Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

16 fevereiro 2013

Afonso Henriques em 3D

Depois de terem sido achados os restos mortais de Ricardo III, em Inglaterra, eu exprimi o desejo de ver uma representação em 3D de D. Afonso Henriques, ou de D. Dinis. Na caixa de comentários, desenvolveu-se uma conversa interessante sobre se realmente compensa fazer esse tipo de retratos, ou se cada um deve guardar para si a imagem que tem dessas personalidades, que não foram fotografadas, nem, sequer, pintadas.

manuelmorgado.com

A conversa acabou por puxar o assunto da abertura do túmulo de D. Afonso Henriques, algo que, aliás, já aconteceu por três vezes. A primeira foi no reinado de D. Manuel. Ao visitar as sepulturas originais de D. Afonso Henriques e de seu filho D. Sancho I, D. Manuel não as achou dignas e mandou fazer novas. Estando estas concluídas, o monarca quis assistir à trasladação dos restos mortais. E há um relato da época que diz o seguinte:

No Anno seguinte d'esta eleição, 1520 em os 16 dias do mês de Julho, estando o sereníssimo Rey Dom Manuel nesta cidade de Coimbra, veio a este seu real mosteiro à tarde e mandou abrir as sepulturas antigas dos primeiros dois Reys deste Reyno seus predecessores: Achou o corpo do devoto Rey Dom Affonso Henriques inteiro, incorrupto, a carne seca, e a cor pálida, e macilenta, mas de aspecto severo que parecia estar vivo, do qual sentia cheiro suavíssimo (...) Era el-rei de gigantesca estatura, de des palmos (2,20m) em comprido e de quatro de largo pellos peitos, e a perna que quebrou nas portas de Badajos era mais curta que a outra três dedos.
... Esta memoria deixou escrita João Homem, cavaleiro fidalgo da casa del Rey Dom Manuel que com elle se achou presente, e vio tudo com seus olhos.

Depois desta trasladação, abriu-se a sepultura mais duas vezes: em Setembro de 1732 e em 23 de Outubro de 1832. A primeira terá a ver com a tentativa de canonizar D. Afonso Henriques, tentando verificar a incorruptibilidade do corpo. Desta abertura, porém, pouco ou nada se sabe.
A 23 de Outubro de 1832, o túmulo terá sido aberto na presença de D. Miguel que, passando por Coimbra, quis ver os restos venerados do nosso primeiro rei. O ato foi noticiado na «Gazeta de Lisboa» nº 268 e passo a transcrever um extrato:

A sua caveira estava inteira, e mostrava ainda todos os dentes no seu logar menos um; as dimensões do craneo, e mais partes da cabeça eram grandes, e proporcionados os ossos dos braços e pernas, os quaes comparando-se com os da figura superior do tumulo se achou perfeitamente coincidirem com as dimensões respectivas, tendo 10 palmos (2,20m) de comprimento, como refere a História haver tido de altura o herói.

Enfim, é difícil de dizer se devemos acreditar nestas descrições. Não estou a acusar os seus autores de má fé, mas é verdade que, antigamente, havia muita relutância em quebrar com tradições e mitos, pelo que não se hesitava em "modelar" a realidade, como nos diz o Prof. Mattoso: «Não me admira que, depois da morte, o considerassem um grande homem, no sentido moral, e que essa qualificação tivesse passado para uma ideia física. O fundador da nacionalidade tinha de ser um homem grande. Devia ser um homem de grande vitalidade, pelas crónicas. Dirigia os combates em pessoa».

O historiador chama-nos, ainda, a atenção para que, da primeira vez, se falava de um corpo inteiro, incorrupto (...) do qual sentia cheiro suavíssimo, tratando-se de um testemunho que considera mais resultante da veneração tributada ao rei do que de uma observação objectiva. Ao tempo de D. Miguel, já não se fala do corpo, mas apenas de ossadas, que, aliás, «continuam a ser as de um gigante». 2,20m de altura parece-me, porém, demais, penso que um homem dessa estatura, apesar de forte, teria muita dificuldade em ser ágil, no campo de batalha.

Túmulo de D. Afonso Henriques, na Igreja de Santa Cruz, em Coimbra
Em Julho de 2006, esteve marcada mais uma abertura do túmulo, a fim de se analisarem os restos mortais com os métodos modernos. O próprio Prof. Mattoso afirmou: «Vai ser interessante comparar essa ideia com os resultados dos exames antropológicos sobre toda a compleição física». O ato estava a cargo de Eugénia Cunha, investigadora da Universidade de Coimbra, mas foi cancelado, à última da hora, pelo IPPAR.

Foi pena, na minha opinião. Claro que devemos respeitar os mortos e talvez seja melhor ficarmos com a nossa imagem de D. Afonso Henriques. Mas eu sou curiosa e gostaria de saber que "segredos" uma investigação desse tipo nos poderia revelar.

Nota: as descrições dos restos mortais aqui transcritas encontram-se no 1º Volume de Grandes Enigmas da História de Portugal (págs. 164 a 168), Ésquilo 2008


6 comentários:

Manuel Cardoso disse...

Fico também dececionado com essa suspensão.
Não sou favorável a qualquer tipo de nacionalismo mas o conhecimento e o respeito pelos nossos ancestrais deve fazer parte da identidade histórica de todo um povo.
Nunca se falou tanto de federalismo europeu e de globalização. Mas isso devem ser razões acrescidas para investirmos no NOSSO passado.
Por isso, viva Afonso Henriques, em alma e corpo :)
Um abraço, Cristina.

Cristina Torrão disse...

Completamente de acordo!
Quanto à suspensão, depreende-se que o IPPAR apenas adiou a abertura do túmulo. Esperemos que sim. E que ainda estejamos vivos, quando (e se) houver nova abertura ;)
Um abraço, Manuel.

André Nuno disse...

Cristina,
um post interessantíssimo. Devo dizer com toda a sinceridade que não consigo acreditar na tese dos 2.2m do grande Afonso Henriques. Ao ler primeiro excerto que coloca fiquei desde logo com a percepção de ser um relato romanceado e demasiado "elogioso" para que se possa levar a sério na sua plenitude. Com os excertos seguintes, com a boa e maravilhosamente sustentada capacidade argumentativa da Cristina completei a minha convicção. Admito, sem fé, que A.H. tenha sido alto para o seu tempo. Qual a imponência da sua estatura não estou certo.
Acredito que a imponência, essa sim, da sua vida e legado tenha levado aos seus seguidores a exacerbar a "realidade da grandeza do que viam".
Como sempre sou um daqueles que gosta de SABER. Desejo que não muito se adie a abertura do túmulo pelo IPPAR e que possamos tirar essa dúvida a limpo. E confesso que penso que o homem foi mais pequeno do que se imagina! :)
Para a História ficam os feitos e esses são perfeitamente mensuráveis, admiráveis de grande dimensão.
Obrigado, Cristina!
Um abraço.

Cristina Torrão disse...

E não esqueçamos que, durante alguns séculos, se tentou canonizar D. Afonso Henriques, o que teria contribuído para "romancear" ainda mais as descrições.
Eu é que agradeço os seus comentários interessantes, André Nuno!
Um abraço.

Rita disse...

Olá, pois lembro-me que na semana passada passou na sic durante o Jornal da noite uma entrevista à investigadora que tentou várias vezes pedir autorização para estudar os restos de D.Afonso H. , mas infelizmente sempre houve recusas e desculpas "esfarrapadas"...que pena

Cristina Torrão disse...

É uma novidade que me dá, Rita, vivendo no estrangeiro, não me apercebi dessa entrevista. Espero que se mantenha a discussão sobre o assunto.