Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

11 outubro 2013

Os Dez Mandamentos "reloaded"

Hoje em dia, os psicólogos são pereentórios em afirmar que o uso do imperativo não se adequa a funções didáticas, já que fazemos a contragosto aquilo a que somos obrigados. Não será, por isso, melhor reformular os Dez Mandamentos, desde que a sua mensagem seja respeitada?

Um canal holandês de televisão seguiu este princípio. Tirei estas informações de um jornal católico alemão, sem referências mais concretas ao canal e ao programa. Apenas informam que se tratou de uma série sobre o Catolicismo. A propósito dos Dez Mandamentos, a divisa foi: «não se trata de proibições, mas de conselhos inteligentes; não se trata de um sinal de stop, mas de uma placa indicadora de uma direção».

Propunham, assim, uma nova leitura (a azul):

- Não tenhas outros deuses além de mim - Deus está presente na minha vida.
- Não faças mau uso do nome do Senhor, teu Deus - Eu honro Deus.
- Guarda o dia de sábado, consagrando-o ao Senhor - Este dia é sagrado.
- Respeita o teu pai e a tua mãe - Eu respeito as minhas origens.
- Não mates - Eu quero viver.
- Não cometas adultério - Eu sou fiel.
- Não roubes - Eu tenho o suficiente.
- Não levantes falsos testemunhos - Eu sou sincero/honesto.
- Não cobices a mulher do próximo - O meu amor é puro.
- Não cobices nada do que pertence aos outros - Eu estou agradecido.

Parte-se do princípio: eu não sou obrigado; faço-o porque quero tornar a minha vida mais agradável.

Teria a Igreja mais sucesso junto dos jovens com fórmulas deste tipo? O papa Francisco tem surpreendido com atitudes novas, talvez ainda diga algo neste sentido...



7 comentários:

Bartolomeu disse...

Por acaso, acerca dos dez mandamentos, faço uma leitura diferente, mas inserida também, no contexto da indicação do sentido, em lugar da proibição. Aliás, se ao Homem foi dado o privilégio, ou o direito à autodeterminação, deixaria de fazer sentido que a mesma fonte que lho concedeu, a seguir lho retirasse, proibindo.
E a leitura que faço é, do meu ponto de vista, a lógica, ou seja:
1º mandamento: Se cada um de nós é único,e entende que não deve ser confundido com outro, sobretudo por alguém que declara ama-lo, respeita-lo, etc, também Deus, e porque fomos criados à Sua imágem e semelhança, será único.
2º mandamento complementa e sustenta o 1º
3º mandamento ensina-nos a dedicar um dia da semana à reflexão e à introspecção, uma medida importante para que nos conheçamos melhor e assim, possamos compreender melhor as atitudes dos nossos semelhantes.
4º mandamento alerta-nos para outro aspecto importante da nossa vida em sociedade, o respeito adquirido através da integridade de carácter.
5º mandamento diz-nos algo linear; se alguém matar, vai certamente ser vítima de alguém que quererá vingar a morte, ou sofrerá a pena aplicada pela justiça
6º mandamento. Este manamento é de certo modo ambíguo, na medida em que se coloca somente aos casais cuja união foi consagrada por uma lei, excluindo portanto os casais que se unem pelos laços do amor, da amizade, ou de qualquer outro interesse.
7º mandamento está na mesma linha do 5º mandamento
8º mandamento ensina-nos que ao mentir, perdemos o respeito e a confiança dos outros. Coloca-se então a questão se queremos ser respeitados e creditados, ou se preferimos mentir e retirar o máximo de dividendos possível (como fazem os nossos políticos)
9º mandamento. Este mandamento colide ligeiramente com o 6º, no entanto alerta-nos para algo muito provável que é: se cobiçarmos a mulher do outro, estamos sujeitos a levar uma cachaporrada sem sabermos muito bem de onde veio. Isto porque, nesta situação, o outro, geralmente, é coberde e não ataca de frente. Mas de qualquer maneira, deixa-nos duas "escapatórias": poder cobiçar a mulher do "ex" ou a mulher que não teve "ex" nem "próximo".
10º mandamento; não "desfazendo" dos outros 9, em minha opinião, se todos interiorizássemos o significado e praticássemos o conceito deste mandamento, imediatamente, metade dos problemas do mundo deixariam de existir e por reflexo da extinção dessa metade, a outra ía também à vida. Seria então o paraíso!
;)

Cristina Torrão disse...

É isso mesmo, Bartolomeu, há que vê-los pela positiva. A obediência é uma qualidade, mas passarmos a vida inteira a obedecer não nos leva a lado nenhum. Se só obedecemos, aceitamos que todos os outros nos são superiores. Não pode ser isso a mensagem de Deus!

Como dizes, se interiorizássemos o significado dos Mandamentos, muitos problemas deixariam de existir e é nisso que reside a sua magnificência: algo estipulado há mais de dois mil anos continua a ser atual. Mas é preciso entender a mensagem e, não, obedecer cegamente, foi também isso que me agradou nesta iniciativa.

Obrigada pela tua interpretação :)

João Raposo disse...

Pois eu creio que basta um "amar os outros como a ti mesmo" para que todos os mandamentos se cumpram.
O grande problema é que as pessoas não sabem amar-se porque nem sequer se conhecem. Passam uma vida à procura de si mesmos quando lhes basta agir e olhar os resultados. Isso é o que são. Querem ser diferentes? Ajam de modo diferente.
E a maioria necessita e quer que lhes digam o que fazer. Gostam de ser dirigidos, entre outras razões, para não serem responsáveis.
Enfim, isto seria uma longa, longa discussão (troca de ideias).

Cristina Torrão disse...

Sim, as pessoas não se sabem amar. E gostam de ser dirigidas, porque tomar iniciativas dá muito trabalho. Mas, como não se conhecem, negam tudo isso e resistem a ordens. Penso, por isso, que iniciativas destas podem ser úteis.

Talvez um dia tenhamos oportunidade de ter essa tal discussão, quem sabe, João ;) Ainda há dias tornei a ler algumas passagens das "Conversas com a Carolina" e acho mesmo pena que o livro não seja divulgado. Na minha opinião, podia até fazer parte do tal Plano Nacional de Leitura (acho que é assim que se chama, isto de morar no estrangeiro tem destas coisas).

Cristina Torrão disse...

Já agora, acrescento que acho boa ideia sempre que a Igreja se tenta aproximar das pessoas. Mesmo que sejam tentativas falhadas. Também sou de opinião que a instituição Igreja tem muitos (imensos) defeitos e é escusado dizer que cometeu muitos crimes. Mas também tem coisas úteis. E, descendo do seu pedestal, para se aproximar das pessoas, sobressaem as coisas úteis.

Maria João disse...

Podem não considerar importante e provavelmente para o debate não tem importância, mas esqueceram o segundo mandamento que é "não farás imagem de escultura..." e o terceiro que é "não tomarás o nome de Deus em vão" e o dia de guarda Sábado, é o quarto mandamento. E o ultimo aqui apresentado não existe, faz parte do anterior. E estes mandamentos podem dividir-se em duas partes: até ao quarto mandamento: Ama a Deus, a partir do quinto Ama o teu próximo. E se assim fizéssemos éramos muito mais felizes.

Cristina Torrão disse...

Maria João, os Mandamentos não são apresentados pela ordem que está na Bíblia (onde, aliás, existem duas versões, embora as diferenças se limtem ao texto), por isso mesmo, não os numerei. Neste projeto, resumiu-se a mensagem por eles transmitida. Por exemplo, a frase: "Não tenhas outros deuses além de mim", engloba a ideia "não farás imagem de escultura...". E "não faças mau uso do nome do Senhor, teu Deus", expressa "não tomarás (ou "não invocarás", como já vi, noutra versão) o nome de Deus em vão".

Concordo consigo, no essencial. Mas o que se pretende é travar o afastamento das pessoas da Igreja, uma realidade atual, tentando adaptar a sua mensagem às mentalidades. E é conhecido que os jovens são alérgicos a ordens ;)