Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

14 outubro 2013

Incentivos

Este texto de Paulo Morais fez-me lembrar um outro que escrevi para a rubrica Ao Domingo com..., do blogue da Cris Delgado, O Tempo Entre os Meus Livros. E, como já foi há mais de um ano, aqui vai a republicação:



«Cresci rodeada de livros»; «o gosto pela leitura foi-me introduzido no berço»; «os meus brinquedos foram os livros»; «devorava livros»; «sempre quis brincar com as palavras»… 

Muitos escritores começam a falar sobre si com expressões deste género. Eu não. Porque nada disso seria verdade. A nossa biblioteca era modesta. Os meus pais iam lendo, mas, pasme-se, desdenhavam livros infantis. E eu até gostava de ler, aprendi cedo, antes de completar os cinco anos. Os poucos livros que tive (pouquíssimos) foram-me oferecidos por parentes, ou amigos. E nunca ninguém me leu histórias ao deitar.
Lia os livros de leitura da escola primária de trás para a frente e de frente para trás. Ainda sei de cor alguns textos do livro da 1ª classe. Há um trecho do «milagre das rosas» que guardo na minha memória, há cerca de quarenta anos:

- Ides ver os vossos pobres, ou apenas a passeio? Mas dizei-me o que levais, nesse regaço tão cheio?
- Apenas rosas senhor, que eu outra coisa não tenho. Para fazer uma coroa, com que às vezes me entretenho.
- Vós dizeis que isso são rosas? Como posso acreditar? Não há cravos em Janeiro, menos rosas de toucar. Mostrai lá, minha rainha, o que vai nesse avental!
- Pois aqui está, meu marido, perdoai se vos menti. São esmolas para os meus pobres, que tantos há por aqui.
(D. Isabel abre o regaço e cai uma chuva de rosas).
- Ó que rosas tão bonitas saem dessas mãos tão nobres. Perdoai-me, minha santa, ide ver os vossos pobres!

Pelos oito ou nove anos, descobri o gosto pela banda desenhada do Tio Patinhas, apesar de os meus pais acharem que não eram livros a sério, que não se aprendia nada com aquilo. Mas lá mos iam comprando, principalmente, em situações em que lhes convinha que eu estivesse sossegada.
Na minha juventude, sem incentivos, perdi, definitivamente, hábitos de leitura. Só lia os livros obrigatórios do ensino (e nem todos). Enquanto amigas minhas liam os “Cinco”, ou os “Sete”, o meu pai não queria ver “livrecos” desses lá por casa, insistia em que eu devia ler clássicos. E eu, simplesmente, desisti.

Mas formavam-se-me histórias na cabeça. Quando a vida se tornava aborrecida, monótona, o que acontecia frequentemente, eu entretinha-me a inventar histórias. Passei a adolescência a fazê-lo. Mas não as passava para o papel. No meu subconsciente, ecoava a mensagem dita pela minha professora da primária: «é boa aluna, mas não tem imaginação nenhuma!» Mensagem que a minha mãe, por alguma razão, corroborava. Seria por eu ser calada?
Eu acreditei nelas. Cegamente. Talvez por desejar que gostassem de mim. Ensinaram-me que as pessoas só gostavam de mim, se eu não as desiludisse. E contrariar um adulto era desiludi-lo. Por isso, achava eu que as histórias que se formavam na minha cabeça não deviam ter importância nenhuma. Apesar de, a partir dos dezoito/vinte anos, se assemelharem a romances inteiros.

Aconteceu casar com um leitor compulsivo e aproveitei para reatar esse gosto que estava adormecido dentro de mim. E comecei a perceber que as histórias que eu lia eram, muitas vezes, de qualidade inferior às que eu imaginava. Dava comigo a irritar-me com certos enredos, que ficariam bem melhor se os autores lhes tivessem dado esta ou aquela viragem. Irritavam-me personagens que agiam de determinada maneira apenas para alimentar o enredo, contrariando um carácter que vinham desenvolvendo ao longo do romance.
A certa altura, já ia a meio dos trinta, perguntei-me: porque não hei de escrever as minhas próprias histórias? Se não tenho imaginação nenhuma, porque é que elas se me formam na cabeça?

Sempre gostei da ficção histórica. E, quando li a primeira biografia de D. Afonso Henriques, escrita pelo Prof. Freitas do Amaral, a imaginação soltou-se-me de tal maneira, que fiquei em pânico, ao constatar que nunca conseguiria escrever àquela velocidade, nem mesmo se me limitasse a tomar notas. E receava esquecer-me das ideias que me surgiam.
Tive de me disciplinar, desenvolver um método de escrita, que ainda estou a aperfeiçoar. Sinto que ainda não recuperei os anos perdidos, em que ignorei este meu talento. Mas, finalmente, escrevo as histórias que gostaria de ler. Crio personagens que faço questão serem verosímeis, que tenham carácter, profundidade. Para isso, ao lado da História, pesquiso em livros de Psicologia.

O mais importante, para mim, é a criação de pessoas de carne e osso e a maneira como elas interagem umas com as outras. Os meus romances centram-se nas personagens, nos seus conflitos, nas suas crenças, nas suas lutas. Porque a História é feita, em primeiro lugar, de pessoas e, só depois, de factos.

Estou a aprender, continuo a aprender, sei que estou apenas no início e que tenho ainda muito para dar.


7 comentários:

Anónimo disse...

Força, Cristina! Parar é morrer.

ABC

Fmaria Mesquita disse...

Gostei muito mesmo do texto e da mensagem transmitida.

Cristina Torrão disse...

Obrigada aos dois :)
E força também para ti, António!

Daniel santos disse...

Força!

Cristina Torrão disse...

Obrigada, Daniel :)

Alice Alfazema disse...

Gostei muito da mensagem da franqueza do texto, força e muita criatividade.

Um abraço. :)

Cristina Torrão disse...

Obrigada, Alice :)

Tenho andado com pouco tempo para a blogosfera e não a tenho visitado. Mas é grande a vontade de me pôr em dia ;)