, os projécteis atingiam distâncias mais longas e tinham muito maior poder de penetração.
            (...)
            - Que diabo - soltou Gunther. - Os mouros atacam-nos sem descanso!
            Konrad também se admirava com isso, pois os besteiros precisavam de um certo tempo para carregarem as suas armas e fazerem pontaria. Os mouros, porém, pareciam incansáveis, apesar de se encontrarem sob o ataque dos pedregulhos. As suas setas espetavam-se nas paliçadas e uma ou outra encontrava mesmo o seu caminho por cima destas, provocando baixas entre os cruzados.
            - Esperemos que os ingleses alcancem depressa as muralhas com a sua torre - disse Hadwig. - Que saltem lá para dentro e acabem com o diabo dos besteiros!
            - Pois ainda não há sinal deles por sobre o adarve - retorquiu Konrad.
            Preparavam-se para lançar mais um pedregulho, quando ouviram os gritos dos seus companheiros que operavam outro dos cinco trabucos. Depressa descobriram o motivo de tal arraial: a paliçada deles ardia!
            - Mas que raio… - começou Gunther, quando um dos homens gritou:
            - Os mouros disparam setas incendiárias!
            - Abrigai-vos! - berrou Konrad, ao ver várias dessas setas virem na direcção deles.
            Todos se baixaram. A maioria dos projécteis espetou-se na paliçada, mas um deles atingiu o trabuco, pegando-lhe o fogo.
            - Dão-nos cabo dos engenhos - lamentou Johann.
            Depois do trabalho que tinha dado a construí-los, a ideia de os ver consumirem-se à sua frente anulou o medo, começou-se a gritar:
            - Água, depressa!
            Muitos dirigiram-se com os seus cantis ao rio, outros prontificaram-se a ir buscar recipientes maiores ao acampamento. Porém, ao deixarem os seus abrigos, ficavam, mais do que nunca, à mercê das setas mouras. Em vão. Os fogos consumiam-lhes as fundas baleares num abrir e fechar de olhos.
            - Temos que fugir daqui - gritou Konrad. - Nada podemos fazer para salvar os engenhos e ainda morremos queimados.
            Os mouros, animados pelo êxito e livres do arremesso dos pedregulhos, cada vez disparavam mais. Apesar da sua pesada cota de malha, Konrad era dos mais rápidos. Muitos companheiros caíam mortos à sua volta, enquanto as setas zuniam como uma praga de gafanhotos por sobre a sua cabeça. Reparou que Johann ia ficando para trás e gritou-lhe:
            - Mais depressa rapaz, mexe-te!
            Mas o irmão estava no fim das suas forças. Konrad cerrou os dentes e deu meia volta, quando uma seta lhe atingiu o elmo de raspão. Atordoado, tropeçou num dos corpos inanimados e estatelou-se ao comprido. Rodeado pelos gritos dos feridos e moribundos, sentiu-se desesperar e, incapaz de se levantar, tapou a cabeça, na esperança de que aquele inferno passasse depressa.
           Ouviu, porém, Johann a chamar por ele e arranjou coragem para erguer o olhar. O rapaz tentava alcançá-lo, tropeçando nos cadáveres. Konrad levantou-se, conseguiu chegar a ele, agarrou-o pela mão e arrastou-o consigo.
            Os seus pulmões queimavam, fazendo-os lutar por cada lufada de ar inspirado, quando chegaram ao acampamento. Mas estavam vivos.



Os cruzados decidiram mudar de táctica, construindo minas, a fim de alcançarem os fundamentos das muralhas. Mas os mouros logravam destruí-las, cavando contra-minas, que iam de encontro às dos cruzados. As vítimas aumentavam e foram organizados cemitérios perto dos acampamentos. Ingleses e franceses no lado ocidental, flamengos e alemães no oriental. D. Afonso Henriques mandou construir capelas para que se rezasse pelas almas dos mortos, capelas que deram origem à Igreja dos Mártires e ao Mosteiro de São Vicente de Fora.

02 setembro 2011

Cerco e Conquista de Lisboa IV

Ilustração de Jorge Miguel
Depois de assinado o pacto entre D. Afonso Henriques e os cruzados e de as tropas se terem distribuído no terreno, deu-se uma primeira escaramuça, que começou com um ataque dos ingleses ao arrabalde ocidental, chamado bairro de Alcamim, e terminou junto ao cemitério islâmico, o almocavar. A moura Aischa assiste aos acontecimentos a partir do cimo das muralhas de Lisboa:

 
            Os habitantes que restavam no bairro de Alcamim tentavam defender-se de uma tentativa de assalto perpetrada por alguns cruzados, arremessando pedras dos terraços das suas casas. O arrabalde ocidental era conhecido como bairro de Alcamim, devido à sua igreja de Santa Maria de Alcamim, uma santa moçárabe.
            - Os cruzados - perguntou Aischa - não saberão que os habitantes do bairro são cristãos como eles?
            - Ora - retorquiu Amir, - o que sabem estes homens, vindos de tão longe, sobre a realidade aqui na nossa Lušbūna?
            - Os portugueses bem sabem o que são moçárabes - replicou ela furiosa. - Ibn Errik não é o comandante deste cerco? Porque consente ele numa coisa destas?
            - Não me parece que seja um ataque planeado. Pelos vistos, os majus mal podiam esperar para usarem as suas armas e lançaram-se ao bairro já meio desabitado.
            Nisto, alguns mouros atreveram-se a uma surtida pela bâb al-khawkha, pois urgia defender os al-hurî, celeiros subterrâneos localizados no flanco da encosta da alcáçova. Mouros e moçárabes pareciam estar em vantagem devido à sua situação, por sobre a encosta. Mas cada vez mais cruzados se aventuravam pelas ruelas íngremes de Alcamim. Alguns lograram mesmo atingir a linha de cintura defensiva da alcáçova, um caminho que, começando na bâb al-khawkha, circundava o monte do castelo pelo poente e norte. Os atacados viram-se assim igualmente cercados pelo lado de cima.
Ao constatarem que os al-hurî e as suas preciosas reservas estavam perdidos, os mouros apressaram-se a regressar à segurança das muralhas, logo fechando a bâb al-khawkha e barrando a entrada à maior parte dos habitantes de Alcamim, que tentava agora desesperadamente fugir. Iniciaram-se combates sangrentos pelas ruelas do arrabalde. Os moçárabes serviam-se de adagas, punhais, ou mesmo de pedras.
            - Este espectáculo não é para os teus olhos - disse Amir à sua noiva. - Anda, vamos...
            - Não te preocupes comigo! Nada me arrancaria daqui agora. Tenho de ver no que dá esta refrega!
            O rapaz observava-a espantado, mas ela quase não notou, concentrada nos acontecimentos. Até que bradou:
            - Muitos moçárabes conseguem fugir, circundam o monte.
            A moça nem esperou pela reacção do noivo, desatou a correr pelo adarve, entrando na alcáçova. Amir corria atrás dela. Passaram a curva na ponta noroeste, onde a couraça, o lanço de escadas fortificadas, fazia a ligação à torre albarrã. Continuaram até à torre na ponta nordeste, onde Amir constatou:
            - Os fugitivos aproximam-se do almocavar!
            - E não os podemos ajudar? - Na sua fúria, Aischa dirigiu-se aos soldados que estavam de guarda naquela torre: - Porque não se torna a abrir uma das portas, a fim de deixar entrar os coitados?
            - Seria arriscado demais - respondeu um dos homens. - Muitos cruzados poderiam aproveitar a oportunidade para se infiltrarem na al-qasbâ.
            - Os perseguidores não são tantos como isso - insistiu ela. - A maior parte parece ter ficado no bairro de Alcamim, a fim de saquear as casas e os al-hurî.
            - Além disso - acrescentou Amir, apoiando-a, - os moçárabes parecem levar a melhor nos combates junto ao almocavar, põem muitos dos majus em fuga. Bem se podia abrir uma porta, enquanto não surgem mais...
            - Tarde demais - retorquiu o soldado, apontando para a encosta da colina do acampamento português.
            Aischa olhou para a sua esquerda e os seus olhos dilataram-se ao aperceber-se de que os homens de Ibn Errik vinham em ajuda dos seus aliados. E foi ali, junto ao almocavar, o cemitério islâmico onde estava enterrada a sua mãe, que deram o golpe de misericórdia naquele punhado de fugitivos moçárabes.