Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

30 janeiro 2012

Pré-publicação #1

Decidir a própria morte era um dos pecados mais terríveis, retirava o direito a funeral e a uma campa na terra sagrada do cemitério. Mas a ideia de solução extrema, quando o desespero se tornava insuportável, aliviava-a e ela acabou por adormecer.
Sonhou que se atirava ao Arda, via-se a deixar este mundo, entrando noutro, que a deixava imune ao sofrimento…
Acordou, de repente, sem saber se tinha dormido horas, ou apenas passado pelo sono. E o desassossego regressou com tal intensidade, que não conseguiu permanecer deitada. Como se uma força misteriosa a dominasse, fazendo-a perder a influência sobre os seus movimentos, saiu de casa, envolta apenas na sua camisa de dormir, descalça e de cabelo pelas costas. Pôs-se a caminho do rio, descendo a encosta íngreme, por entre os castanheiros e os carvalhos.
Estava um dia lindo de Primavera, os fenos despontavam num verde ainda tenro. Mas ela caminhava sem se dar conta do brilho do sol e do chilrear dos pássaros. Movia-se alheia a tudo, como se vivesse num outro mundo, em direcção a um dos raros bancos de areia, no curso do Arda, onde ela e as irmãs costumavam ir lavar roupa.
Lá chegada, dirigiu-se à água, sem se dar ao trabalho de levantar a camisa, que lhe chegava aos pés.

28 janeiro 2012

O Ano de Karl May

Tinha eu, em fins do ano passado, falado do escritor alemão Karl May e trocado comentários interessantes com a Teresa, sem saber ainda que 2012 é o ano de Karl May. Pelo menos, assim decretou a Karl-May-Gesellschaft, a fim de assinalar o centenário da morte do escritor com toda uma série de iniciativas e eventos.


Karl May (1842/1912) é objecto de culto na Alemanha. Escreveu mais de 100 livros de aventuras, situados no Oeste Americano, no Oriente, na China e na América do Sul. Muitos destes livros foram adaptados ao cinema, ao teatro e à banda desenhada. Karl May escreveu ainda poesia e compôs música.

A sua vida, no entanto, não decorreu sempre pacífica. Antes de conhecer a fama, foi algumas vezes  preso, por roubos e vigarice (seja lá o que isto quer dizer). No total, passou sete anos na prisão, pelo que teve de desistir da sua profissão de professor e errou pelo país, como um vagabundo. Só depois de arranjar emprego numa editora de Dresden, em 1875, escrevendo histórias de aventuras para revistas, a sua vida se modificou. A partir de 1892, os seus escritos começaram a ser editados em livro, fazendo dele um homem rico.


Karl May, no entanto, vendia aquelas histórias como verdadeiras, ou seja, alegava conhecer todos aqueles lugares e ter vivido muitas daquelas aventuras. Na verdade, só depois de enriquecer, ele teve ocasião de fazer essas viagens e a sua imagem ficou bastante danificada, quando os seus fãs tomaram conhecimento.

No post acima referido, a Teresa chamou-me a atenção para o facto de Hitler ter sido um grande fã de Karl May e remeteu-me para a Wikipedia:

Adolf Hitler was an admirer, who noted that the novels "overwhelmed" him as a boy, going as far as to ensure "a noticeable decline" in his school grades.
Hitler later recommended the books to his generals and had special editions distributed to soldiers at the front, praising Winnetou
(chefe índio, um dos personagens dos seus livros) as an example of "tactical finesse and circumspection", though some note that the latter claims of using the books as military guidance are not substantiated.

Porém, a mesma página chama a atenção para o seguinte:

In his admiration Hitler ignored May's Christian and humanitarian approach and views completely, not mentioning his – in some novels – relatively sympathetic description of Jews and persons of non-white race.


E é verdade que as personagens de Karl May revelam tolerância, respeitando as outras religiões. Há mesmo uma aproximação ao islamismo, no chamado "Ciclo Oriental" (Orient Zyklus), pese embora uma certa tendência moralista, aliás comum no século XIX, que leva o escritor a terminar alguns romances com a conversão de pessoas de outros credos ao Cristianismo.

Na Wook, só encontrei livros de Karl May em inglês, ou castelhano.


27 janeiro 2012

Qual o livro mais maldito?

O blogue da Livraria Pó dos Livros iniciou uma votação para eleger o livro mais maldito. Há dez candidatos, que vão desde o Mein Kampf, à Bíblia, passando pela Autobiografia Política de Cavaco Silva.

25 janeiro 2012

Livros Esgotados #2

Imagem daqui

Um link no Blogtailors aumentou consideravelmente as visitas a este post e resolvi responder aos comentários sob esta forma.

Um/a comentador/a que resolveu não se identificar (já agora, digo que, ao contrário de outros meus colegas da blogosfera, é algo que não me repugna, desde que a pessoa não se ponha com insultos) começa por dizer que uma livraria média ou grande dá sempre a possibilidade de encomendar. Parece, no entanto, não ser bem assim. Vários comentadores a este outro post partilharam as suas experiências e chegou-se à conclusão de que depende muito das livrarias (grandes e pequenas) e, acima de tudo, de quem atende os clientes! Também o Ângelo Marques referiu aqui a falta de tacto dos vendedores.

O mesmo comentador anónimo fez ainda afirmações muito interessantes: se a loja ou cadeia de lojas não trabalhar com a editora, fica melhor dizer "esgotado no editor; não podemos encomendar" do que dizer "somos uma livraria mas não temos acesso a todos os livros". E ainda: uma livraria pequena foge a sugerir a encomenda porque não consegue gerar encomendas adicionais à editora para não ter de pagar portes, que de outra forma trariam prejuízo à venda.

Eu lamento que a sobrevivência de algumas livrarias pequenas seja difícil, até porque, normalmente, o leitor encontra aí  (ou devia encontrar) um atendimento mais personalizado. Mas chegamos, assim, ao absurdo desta situação: encomendar livros que as outras livrarias dizem estarem esgotados não seria uma forma de fidelizar um cliente? Na minha opinião, as livrarias pequenas deviam apostar precisamente neste tipo de "favores".

Depois de dar estas informações, o comentador anónimo diz: é tão simples aprender estas coisas simples, em vez de criar "fúrias" (numa alusão ao modo como eu inicio o post). Desculpe-me, mas, por mais que eu tente entender as dificuldades económicas das livrarias pequenas, ou a vergonha de dizerem que não têm acesso ao livro xis, eu não posso aceitar que elas prejudiquem precisamente os escritores menos conhecidos, que não são editados pelos grandes grupos editoriais. Um autor nestas condições tem, desde logo, dificuldades em ser notado, pois não é objecto de grandes campanhas de marketing. Se, ainda por cima, as livrarias dizem que o seu livro está esgotado, desencorajando os leitores de o continuarem a procurar, é de gerir "fúria" em qualquer um! Nós, os autores congratulamo-nos com cada pessoa que se interesse pelo livro e o compre. Os livros saem-nos "do corpo", é algo em que investimos centenas, ou mesmo milhares, de horas, às vezes, à custa de muito sacrifício! Ver o nosso trabalho assim desprezado dói muito! E enfurece! Um livro não é apenas um objecto de papel, com páginas imprimidas; um livro é sangue, suor e lágrimas; um livro é disciplina e concentração, é investimento de energia, é o abdicar de coisas de que gostamos de fazer, a fim de ter tempo para ele.

As livrarias acabam, assim, por alimentar o sistema perverso, em que os editores (os grandes) é que decidem quais escritores devem vender muitos livros, sem, praticamente, olharem à qualidade. Sob este sistema, a J. K. Rowling nunca teria chegado com o seu Harry Potter onde chegou, se tomarmos em conta que a edição do seu primeiro livro (numa editora, à altura, pequena) se limitou a 500 exemplares! Presumo que o sistema inglês seja parecido com o alemão, em que qualquer livro se pode encomendar em qualquer livraria, independentemente do seu tamanho. É o vendedor/livreiro que nos diz logo: «não temos. Quer encomendar?». Porque, aqui, as livrarias gostam de vender livros e de fidelizar clientes! E, no dia seguinte, dão-nos o livro para as mãos.

24 janeiro 2012

Naquele Tempo (2)

Ou: Aspectos menos conhecidos da Idade Média



«Não deixa de ser significativo que o imaginário da poesia de amor explore de preferência a situação de infracção (cultivando o desejo de adultério e ao mesmo tempo apresentando a quebra do segredo amoroso como o pior dos crimes do amante), e que o imaginário da cantiga de amigo ignore por completo os preceitos da moral oficial, que proíbe as relações pré e extraconjugais.
(...)
As cantigas de amigo (...) podem reflectir certos costumes de um grupo humano regido por preceitos menos repressivos, constituído pelos excluídos do casamento solene e estável, mas nem por isso necessariamente impedidos da vida sexual, como seriam os filhos segundos, as raparigas sem dote, os bastardos e bastardas, os cavaleiros sem terra, os jograis, os escudeiros, as soldadeiras, as barregãs...»
(Página 19, Significado erótico dos géneros poéticos)

«O celibato eclesiástico só se impõe como norma geral no século XII (...) e continua a ser esquecido com grande frequência até ao século XVI. O divórcio é previsto e autorizado nos costumes municipais e estes continuam a ser copiados e praticados, sobretudo nas terras do interior, pelo menos até ao século XIV, com a tolerância das autoridades eclesiásticas. A barregania foi provavelmente um costume quase constante na alta Idade Média para os jovens nobres antes do casamento; confundia-se frequentemente com o sacramento de facto em todas as classes sociais, e só foi propriamente combatida quando implicava uniões de cônjuges de condição social desigual e quando envolvia clérigos (depois do século XII) e homens casados legitimamente.»
(Páginas 20/21, A moral clerical e a sua evolução)

20 janeiro 2012

Entrevista (4)

A Joana Dias já publicou a 2ª parte da conversa/entrevista, resultante da troca de emails entre mim e ela. Aqui, um extracto:

- Alguma vez sentiu aquele assomo da página em branco ou é algo que flui naturalmente?
Até agora, tem fluido tudo muito naturalmente. Um romance escreve-se aos poucos, cena a cena. Quando começo a escrever uma cena, já sei como vai acabar, mas os pormenores surgem na altura da escrita. Às vezes, é difícil fazer a ponte de ligação entre as cenas. E o romance histórico, como eu o escrevo, tem ainda a dificuldade de se apresentarem os factos de forma sucinta, sem se tornarem maçadores. Tenho de fazer uma selecção muito precisa daquilo que vale a pena ser dito, prescindindo daquilo que, apesar de ser interessante, pode começar a maçar. Nem sempre fico satisfeita com o resultado. Principalmente, no romance do D. Dinis, tive problemas, devido à quantidade de leis, reformas e medidas que o Rei Lavrador decretou e pôs em prática.

Bom demais para Tugas?

Lindíssima, esta ilustração, adoro!

A procura da identidade e das raízes da família é o tema principal de "Portugal", o novo livro de banda-desenhada de Cyril Pedrosa, francês luso-descendente, hoje lançado em França.

Cyril Pedrosa, de 38 anos, nasceu em Poitiers e não sabe falar português. Mas interessa-se pelas suas raízes e o seu livro deixa-me muito curiosa, pois trata-se de uma visão de Portugal por alguém vindo "de fora". As editoras portuguesas devem estar ansiosas por lhe deitarem as mãos...

O tanas!

"Portugal" tem "edição em estudo" por parte da ASA, mas não faz, por enquanto, parte da programação da editora portuguesa.

O livro "Três Sombras", imediatamente anterior ao título agora lançado, tem edição brasileira, da Quadradinhos na Cia., e foi contratado para Portugal pela Polvo, que entretanto não avançou com a edição.

Não tenho palavras! Mas o que pensam as editoras portuguesas? Que ele é bom demais para o nosso país?

Pois, e talvez seja mesmo!

Via Dias Imperfeitos

18 janeiro 2012

Entrevista (3)

Por vezes, há coincidências destas. Depois de, há dois dias, Iceman ter exprimido a sua opinião sobre D. Dinis, a quem chamaram o Lavrador, a Joana Dias do Páginas com Memória publicou hoje o resultado da sua troca de emails comigo. Na primeira parte desta conversa/entrevista, fala-se, entre outros temas, do meu fascínio pela Idade Média, da minha opinião pessoal sobre as figuras dos meus romances, se alguma delas me decepcionou do ponto de vista humano e, ainda, de qual dos livros me deu mais prazer escrever.

Aconteceu na Holanda


Um homem despiu-se, atirou-se para a água gelada de um canal e salvou um gatinho de ser afogado.

Via Tempo Contado

Opinião D. Dinis (VI)

Desta vez, é o Iceman que nos dá a sua opinião, no nlivros:

(...) a autora é mais uma vez exímia na forma como preenche com ficção os factos Históricos, “pegando” no que se sabe da época e dos personagens, vai tecendo um trama magnífico que se transforma num romance histórico brilhante, de uma excelente qualidade literária.

16 janeiro 2012

Livros Esgotados

Imagem vista aqui

Em meados do ano passado, descarreguei aqui e aqui a minha fúria, ao saber que algumas livrarias davam os meus livros por esgotados, sem o estarem. Entretanto, sei que isso é prática mais ou menos comum, em certas livrarias, não se entendendo como é que o sector livreiro, nesse aspecto, se aniquila a si próprio. Parece-me mesmo obsceno.

Compreendo que, ao ritmo a que os livros são publicados, as livrarias lutem por falta de espaço e se livrem daqueles que vendem menos. Mas porque não dão a possibilidade ao cliente de encomendar o livro? Com as tecnologias actuais, isso poderá ser tudo, menos difícil. Mas, mesmo que não se queiram dar a esse trabalho, que digam algo como: sinto muito, mas já não negociamos esse livro! É bem diferente de dizer que está esgotado!

Desenterro este assunto, depois de ler um post da editora Maria do Rosário Pedreira. A propósito de a Maçonaria ser o tema do momento, ela lembrou-se de um ensaio que publicou há tempos: Na Sombra - Breve História das Sociedades Secretas, de John Lawrence Reynolds. Mas o que me chamou a atenção foi a frase: e, mesmo que lhe digam que está esgotado – os livros nunca ficam tanto tempo nas livrarias –, insista e encomende.

Parecem ser as palavras de ordem: insistir e encomendar! É isso mesmo que aconselho a todos os que procurem um livro que já não se encontra nas livrarias. Porque os livros que não se vendem acabam por ser destruídos. Mesmo que haja gente a procurá-los!

Digam lá se não é de doidos!

Nota (adicionada posteriormente): respondi aos comentários aqui.

15 janeiro 2012

Blogs do ano 2011

Começou a votação para escolher os blogs (ou blogues) do ano 2011, no Aventar.

Clique aqui para votar

A representatividade destas votações é sempre discutível, até porque não vão a votos todos os blogues que existem. Chamei a atenção, por exemplo, para o facto de haver a categoria Livros/Literatura/Poesia, mas ficarem de fora os blogues que se ocupam de Crítica/Opinião Literária, apesar de os seus autores, como grandes amantes e divulgadores de livros, o merecerem plenamente. Não fui a única a fazer propostas deste género e João José Cardoso do Aventar declarou: «as propostas de novas categorias, ou de dividir outras, são em muitos casos sensatas. Sucede que inicialmente não prevíamos tanto sucesso para esta iniciativa (sobretudo junto de blogues que francamente no Aventar desconhecíamos), e agora torna-se complicado mudar as regras a meio do jogo, o que pode prejudicar alguns concorrentes. Fica o aviso dirigido a quem para o ano queira ter a mesma iniciativa.»

Realmente, deve dar uma trabalheira a organizar tal e eu tomei conhecimento da iniciativa já quase no fim do prazo de elaboração das listas. (Nota: encontrar os comentários com a minha proposta e a resposta de João José Cardoso é tarefa morosa, numa selva de mais de 280 comentários).

De qualquer maneira, ainda fui a tempo de inscrever o Andanças Medievais na categoria de História e o Em 2711 já lá estava, em Actualidade Política (colectivos). Quem quiser votar nestes, ou noutros blogues, só tem de clicar no link.

13 janeiro 2012

Naquele Tempo (1)

Andei eu aqui a elogiar Robert Fossier, que escreveu tão bom livro sobre a Idade Média (o que aliás reitero), mas, afinal, temos um autor/historiador nacional que é ainda melhor!


O Prof. José Mattoso é um especialista de qualidade indiscutível. Depois de ler, de sua autoria, os dois volumes de Identificação de um País, os dois primeiros volumes da História de Portugal da Editorial Estampa, por ele coordenada, e a Biografia de D. Afonso Henriques pensei que ele não me poderia surpreender. Mas surpreendeu! Este Naquele Tempo é uma verdadeira maravilha. Dá um prazer enorme a ler (o que, sou sincera, nem sempre acontecia nalguns livros anteriores, liam-se mais pela competência das informações) e tem a vantagem de se confinar ao caso português. Porque há diferenças entre a vida medieval em Portugal e nos outros países.

Naquele Tempo é uma colectânea de ensaios de História Medieval, que focam temas habitualmente ausentes dos livros de História, como as mentalidades, a sexualidade, os usos e costumes. Iniciarei brevemente uma série com citações deste grandioso livro, mostrando uma Idade Média, muitas vezes, bem diferente daquela que imaginamos.

Esta obra mostra que a era medieval, um período que atravessa mil anos de História, possui várias fases. As mentalidades, os usos e os costumes eram bem diferentes na era visigótica, no início da formação da nacionalidade portuguesa e nas épocas de D. Dinis, D. Afonso IV, ou D. João I.

12 janeiro 2012

Um outro Afonso Henriques

D. Afonso Henriques ficou conhecido como o "arreda" porque foi umas das primeiras pessoas em Portugal a ter automóvel, numa altura em que os caminhos (não se podiam chamar estradas) não estavam preparados para receber estes novos veículos. Em vias desenhadas para carros de bois e cavalos, sobressaia o automóvel do Infante que, como devem calcular, não teria muita facilidade de passagem para a velocidade, na altura, supersónica que podia chegar aos 40 kms hora. Assim, para facilitar a sua mobilidade, D. Afonso Henriques utilizava a sua voz como sinal de passagem, gritando constantemente "arreda!", para conseguir desimpedir a via.

Não se trata de um texto humorístico, mas muito sério. É claro que o nosso primeiro rei não foi o único português a chamar-se Afonso Henriques. Um outro, foi o filho cadete de D. Luis e Dª Maria Pia, que esteve a um passo de se tornar em D. Afonso VII, Rei de Portugal e dos Algarves D'Áquem e D'Álem Mar em África.


Era uma das personalidades que esperava a família real no cais do Terreiro do Paço no dia 1 de Fevereiro (de 1908), ao lado do seu sobrinho D. Manuel (...), acompanhando a comitiva no seu automóvel nessa curta viagem que terminou tragicamente na esquina da Rua do Arsenal. (...) Não fosse a fortuna (ou má pontaria) de o tiro que acertou em D. Manuel apenas lhe tivesse atingido num braço e o "Arreda" teria deixado nesse dia de ser o bem-disposto infante para ser aclamado D. Afonso VII.

Depois do regicídio, o Infante D. Afonso Henriques fixou residência em Itália e casou com uma cidadã americana. Morreu em 1920 e foi o primeiro Bragança a regressar do exílio para o panteão de São Vicente de Fora.

09 janeiro 2012

Conversas com a Carolina



Em Conversas com a Carolina, João Raposo dá à filha conta daquilo que ele acha essencial para a vida. Porque, como nos diz o sub-título: "A educação dos nossos filhos é um caminho sem mapa". Eu acho que João Raposo se esforça por desenhar esse mapa de uma forma muito honesta. E é disso que precisamos, acima de tudo: honestidade.

É um livro para ser lido, não só pelos filhos, como pelos pais e, depois, discutido. Porque conversar não é só falar. Conversar é também ouvir; conversar é uma maneira de fortalecer relações; conversar é dar atenção, é reservar tempo para alguém. E uma das maiores queixas dos filhos, hoje em dia, é que os pais não têm tempo para eles.

Aqui, algumas passagens das Conversas com a Carolina:

É bom que nunca esqueças que a culpa das nossas decisões não é dos outros.

O sonho realiza-se com trabalho e vontade, não com desejos, mas com quereres.

Todos desejam voar, mas poucos sabem ou querem saber o custo das suas asas. Poucos querem saber como se constroem as asas da sua liberdade e, ignorantes da própria ignorância, apenas voam para a sua perdição e a dos que neles acreditam.

"Ama os outros como a ti mesmo". O que na prática acontece é que as pessoas são incapazes de se amarem a si mesmas. Portanto, ao amarem as outras como a si mesmas, não amam. Poderia, sem invocar qualquer preceito religioso, falar do respeito pelo outro, que é o mesmo que o respeito por nós mesmos.

Só dá quem é rico. Não estou, obviamente, a falar de riquezas materiais. Falo da riqueza interior. Falo de pessoas que se amam a si mesmas e que realizam esse amor dando aos outros. Falo de riqueza intelectual e moral.

Somos aquilo que fazemos e não o que queremos pensar que somos.

São tantos os pequenos e grandes momentos de felicidade, que por vezes se torna difícil entender porque andam as pessoas a dizer que não são felizes, que a felicidade não existe, ou a interrogarem-se, talvez hipocritamente, sobre o que é isso da felicidade, como se a sua incapacidade de a definir provasse a sua inexistência.

Pode-se ler mais no blogue Conversas com a Carolina, que igualmente informa sobre os locais onde se pode adquirir o livro. João Raposo tem mais dois blogues: Crónicas do Meu Descontentamento e Crónicas de Utolândia.

06 janeiro 2012

O Mar

Cresci com o mar à beira dos olhos. Nunca vivi sem ele. Faz-me falta como ar - são palavras de Pedro Rolo Duarte, que me recordaram a falta que o mar me fazia, nos meus primeiros tempos na Alemanha.

Na verdade, até sou uma privilegiada, estou a cerca de 90 km da foz do rio Elba, que desagua no Mar do Norte, numa cidade chamada Cuxhaven. É lá que os navios entram nesse rio, a fim de atingirem o famoso porto de Hamburgo.

Estava cá há cerca de meio ano, quando disse ao meu marido que tínhamos de lá ir, pois, apesar de ainda ser Inverno, eu queria ver praia: a areia e o mar.
Lá chegados, a expectativa era grande, ao estacionarmos o carro. A praia não se avista da estrada, é preciso subir a a um dique, em certos sítios até existem escadinhas. Subi-as ansiosa, mas, chegada ao cimo... a desilusão! Vi areia, mas não vi mar nenhum!!!
"Isto é que é a praia?" perguntei. "Onde está o mar?"
"Bem", respondeu o meu marido, "é maré baixa."
"E depois?"
"O mar recua vários quilómetros, deixa de se ver."
Uma destas!
Fomos consultar a tabela das marés e constatámos que demorava algumas horas a vir o mar. Tivemos de ir embora, sem o ver., o que, na altura, muito me desiludiu.

Entretanto, já lá fui mais vezes e vi o Mar do Norte, até já banhei nele. Claro que não se compara ao Atlântico, só se formam ondas quando há tempestades, isto é, Outono/Inverno. Mas esta coisa de haver uma grande diferença entre a maré alta e a baixa tem as suas vantagens.

Aqui, uma fotografia, numa altura em que a água começa a desaparecer:


Permite-nos ir até bem longe da praia. No sítio onde tirámos esta, a água dava-nos apenas pelos tornozelos:



Aqui, um aspecto da praia, que, em vez de barracas, tem estes bancos protegidos por uma espécie de concha, chamam-se Strandkorb ("cesto" de praia):



A água desaparece por completo, permitindo organizar passeios e excursões no sítio onde, pouco tempo antes, se podia nadar. Ao largo de Cuxhaven, há uma ilha, a cerca de 11 km da costa, que se pode atingir a pé, ou nestas carroças castiças, puxadas por cavalos:




04 janeiro 2012

Ainda o Peto


Depois de aqui ter publicado a opinião da Maria Manuel sobre este livro, deparei com a da Carla Ribeiro, d'As Leituras do Corvo, que me lembrou uma problemática frequente.

Também a Carla Ribeiro se congratula com o amor que a autora expressa pelos animais. Mas lamenta a forma severa (e, por vezes, um pouco agressiva) com que Paula Cairo se refere aos envolvidos nessa experiência, um sentimento que, por vezes, parece estender-se até a quase toda a humanidade. A impressão que fica é a de que nesses momentos, se julga o todo pelas partes conhecidas, resultando numa visão global negativa (e algo injusta).

Na verdade, muitas das pessoas que se ocupam com animais, um trabalho que muito admiro, ficam com uma visão amargurada dos humanos, ao aperceberem-se das crueldades de que alguns de nós são capazes. Não digo que não será legítimo. Por outro lado, se hostilizarmos demasiado os nossos semelhantes, em nada contribuímos para ajudar os animais. Pelo contrário! Quem, já de si, não possui sensibilidade para este tema, distancia-se cada vez mais, convencido de que os defensores das causas dos animais não passam de fundamentalistas, que põem os interesses dos bichos à frente dos nossos.

É o que acontece, quando se depara, por exemplo, com a notícia de um escritor sul-americano, vencedor de um chorudo prémio (150.000 dólares), que anuncia doar o dinheiro a instituições que se ocupam de animais. Não falta quem diga que na América do Sul há problemas mais urgentes, como crianças com fome, etc. e tal. Ou quando a luta contra as touradas assume proporções ridículas, em que alegados defensores dos direitos do touro chegarem a sustentar a condenação à morte de quem se assume como amante de touradas.

Como diz a Carla Ribeiro, é pena, porque há muito de maravilhoso nas "aventuras" de Peto.

É mesmo pena! Porque, enquanto nós humanos nos ocupamos em extremar as posições, esgrimindo argumentos cada vez mais radicais, quem mais sofre são os próprios animais. Que não têm culpa nenhuma!

02 janeiro 2012

O Profeta do Castigo Divino


É curioso verificar que houve um Jesuíta português que previu o grande terramoto de 1755. O padre Gabriel Malagrida, conhecido pelas suas visões proféticas, depois de missionar os índios brasileiros durante vários anos, regressa à metrópole e recebe essa revelação de soror Maria Joana, no convento do Louriçal. A freira morre logo a seguir e Malagrida anuncia o fenómeno, acertando no dia e na hora.

Esta sua previsão, porém, é abafada pelo Secretário de Estado Sebastião José de Carvalho e Melo, que ficou conhecido por Marquês de Pombal e que desdenha dos Jesuítas, cultivando mesmo um grande ódio por Malagrida. Sebastião José recusa-se, acima de tudo, a aceitar que o terramoto aconteça por castigo divino, em consequência da vida pecadora dos portugueses. Uma atitude meritória, naquela altura, em que se tentava acreditar mais na Ciência, em detrimento da Igreja. Mas a desgraça aconteceu!

Neste bem pesquisado romance, Pedro Almeida Vieira dá-nos um retrato de Portugal no século XVIII e das missões dos Jesuítas por terras brasileiras, não escondendo aspectos menos bons do processo de conversão dos índios. A corrupta Corte portuguesa e a incapacidade dos monarcas D. João V e D. José em certas situações são-nos descritas cheias de ironia, com lugar para episódios patéticos, mas, nem por isso, menos verdadeiros.

Nota: no seu site, Pedro Almeida Vieira tem uma base de dados sobre o romance histórico publicado por escritores portugueses, desde o século XIX. É a biblioHistória.