Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

27 setembro 2012

Naquele Tempo (8)


«A nobreza participou, evidentemente, na guerra externa durante os séculos XI a XIII. Mas seria grave ilusão atribuir-lhe os principais méritos da conquista do território, como tentavam fazer crer muitos nobres já no fim do século XIII e acreditou também a historiografia recente. Na verdade, depois da participação directa de exércitos de condes e magnates na ocupação do vale do Douro no século XI, o papel activo coube entre 1064 e 1147, ou seja, entre a conquista de Coimbra e a de Lisboa, a nobres de categoria média ou inferior das zonas de Viseu, Lamego e Coimbra, por vezes, sob o comando de condes galegos, como os Travas, e aos cavaleiros-vilãos dos concelhos. Coube, mais tarde, entre 1147 e 1217, aos exércitos de Afonso Henriques e de seu filho Sancho, às ordens militares e a certos bandos de marginais, como o comandado por Geraldo Sem Pavor, o Cid português. Coube, enfim, predominantemente às ordens militares entre 1217 e 1249, a data da conquista definitiva do Algarve. Os membros da alta nobreza que participaram no exército régio foram apenas os altos dignitários da corte, entre eles o alferes. É de supor que esta participação foi pouco mais do que honorífica. A intervenção efectiva deve-se sobretudo a cavaleiros de segunda e terceira categoria, que militavam ao lado de cavaleiros-vilãos (...) Daí o sentido predominantemente profissional da categoria do «cavaleiro» até ao princípio do século XIII (e mesmo depois), o carácter tardio da identificação da nobreza com a cavalaria, a imprecisão terminológica do vocábulo e alguma resistência social ao ideal da cavalaria».

Página 293, A nobreza medieval portuguesa (séculos X a XIV)


3 comentários:

Ricardo António Alves disse...

Há uma história medieval antes do Mattoso, e outra depois, não é?

Ana disse...

Foi através deste Blog que fiquei a conhecer esta obra e que tanto me tem ajudado =)

Cristina Torrão disse...

É verdade, Ricardo. O Prof. Mattoso deu uma nova visão à História, por muitas razões. É impossível, numa caixa de comentários, explicá-las todas, mas refiro a que considero mais importante: recordou-nos que a imagem que temos da Idade Média se resume a documentos oficiais, redigidos por uma elite. É admirável o esforço que ele faz para tentar compreender como viveram realmente os homens a as mulheres daquele tempo.

Ana, fico muito contente :)