Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

20 maio 2012

Por associação

Há qualquer coisa enternecedora num partido que se propõe rechaçar os ditames da troika, que impõe os interesses da Alemanha, ao mesmo tempo que perfilha uma ideologia alemã. Ou talvez não seja enternecedor. Mas é qualquer coisa. E das interessantes.

Assim termina Ricardo Araújo Pereira a sua crónica "Boca do Inferno", de 17 de Maio, em que comentava o facto de o partido da extrema-direita grega ter obtido bons resultados nas eleições. E eu lembrei-me do meu Cloning Adolf, o ebook que pus à disposição, ali, na barra lateral. Porque, a páginas tantas, pode ler-se o seguinte:

    “Esta gente não pode ser nazi.”
    “Ora essa!”
    “Pertencem a grupos étnicos diferentes, enquanto Hitler pregava a supremacia da raça ariana.” Olhou-me irónica e acrescentou: “Não é preciso ter ganho o prémio Nobel para perceber que não dá a bota com a perdigota.”
    Ergui os ombros:
    “A verdade é que a ideologia hitleriana arranjou adeptos no mundo inteiro, logo a seguir à morte do sujeito, até nos países que sofreram os horrores do nazismo.”
    “Mas isso não faz sentido.”
    “O que prova que só gente psicologicamente afetada se pode entusiasmar por uma aberração dessas.”


E, já que estou com as mãos na massa, aqui vai mais um excerto:

    “Não gosto de estrangeiros”, disse ela, de repente.
    “Como?”
    “A França tornou-se num país de imigrantes, que nos tiram o trabalho e destroem os nossos costumes e tradições. Participei durante anos em comícios e demonstrações da extrema-direita, mas de nada adiantou. No entanto, sob as ordens do nosso Führer dominaremos o mundo!”
    “Sra. Relot, permita-me lembrar-lhe a coragem de certos franceses do século XX, que arriscaram as próprias vidas, e muitos perderam-na, a fim de expulsar os nazis da sua terra! Nunca ouviu falar da Résistance?”
    Ela olhava-me como se eu tivesse falado chinês. Mas eu já não me segurava:
    “Que significa isso de não gostar de estrangeiros? Todos nós o somos, em determinadas circunstâncias. Você própria, minha senhora, é uma estrangeira, aqui no meu país. E o que são os seus compinchas nazis? Nazis dos quatro cantos do mundo? Um bando de estrangeiros! Quando dominarem o planeta, que costumes e tradições adotarão? Franceses? Americanos? Alemães?”
    Dei conta que a minha voz tinha aumentado de tom, as últimas palavras haviam sido quase gritadas. Mais alguém me teria ouvido? Receoso, pus-me à escuta de passos... Mas nada aconteceu. Só a Sra. Relot me continuava a fixar, como se eu fosse uma criatura exótica. Perguntei-lhe:
    “Entendeu-me, minha senhora?”
    “Claro, não sou surda.”
    “E então?”
    “E então, o quê?”
    “Não tem nada para me dizer?”
    “Absolutamente nada.” Acrescentou, presunçosa: “Eu não me deixo levar em cantigas. Todos nós idolatramos o Führer e, sob o seu comando, dominaremos o mundo. Mas só se o senhor, meu caro Professor, fizer o seu trabalho e acabar com os seus discursos demagógicos!” Olhou-me desconfiada: “O senhor é comunista?”

Fazer o download aqui, ou clicando na imagem da barra lateral.


1 comentário:

Rafeiro Perfumado disse...

Já tive discussões do género (felizmente sobre outros temas) em que os oponentes são pura e simplesmente imunes à razão. Só à paulada é que lá vão...