Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

29 setembro 2012

Quando a liberdade é ofensiva



Foi detido o autor do vídeo considerado ofensivo pelos seguidores do Islão, não pelo conteúdo do filme, mas pelo facto de o indivíduo ter violado a sua liberdade condicional, pois estava impedido de aceder à internet.

Mais uma vez, caiu o Carmo e a Trindade, perante a sensibilidade excessiva dos muçulmanos, uns fanáticos, que não entendem sequer a liberdade de expressão. Ora, é muito difícil entender aquilo que não se conhece. Parecemos esquecer que a maior parte dos países islâmicos vive sob ditaduras brutais, onde, por um lado, impera a censura e, por outro, tudo o que seja manifestação contra o ocidente e os EUA é empolado. E é aqui que corremos o risco de tomar o todo pela parte. Todos sabemos o que aconteceu quando os jovens iranianos quiseram fazer uma revolução (ou a nossa memória é assim tão curta)? É claro que os muçulmanos que são a favor da liberdade de expressão, que, quiçá, até aceitem este tipo de humor e que condenam as atitudes dos extremistas, se calam muito bem caladinhos. Senão levam balázio (no mínimo). Os extremistas, que assaltam embaixadas, matam pessoas, queimam bandeiras e se manifestam histéricos são apoiados pelos ditadores e muitos dos seus líderes religiosos, pois dá-lhes um jeitão para a sua política de intimidação dos EUA e do ocidente em geral.

Não nos façamos de anjinhos! Todos nós sabemos que há casos em que se justificará limitar a liberdade de expressão. Muitos de nós são contra a publicação de, por exemplo, vídeos a exultar o nazismo, não hesitando em dizer que qualquer elogio ao regime hitleriano deve ser proibido. Pode falar-se de censura, em casos destes? E como reagiriam muitos de nós se, a partir do Irão, fosse publicado um filme, exibindo cenas pornográficas entre Cristo e Maria Madalena? Ou, até, cenas homossexuais entre Cristo e os Apóstolos? Não corríamos o risco de sermos “sensíveis demais”? Pondo a hipótese de que os europeus, embora indignados, reagissem cheios de civismo, não haveria protestos mais ou menos violentos em certos países, onde o Catolicismo é mais exacerbado (como na América do Sul, ou nos próprios EUA)?

E sejamos coerentes! Se eu estou na posse de material que sei, de antemão, que pode ser extremamente ofensivo para certas pessoas, que pode causar tumultos, dos quais resultarão mortos e feridos, só o publico se não tiver consciência nenhuma! É preciso saber medir o grau de provocação e esse senhor, aliás, natural do Egito, mas a residir nos EUA, sabia perfeitamente que tinha uma “bomba” entre mãos. Censuramos a violência dos muçulmanos que se revoltaram (e com razão), mas ninguém se lembrou de censurar o ato de um louco. Esse não, coitadinho, só fez uso da sua liberdade de expressão! E vem-se a saber que já teve, várias vezes, problemas com a Justiça!

Nota: será difícil, senão mesmo impossível, algures, no mundo islâmico, ser produzido um filme ofensivo em relação a Cristo. Jesus Cristo figura, no Alcorão, entre os (salvo erro) vinte e cinco profetas reconhecidos pelo Islão. Não li o Alcorão completo, apenas partes, e posso afirmar que Jesus Cristo é referido com grande respeito e admiração, embora se rejeite a ideia de que Ele seja filho de Deus. Mas é, sem dúvida, para os muçulmanos, um profeta, pois esteve em contacto direto com Deus.

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4 comentários:

Imperatriz Sissi disse...

Excelente post, com muita lucidez e objectividade. Não sou a favor da atitude demasiado permissiva, quase receosa, que se tem tomado em alguns países europeus relativamente à população islâmica, mas por outro lado detesto que façam deles o bombo da festa. "Ai, as mulheres muçulmanas que são umas desgraçadinhas porque usam véu"(ignorando e recusando ouvir que muitas o usam de livre vontade)e "vamos lá gozar com o Profeta). É vontade de criar confusão, e desrespeito pela fé alheia. Enfim.

Cristina Torrão disse...

Obrigada, Sissi.
Não há dúvida de que a situação da mulher nas sociedades islâmicas é inaceitável (embora algumas a aceitem por convicção) e eu, quando tento compreender os muçulmanos, não quer dizer que pactue com tal. E, sim, eles quase nos "obrigam" a um cuidado especial. Mas acho que também não ganhamos nada em provocá-los.
Bem, note-se que o "provocador", neste caso, até é originário de um país de maioria islâmica...

Joao Raposo disse...

Há actos que são demasiado gratuitos e imbecis. Actos que põem em causa o próprio princípio que os autoriza. Não acredito em nenhum deus mas “Acredito nos homens que acreditam em Deus”.
Não é a liberdade que é excessiva. Excessivos são os abusos gratuitos, desnecessários que se cometem com a desculpa da liberdade de expressão. Nunca a liberdade é ofensiva. Todo o acto livre é uma escolha e toda a escolha representa um compromisso. São os humanos que são ofensivos, não a liberdade.
Há ainda todas as encenações que se fazem em torno deste e de outros casos, culpando a liberdade para que os governos se sintam com legitimidade para perseguir quem usa a liberdade. E aí, temos as acções mais ou menos obscuras, os interesses ocultos, a vontade de poder, etc.
Este artigo (a propósito de um outro assunto) http://www.publico.pt/ProjectSyndicate/Naomi%20Wolf/os-outros-suspeitos-de-violacao-da-suecia-1561653 pode ser ilustrativo de como os governos se comportam conforme o que lhes interessa.

Cristina Torrão disse...

Incrível, esse artigo, eu tinha uma imagem bem diferente da Suécia, em assuntos desse tipo!

E, sim, tem razão, não é a liberdade que é ofensiva, mas os usos (abusos) que se fazem dela.