Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

20 novembro 2012

Bula "Manifestis Probatum"

aqui e aqui falei na dificuldade de atribuir uma data para a independência de Portugal. Acrescente-se que uma situação dessas não é anormal, tendo em conta que estamos a lidar com a Idade Média, uma época em que ainda não se entendiam as nacionalidades como hoje em dia. Não existiam fronteiras definidas e o poder estava na mão de potentados regionais, que, em determinadas circunstâncias, conseguiam alargá-lo, ousando ignorar a autoridade de reis e imperadores. Afonso Henriques não foi caso único na Europa, ou na Cristandade, como se dizia. A haver uma entidade superior, seria a Santa Sé, mas mesmo essa se revelou dúbia, durante décadas, quanto ao caso português.

Só no Verão de 1179, D. Afonso Henriques terá segurado nas mãos o reconhecimento oficial da independência de Portugal. O papa Alexandre III emitiu a Bula Manifestis Probatum a 23 de Maio de 1179 e, tendo em conta as viagens morosas daquela época, essa prova documental terá chegado à corte coimbrã, na melhor das hipóteses, cerca de dois meses mais tarde, ou seja, na segunda quinzena de Julho.

Imagem daqui
D. Afonso Henriques estava, em 1179, velho e muito debilitado. Tinha cerca de 70 anos e já há dez que se encontrava incapacitado, na sequência do desastre de Badajoz. Parece certo que não se conseguia mover pelos próprios meios, o que lhe deixaria os músculos muito fracos e ele próprio estaria mais sujeito a doenças e infeções. Ainda assim, só morreria a 6 de Dezembro de 1185, constituindo um caso raro de longevidade, na época, sobretudo, considerando as circunstâncias em que viveu os seus últimos 15 anos.

A chegada da Bula Manifestis Probatum à corte portuguesa deve ter sido um momento muito emocionante para o velho monarca.



            O príncipe foi receber os recém-chegados, enquanto Afonso, que já passara dos setenta, se limitou ao seu cadeirão, incapaz de se mover. Tentava manter a calma, enquanto o cónego D. Pedro Feijão ali ficou, como que a tomar conta dele, observando-o, preocupado. Nisto, surgiu a infanta Teresa, olhando-o igualmente cheia de cuidados, puxando uma cadeira a fim de se sentar ao lado dele, o que o fez exclamar:
            - Mas que é isto? Estão todos com medo que eu não aguente as novidades e me dê algum fanico?
            O arcebispo, acompanhado pelo infante e pelo seu capelão, fez uma entrada triunfal, saudou eufórico os presentes. Depois, foi direito ao monarca, pegou-lhe nas mãos e anunciou:
            - Boas notícias, D. Afonso! Trago boas notícias!
            Sentou-se no cadeirão que lhe estava destinado e o capelão passou-lhe um invólucro cilíndrico de couro para as mãos, que D. Godinho segurou como se de uma das sete maravilhas do mundo se tratasse. Tirou lá de dentro um pergaminho enrolado e anunciou:
            - Isto, meus senhores, é a bula Manifestis probatum est, de 23 de Maio deste ano, e que eu recebi directamente das mãos do Santo Padre!
            Fez um sinal ao capelão para que este depusesse o documento nas mãos do monarca. O prelado assim fez e, perante a expectativa de todos os presentes, Afonso desenrolou o pergaminho, de mãos trementes. Mas estava incapaz de ler fosse o que fosse. Não era só a agitação que o atacava. Além de ter esquecido tudo o que sabia de latim, há anos que a sua visão vinha piorando. Tinha a impressão de que um véu se lhe formava em frente dos olhos, no início, muito fino, mas ia ficando cada vez mais espesso. Acabou por entregar o documento à infanta a seu lado, pedindo:
            - Lê, filha, lê!
            Teresa fez uma primeira leitura em silêncio e anunciou emocionada:
            - O Papa reconhece-vos o título de rei, meu pai!
            - Finalmente - disse Afonso, de lágrimas nos olhos.
            O arcebispo sorriu ao infante e ao chanceler-mor, muito satisfeito. Depois, pôs-se a limpar o suor da testa e do cachaço e ordenou ao capelão:
            - Tenho sede, arranjai-me qualquer coisa para beber! - E, virando-se para os lados: - É que está um calor de rachar, não é verdade? E, apesar de esta etapa de hoje ter sido curta, a gente ainda veio a cavalgar algumas horas.
            O infante Sancho, a quem a ansiedade fizera esquecer aquele pormenor, logo chamou um lacaio, que fosse buscar um refresco de vinho. Teresa ia lendo o conteúdo da bula ao pai:
            - Alexandre III confirma o documento de Lúcio II, tomando-vos e aos vossos herdeiros sob a proteção da Santa Sé. Considera Portugal um reino pertencente a São Pedro e promete o auxílio papal sempre que seja necessário defender a dignidade régia do soberano português. Também os territórios que os portugueses vierem a conquistar aos sarracenos gozarão da mesma proteção.
            Chegou o refresco, que pajens se encarregaram de distribuir pelos presentes. O arcebispo apressou-se a esvaziar a sua taça, Sancho e D. Pedro Feijão deram alguns goles. O rei e a sua filha ignoraram a bebida. E D. Godinho, sentindo-se retemperado, lançou enérgico:
            - O Santo Padre reconheceu, finalmente, os méritos de um soberano que tão grandes vitórias conseguiu sobre os inimigos da fé. Chama-lhe “intrépido destruidor dos inimigos dos cristãos”, “diligente propagador da fé cristã”, “bom filho e príncipe católico”, que deixa um “exemplo digno de ser imitado pelos vindouros”, enfim, não poupa elogios a D. Afonso. Não é assim, D. Teresa? - E, dirigindo-se aos outros: - Que eu já li a bula um monte de vezes, já a sei de cor e salteado!
            Teresa tornou a passar o documento para as mãos do pai. Afonso engoliu em seco, a fim de espantar as lágrimas e, depois de observar a bula durante alguns instantes, disse:
            - Agradeço a Deus, que ouviu as minhas preces. Agora, sei porque é que Ele me deixou tanto tempo vivo.
            - Ámen - concluiu D. Godinho, esvaziando a segunda taça.

Bula Manifestus Probatum, fonte: Direcção-Geral de Arquivos
Como referido, D. Afonso Henriques só viria a falecer seis anos mais tarde, a 6 de dezembro de 1185. Foi sepultado no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, no mesmo local em que a sua esposa, D. Mafalda, já repousava há quase trinta anos.

Com este post, encerro a série dedicada a D. Afonso Henriques, que percorreu as etapas mais importantes da sua vida. Quem quiser lê-las, pode clicar na etiqueta Citando Afonso I. Quem tiver um e-reader, iPad, iPod ou equivalente, fique atento: no início de Dezembro, haverá uma surpresa!


2 comentários:

Daniel Santos disse...

em destaque no Delito de Opinião.

gostei.

Cristina Torrão disse...

Obrigada, Daniel :)