Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

15 janeiro 2013

Mais comparações grotescas

O conceito de se abater um animal que, supostamente, deixou de se adequar à vida doméstica é, a meu ver, perigosa, porque, no fundo, legitima também o abandono, ou seja: "aquilo" que deixou de nos servir, ou que alguém (atente-se: alguém) deixou de poder controlar, ou que passou a atrapalhar-nos, pode deitar-se fora, como um bibelô de que já gostámos muito, mas que passou a irritar-nos. Se é grotesco pôr animais ao nível de humanos, não o é menos pôr seres vivos ao nível de objetos. Não se pode ir de um extremo para o outro! Nós, humanos, não somos donos do Universo, nem, sequer, do nosso planeta Terra. Estamos aqui por empréstimo, assim como os outros animais, que Deus achou por bem criar. Apenas para nos serem úteis? Não creio! Se a utilidade tivesse sido o único critério divino, não se justificaria tanta diversidade.

Crianças e cães, para os humanos, não estão no mesmo nível, escreve Daniel Oliveira na sua crónica "Antes pelo contrário". Claro que não! Mas o contexto em que surge esta frase é, na minha opinião, problemático. Analisemos a sequência: Escrever que "a criança e o cão são os dois inocentes desta história" é pornográfico. Crianças e cães, para os humanos, não estão no mesmo nível. Partindo do caso concreto, chega-se à generalização, a meu ver, perigosa. Porque é que não se pode dizer que um cão é inocente, assim como uma criança, em determinada situação? O estarem, ou não, ao mesmo nível, é variável, conforme o contexto.

Um cão que mata uma criança com quem convive deixou de ser um animal doméstico - como é que o Daniel Oliveira sabe que o cão e a criança, deste caso, "conviveram"? O facto de morarem na mesma casa não quer dizer que o tenham feito, não se sabe em que condições era mantido o cão. O mais provável é que, se tivessem de facto "convivido", a criança ainda estivesse viva!

A vida do humano mais asqueroso vale mais do que a vida do animal doméstico de que mais gostamos. Sempre.  Acha? Pois olhe que se me perguntar quem merece mais viver: a minha cadela Lucy - a minha companheira inseparável desde há nove anos, que me adora e confia em mim, que me ensinou o que é a verdadeira fidelidade, a honestidade e o amor realmente incondicional - dizia eu, se me perguntasse quem merece mais viver: ela, ou um dos energúmenos que participaram na violação coletiva, na Índia, seguida de assassinato, eu respondo-lhe, sem hesitações: a minha cadela!


As crianças não podem correr risco de vida, sejam lá qual forem os motivos - aqui, estamos de acordo! Só foi pena que este pressuposto não tivesse sido aplicado no caso das vinte crianças assassinadas em Newtown por um cão de raça perigosa... Ai desculpe, por uma fera que se soltou do zoológico... Oh, tornei a enganar-me, por um psicopata, um... humano?!
Peço desculpa se estas comparações foram demasiado grotescas!

2 comentários:

Vespinha disse...

Belo texto, Cristina, espero que seja lido por muita, muita gente.

Cristina Torrão disse...

Obrigada, Vespinha. Não só por estas palavras, também pela inspiração :)
Hesitei, este é um assunto muito polémico. E é de todo compreensível a fúria pela morte desnecessária de uma criança. Por outro lado, sabendo que a maior parte dos humanos não imagina o mal e a injustiça que pode exercer sobre os animais, não podia ficar calada.