Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

12 novembro 2012

A Ditadura das Mães



«a mãe brinca com o fogo para iluminar o caminho»
«a mãe desce aos invernos para derreter a neve»
«ao braço de ferro, a mãe responde com mãos de fada»
«o ouvido absoluto da mãe alimenta-se da surdez».

minhamãe, da autoria de Eugénio Roda, com ilustrações de Gémeo Luís (Edições Eterogémeas) é mais um livro de louvor às mães, com frases, que além de bonitas, são originais, como se pode ver nos exemplos (tirados da edição de Junho de 2012, da LER). Acho muito bem que se elogiem as mães, que são, decerto, as personalidades mais importantes das nossas vidas. Mas não posso deixar de lembrar que há mães e mães. Se a maioria realmente «desce aos invernos para derreter a neve», ou «responde com mãos de fada» ao «braço de ferro», muitas há que estão longe disso.

Este é um tema muito difícil e polémico, diria mesmo um tema tabu, já que ninguém costuma pôr em causa as qualidades de uma mãe. Vivemos numa espécie de «ditadura das mães», ou seja, é obrigatório amar e venerar quem possua o título de «mãe», seja qual forem os atributos da sua portadora. Infelizmente nem todas as mães são exemplos de amor, carinho e proteção. Nalgumas, isso é patente. Noutras, a crueldade e a indiferença esconde-se sob a capa da mãe exemplar, ou, pelo menos, normal, o que agrava o problema.

Há mães que não ligam aos filhos; que não fazem o mínimo esforço para os compreender; mães que projetam os seus sonhos e desejos nos filhos, roubando-lhes o direito à própria personalidade, à sua criatividade; mães manipuladoras, de maneira a criarem os filhos que idealizam, ou a manterem os filhos eternamente dependentes delas, ou a incutirem nos filhos a ideia de que a mãe é frágil e que deve ser poupada a desgostos, etc., etc.

O grande problema é que uma criança não está em condições de julgar o comportamento da mãe a esse nível. Mas, por algum motivo que não descortina, sente-se infeliz, insegura, insatisfeita, ou diferente das outras crianças (que terão mães mais próximas do ideal). Porém, ao interiorizar esse ideal de mãe difundido pela sociedade e por livros como o citado, a criança culpa-se a si própria pela sua infelicidade, ou malvadez (quando a mãe, por exemplo, lhe diz constantemente que é má, fazendo a mamã sofrer), criando mazelas psicológicas para toda a vida.

Por isso, duvido, muitas vezes, da utilidade e da pertinência destes livros, escritos a pensar numa sociedade de mães exemplares, uma sociedade que, na verdade, não existe.


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