Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

17 setembro 2012

Originalidade


Não me é fácil voltar a este livro para dizer algo de que evitei falar na opinião já dada. Depois de ter publicado três livros, o meu sucesso (se é que se pode falar disso) não chega aos calcanhares do alcançado por João Ricardo Pedro, com um único. E logo o de estreia. Daí a acusarem-me de inveja vai um passo muito pequeno.

No entanto, e apesar de continuar a achar que este autor é um exímio contador de episódios da vida, há coisas que não nos deixam em paz, enquanto não as deitamos cá para fora. Um bom escritor não só escreve bem, como é original. E, neste caso, penso que a originalidade de certos episódios deixa um pouco a desejar.

Comecemos com um dos aspetos mais famosos e admirados de O Teu Rosto será o Último: o pormenor de um quadro de Bruegel que mostra uma mulher apoiada em muletas. João Ricardo Pedro foi elogiado pela simbologia desse momento e por pôr tanta gente (inclusive alguma que nunca se interessou por pintura) à procura do quadro, a fim de confirmar o pormenor. Ora, é algo que já aconteceu, várias vezes, no mundo literário (e, até, naquele considerado menos literário). Não pôs Dan Brown meio mundo a examinar a Última Ceia, de Da Vinci? Além disso, o nobelizado Orhan Pamuk, em O Romancista Ingénuo e o Sentimental, conta o seguinte:

"Lembremos a expressão de Proust «Mon volume est un tableau» («O meu livro é um quadro» ou «O meu romance é uma pintura»), referindo-se à famosa obra À la recherche du temps perdu, a que dedicou toda a sua vida. No final de À Procura do Tempo Perdido, uma das personagens, um escritor muito conhecido chamado Bergotte, está de cama, doente e vê num jornal que um crítico tinha escrito acerca de uma pequena superfície de um muro pintada de amarelo por Vermeer no seu quadro Vista de Delft. O crítico dizia que o pormenor era tão maravilhosamente pintado que poderia ser comparado a uma obra-prima da pintura chinesa. Bergotte levanta-se da cama para ir ao museu ver com outros olhos o quadro de Vermeer, que estava convencido conhecer muito bem".

Diga-se, em abono de João Ricardo Pedro que, se tentou copiar um pouco Proust, escolheu, pelo menos, um bom mestre.

Reporto-me, em seguida, a um estranho crime acontecido em O Teu Rosto será o Último, citando o próprio romance:

"Contavam eles que o Índio, encostado a uma pilha de grades de cerveja, estava completamente nu e que o seu pénis, depois de cortado, tinha sido enfiado na própria boca".

Onde é que eu já ouvi isto? Não há um português a ser julgado por assassínio, em Nova Iorque...?

E, last but not the least, começo por transcrever parte de uma cena do romance premiado pela Leya:

"Para que, do altifalante, se ouvisse algum som, o órgão precisava de uma pilha de nove volts, mas pilhas de nove volts era coisa que não existia à venda na pequena aldeia com nome de mamífero.
Estranhamente, Duarte parecia não se importar com essa suposta contrariedade. Tratou de arranjar um assento apropriado, arregaçou as mangas do pulôver, baixou o rosto e, sobre as teclas mudas, começou a desenhar inesperados acordes e arpejos. Os dedos, silenciosos como as patas de uma aranha, movimentavam-se ora em lânguidos adágios, ora em rápidas semifusas, conforme as instruções inscritas na partitura que só Duarte parecia vislumbrar.
(...)
Mas, na família do doutor Augusto Mendes, ninguém possuía habilitações musicais suficientes para encontrar uma correspondência entre os gestos de Duarte e os sons que se ouviriam, caso o órgão estivesse a funcionar em toda a sua plenitude."

Ao ler estas linhas, não pude deixar de me lembrar de uma das cenas mais bonitas do cinema, contida no filme sublime O Pianista, de Roman Polanski, vencedor de três Óscares. O pianista judeu polaco, interpretado por Adrien Brody, escondido dos nazis num apartamento, tem de se esforçar por viver no mais completo silêncio. Mas nesse apartamento há um piano e uma das ocupações que lhe tornam aquela "prisão" mais suportável é mover os dedos pelas teclas, «silenciosos como as patas de uma aranha», deleitando-se com a música só audível nos seus pensamentos.
Uma cena que, a ser usada, também ficará bem no filme que Luís Filipe Rocha há de realizar, baseado em O Teu Rosto será o Último. Só é pena ser copiada.


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2 comentários:

Anónimo disse...

Conclusão: o rei vai nu?

Cristina Torrão disse...

Eu não diria tanto. Continua a ser um bom livro, muito bem escrito. Além disso, é difícil ser-se original, hoje em dia. Mas uma coisa é basear-se no estilo de um autor consagrado, outra é copiar certos detalhes daqui e dali. Confesso que, ao ler o livro, senti uma certa desilusão ao dar com estas passagens que mencionei, aquela sensação de "déjà vu". A lembrança dos momentos semelhantes foi instantânea, principalmente, o do crime e do filme "O Pianista". A questão do quadro veio mais tarde, para dizer a verdade, foi num post de Maria do Rosário Pedreira, em que ela se referia, precisamente, ao facto de muita gente ir porcurar o quadro de Bruegel.