Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

21 agosto 2013

Amigos imaginários


O nosso cérebro faz, por vezes, associações curiosas. Eu sempre associei Calvin & Hobbes ao livro O Meu Pé de Laranja Lima, do brasileiro José Mauro de Vasconcelos. Ambos nos falam de crianças que criam um amigo imaginário.

Entre longas-metragens e adaptações televisivas, O Meu Pé de Laranja Lima vai já na quinta versão. Lembro-me de ver uma delas, na televisão, penso que foi a primeira versão em cinema, que estreou em 1970, dois anos após o lançamento do livro. Já não sei que idade tinha, mas sei que o filme me comoveu até às lágrimas. E admirei a coragem do miúdo, o Zezé, ao atrever-se a conversar com uma árvore, desabafando e diminuindo a sua solidão. Digo coragem porque, na altura, constatei que nunca me havia atrevido a tal, apesar de ter a sensação de que o necessitava. Acho mesmo que invejei o Zezé, que possuía uma pequena árvore tão carinhosa, que o compreendia tão bem...

O receio de que me descobrissem e ridicularizassem sobrepôs-se àquela necessidade. Nunca me atrevi. Com o passar dos anos, o assunto foi esquecido. Mas quando, já com mais de vinte anos, comecei a ler as tiras de Calvin & Hobbes na imprensa, algo recalcado manifestou-se no meu interior. Fascinou-me que um menino se atrevesse a considerar um tigre de peluche o seu melhor amigo, que o ouvia, o compreendia, o aconselhava e, muitas vezes, o salvava dos seus fantasmas. O pormenor que mais me emocionou (algo que ainda hoje idolatro) foi o facto de o tigre confidente/protetor ser muito maior que o miúdo. Porém, nas cenas em que a mãe ou o pai de Calvin falam com o filho, o tigre torna a ser de peluche, quatro vezes mais pequeno, e ocupa um lugar discreto no quadradinho (passa mesmo despercebido).

Ainda hoje me atinge uma sensação de oportunidade perdida, por não ter criado o meu próprio amigo, grande e forte, quando sentia falta dele.



4 comentários:

Sara disse...

Adoro o Calvin e o Hobbes! Tenho vários livros...São histórias inteligentes (repare-se no nome das personagens...), cheias de humor cínico, mas ao mesmo tempo ternurentas. É tão engraçado quando ele discute o sentido da vida com o tigre...Por acaso eu tinha amigos imaginários...Hoje já não tenho, mas estou sempre a criar versões imaginarias de mim própria. É um bom exercício para manter o cérebro activo :)

cumps

Maria João disse...

Eu nunca tive amigos imaginários. Criava personagens e vivia as vidas delas nas histórias que escrevia para os meus amigos (poucos) lerem. Acho que era a forma que tinha de me alhear de alguma realidade menos interessante.

Cristina Torrão disse...

Sara, eu centrei-me na questão do amigo imaginário, mas é claro que as histórias são muito mais do que isso, justificando a sua fama.

Hoje em dia, também posso dizer que crio versões imaginárias de mim própria :)

Maria João, também eu me refugiava nas histórias que criava, durante a infância e alguma parte da juventude. Mas, infelizmente, as histórias ficavam na minha cabeça, não as escrevia.
Devia ter começado a escrever mais cedo...

Vespinha disse...

O meu irmão sempre foi fã do Calvin... suspeito que também tenha tido um amigo imaginário, tenho de lho perguntar.