Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

07 agosto 2012

O Maior Sacrifício


Se há episódios da Bíblia difíceis de compreender, é aquele em que Abraão, por ordem de Deus, se prepara para sacrificar o filho.

Genesis 22, 1-2.9-12:
Deus pôs Abraão à prova e chamou-o: «Abraão!» Ele respondeu: «Aqui estou». Deus disse: «Pega no teu filho, no teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à terra de Moriah, onde o oferecerás em holocausto, num dos montes que Eu te indicar».
Chegados ao sítio que Deus indicara, Abraão levantou um altar, dispôs a lenha, atou Isaac, seu filho, e colocou-o sobre o altar, por cima da lenha. Depois, estendendo a mão, agarrou no cutelo para degolar o filho. Mas o Anjo do Senhor gritou-lhe do céu: «Abraão! Abraão». Ele respondeu: «Aqui estou». O Anjo disse: «Não levantes a tua mão sobre o menino e não lhe faças mal algum, porque sei agora que, na verdade, temes a Deus, visto não me teres recusado o teu único filho».

No jornal do Bispado de Hildesheim diz-se que alguns estudiosos da Bíblia interpretam este episódio como a altura a partir da qual o povo de Israel renuncia aos sacrifícios humanos e passa a sacrificar "apenas" animais, para aplacar a ira de Deus. Outros acham que se trata de exemplificar a submissão total aos desejos de Deus, mesmo que estes nos pareçam absurdos.

Enfim, os sacrifícios, de humanos ou de animais, felizmente, não existem no Cristianismo. E a obediência cega a Deus é uma questão de fé, competindo a cada um decidir. Mas que dizer do pobre Isaac? Como pode um filho superar uma experiência tão traumatizante? O seu próprio pai o levou ao local de sacrifício e se preparava para o degolar e queimar! Debaixo de um final supostamente feliz, esconde-se, na minha opinião, um episódio de extrema violência e de desrespeito pela vida de um rapaz. Não penso que um filho que passasse por uma experiência destas pudesse recuperar das mazelas psicológicas.

Às vezes, apetece-me concordar com Saramago: a Bíblia é (também) um "livro de maus costumes"...

10 comentários:

Carla M. Soares disse...

O que, claro, é uma perspectiva moderna. O respeito pela vida humana em geral, pelo menos EM TEORIA, levou muitos séculos a conquistar, e a preocupação com as repercussões psicológicas dos actos dos pais nos filhos mais ainda. :)

Cristina Torrão disse...

Bem visto.

Olinda Melo disse...

Olá, Cristina

Esta passagem da Bíblia sempre me deixou perplexa...esta e muitas outras.

Mas,como refere a Carla M. Soares, tendemos a interpretar factos ou situações do passado (este muito longínquo) com os nossos conceitos e mentalidade de hoje.

É bom termos presentes estas situações no sentido de apreciarmos tudo o que já conquistámos, em termos de ideias e também de livre arbítrio.

Bjs

Cristina Torrão disse...

É verdade, devíamos apreciar mais tudo aquilo que já conquistamos.
Mas pergunto-me porque certas coisas levaram tanto tempo a conquistar. E porque Deus transmitiu a Sua mensagem de maneira tão difícil de "descodificar".

Manuel Joaquim Sousa disse...

Deus não terá transmitido uma mensagem assim tão difícil de descodificar. Nós é que procuramos complicar aquilo que é simples.

A Bíblia pode ser entendida como um livro fabuloso que constitui um guia para a vida espiritual e profunda. A Bíblia pode ser entendida, também, como um livro horrendo, de histórias macabras e desumanas. A forma como é vista depende do lado em que cada um se encontra, no momento em que a analisa.

O conjunto de livros foi escrito por homens que retrataram acontecimentos ao longo da História - acontecimentos históricos e acontecimentos inflamados de fé. Como tal, são retratados acontecimentos bárbaros (ou não fosse a História da Humanidade bárbara).

A passagem do Antigo Testamento do acto de Abraão tem os dois lados: divino - total entrega a Deus; macabro, desumano - sujeitar o filho ao sacrifico de algo que é de fé, que vai contra todos os princípios de vida do Homem. Naquele tempo, os pensamentos seriam muito diferentes da forma como hoje se pensa. Um acto nos dias de hoje seria punido por toda a gente de forma quase unânime, até pelas igrejas descendentes de Abraão.
O entendimento deste episódio pode ser de formas diferentes - dependendo da fé e da força com que recebemos essas palavras, assim como, da forma com que entendemos a vida. Por mais que se esgrimem argumentos, o consenso não será atingível (mas, é importante que esse debate esteja sempre vivo). A fé tanto pode ser a salvação como o veneno das civilizações - para além da Bíblia, a História está recheada de episódios dramáticos que à luz do tempos seria natural, mas do pensamento actual é profundamente condenável.

O problema de tudo isto está: na forma como complicamos o entendimento do divino, quando este deveria ser a solução para a simplificação do abstracto. A fé é simples e o trabalho do Homem seria de manter essa pureza.

Cumprimentos. Parabéns pelo artigo.

Manuel Joaquim Sousa
manuelsous@vodafone.pt

bloguedomanel.blogs.sapo.pt

Cristina Torrão disse...

Manuel, muito obrigada pelo seu comentário, com o qual, na sua essência, concordo. No entanto, há esse aspeto de, como diz: "a forma como é vista (a Bíblia) depende do lado em que cada um se encontra, no momento em que a analisa". Tudo bem. E trata-se, realmente, "de um conjunto de livros escritos por homens que retrataram acontecimentos ao longo da História".
Mas não acha que estes factos tiram a aura divina à Bíblia? Foi escrita por homens, que se limitaram a retratar acontecimentos. Mas se ela é a palavra de Deus, onde procurar a verdade? Se Deus tivesse realmente a intenção de nos transmitir a Sua palavra, eu acho que teria poderes para encontrar outros meios; teria o poder de originar um texto que não desse margem para dúvidas e que pudesse ser interpretado da mesma maneira, em todas as épocas e em todas as situações, a fim de evitar mal-entendidos que, quase sempre, originam tragédias.
Não é Deus todo-poderoso?

Manuel Joaquim Sousa disse...

Eu gostaria de ser um teólogo, para responder com mais profundidade às complexas questões que me coloca, porém o meu entendimento da fé (assumidamente Católico) é simplificar aquilo em que acredito, mesmo que não tenha grandes respostas para dar. A fé é mais um sentimento que, por vezes, uma explicação - é uma mistura do sentimento e da razão, que necessita de ser o mais equilibrado possível.

"Mas não acha que estes factos tiram a aura divina à Bíblia?" A aura mantém-se lá, o divino existe na sua simplicidade - veja-se as parábolas de Cristo, são tão simples e cheias de espiritualidade a ponto de: nos dias de hoje fazerem um grande sentido. Se fossem eliminados factos horrendos da História, também se corria o risco de argumentar que a Bíblia apenas conta a parte bela da História e ignora o que de horrível foi feito. É importante para um crente ter acesso ao lado bom e mau das situações, para que do lado mau retire uma conclusão. Se o Homem procura a fé também tem de saber procurar encontra-la, ainda que tenha que folhear por entre milhares de páginas, muitas delas com sangue derramado.

"Mas se ela é a palavra de Deus, onde procurar a verdade?" O conceito verdade é um conceito relativo - o que para mim ali está a verdade manifestada por Deus, para outras pessoas não está. Eu acredito que por ali estão palavras de verdade - não vejo em Cristo um mentiroso que se deixou matar em vez de fugir. A manifestação do divino sempre se manifestou por diversos meios, descritos na Bíblia ou em tempos mais modernos. Cristo, para os crentes, foi uma manifestação do próprio Deus que se tornou homem para nos trazer uma nova mensagem - como que um virar de ciclo para um novo entendimento do que era do divino. Mesmo Deus tendo-se manifestado através de Cristo (em palavras e milagres) muitos acreditaram outros não.

"Não é Deus todo-poderoso?" Sim, é. O entendimento que foi feito de Si durante muitos séculos variou porque o Homem também tinha interesse nisso. Inicialmente conhecemos pelas palavras da Bíblia a ideia de um Deus que é mau e, no Novo Testamento, há uma viragem e uma correcção, por intermédio de Cristo, que a interpretação não estaria a ser de todo correcta e que Deus era simplesmente amor (nem mesmo assim os Homens da altura queriam conhecer Deus de forma diferente). Eu também gostava que Deus se manifestasse de forma estridente no mundo e, de forma sobrenatural, dissesse quem realmente é, para que não existissem dúvidas para aqueles que a têm; mas, onde estaria, nesse momento, a liberdade do Homem em aceitar ou não o Deus? Achariam por bem que Deus se manifestasse para que todos acreditassem e por isso tivéssemos a obrigatoriedade de acreditar nele? Se Deus sendo livre nos criou à sua imagem e semelhança negaria-se a Si nesse instante.

Como disse no início (e não querendo ser maçador) a fé tem o lado da dúvida e é importante que ela exista, para que possa ser trabalhada em total liberdade com o Eu interior. A fé não pode ser um produto instantâneo que produz um resultado e tudo fica por aí - é algo que mexe com cada um, mesmo com os mais fervorosos. É isto que a torna em algo tão especial e numa esperança, mesmo que à nossa volta tudo esteja destruído.

Este é o meu entendimento. Certamente que os grandes doutores da Igreja como Santo Agostinho terão boas respostas para estas difíceis questões. A mente humana é muito rica e isso é o que faz pensarmos e debatermos estas questões. O importante é procurar sempre pelo caminho mais longo e mais simples.


Manuel Joaquim Sousa
bloguedomanel.blogs.sapo.pt

Cristina Torrão disse...

Sim, não há dúvida de que a fé é um sentimento muito especial. E também não há dúvida de que as parábolas de Cristo são divinas, em todos os sentidos do termo. Cristo foi uma pessoa muito especial, deveria ter um carisma incrível e tinha uma habilidade fora do comum para criar parábolas. Estará a explicação disso no facto de ser Deus tornado humano? Quem tem fé, diz que sim.

Eu ainda ando à procura da ligação entre Deus e Cristo. Tenho muita dificuldade em acreditar numa entidade superior, que satisfaz os nossos pedidos, se rezarmos com fé. Sou mais de opinião (como outras pessoas) que temos de procurar Deus dentro de nós; que, regressando à nossa essência, antes de ela ter sido corrompida, encontramos Deus. Como ligar Cristo a "este" Deus? Talvez ele nos tenha ensinado o caminho a tomar, para fazermos essa descoberta.

Só é pena que os homens tivessem usado (e continuem a usar) a Bíblia para corromperem e manipularem o seu semelhante.

Manuel Joaquim Sousa disse...

«...temos de procurar Deus dentro de nós; que, regressando à nossa essência, antes de ela ter sido corrompida, encontramos Deus.» Acaba de dizer uma grande verdade, a mesma que Cristo nos procurou transmitir nos seus ensinamentos quando pede para entrarmos no "quarto" - nada mais que o nosso interior - e nessa solidão encontrarmos o Eu e o Deus, de forma a que possam ser unidos pela fé. Para muitos, isto pode ser considerado uma utopia ou uma filosofia daquelas que se aprendem nos livros de auto-ajuda e de espiritualidade; para outros esta é a forma mais simples de encontrar a fé. Ligar Cristo e Deus é simples: Eles são o mesmo. Por vezes, a necessidade de vermos tudo materializado para acreditar - lembro-me de S. Tomé - terá feito com que Cristo fosse a materialização do Deus, sem nunca perder o sentido humano frágil e dócil que existe em cada homem simples.

O Deus que realiza os nossos pedidos se o fizermos com fé, é uma forma limitada que existe em relação a esse Deus - comparo aos que apenas têm os amigos para as grandes necessidades e depois se descartam deles - que deve ser sempre combatida. É mais importante a sua procura interior e conviver no dia-a-dia com essa procura/encontro porque o restante de pedir isto ou aquilo vem por acréscimo - se Deus sabe tudo e é meu amigo, sabe do que necessito e do que desejo.

«Só é pena que os homens tivessem usado (e continuem a usar) a Bíblia para corromperem e manipularem o seu semelhante.» Esta é a parte negra com a qual temos de conviver, mas que compete a cada um que procure, pense e medite separar o trigo do joio e acreditar em algo que seja bom para si e para o seu próximo porque se eu acreditar no que é bom para mim mas vai prejudicar os que me rodeiam, não estarei a ser a agir no sentido correcto do divino.

(Acho que estes diálogos dariam um bom livro ;))

Cristina Torrão disse...

É verdade: tentando encontrar essa paz dentro de nós acaba por nos modificar a vida, proporcionando-nos a ajuda de que precisamos e, sim, também satisfazendo alguns desejos (ao mesmo tempo que há desejos que se tornam supérfluos).

Um bom diálogo, não há dúvida. Em matéria de livros, porém, e apesar de já ter publicado três, encontro-me em plena travessia no deserto. Mas nunca se sabe... ;)