Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

22 agosto 2014

Da maldade

«A maldade tem que nascer connosco, ser intrínseca aos humanos como o é aos animais selvagens, que a mascaram com instintos. A uns foi-lhes dada a capacidade de a combater, aos (des)humanos estou em crer que não.»


Não concordo de todo com esta afirmação. Na minha opinião, a maldade não nasce connosco. Nascem sim características que, mal entendidas, mal orientadas, desleixadas ou provocadas podem levar a atos de maldade. Essas características são a agressividade, o ciúme, ou a inveja, por exemplo.  Em doses aceitáveis e controláveis, podem ser úteis. Porém, abusadas, transformadas em complexos de inferioridade, podem levar a verdadeiras catástrofes.  As emoções negativas estão sempre ligadas ao sofrimento, os seres mais odiosos são os mais tristes. A tentativa de preencher o buraco dentro deles é que os leva a cometer atrocidades.

A criança que estraga o brinquedo do irmão por maldade não nasceu assim, é já o resultado de uma manipulação (se os pais não conseguirem gerir os ciúmes que sente pelo irmão, por exemplo; são os pais que criam as rivalidades doentias entre irmãos, ao preferirem um em detrimento do outro, mesmo que inconscientemente). A maldade é o resultado de um perigoso cocktail de circunstâncias, abusos e características inatas. Não nasce connosco, é construída e pode ser aperfeiçoada ao cúmulo. Também pode ser aprendida por imitação, convivendo, desde tenra idade, com alguém que a tenha aperfeiçoado.

Por isso, a maldade não nasce igualmente com os animais (selvagens, ou não). O que é válido para nós, também o é para eles: bons exemplos, carinho, apoio e dedicação apaziguam e amansam os animais. Claro que há outros que, pelo seu tamanho e força, são sempre perigosos, pelo que não é aconselhável tentá-los domesticar ou controlar com "falinhas mansas", exceto por quem os entenda e consiga fazer-se entender por eles. Os animais não mascaram a maldade com instintos, porque eles não precisam de mascarar nada. Limitam-se a seguir as regras da natureza, que dita a sua sobrevivência, o que, na nossa escala de valores, pode assumir contornos cruéis. Mas não tem a ver com maldade.

Nós não nos distiguimos entre aqueles a quem foi dada a capacidade de combater a maldade  e aqueles a quem não foi. Esta seria uma explicação demasiado simplista, que convida à acomodação de quem acredita que, para quem nasceu de determinada maneira, nada há a fazer. Se não se criaram condições para que a maldade fosse construída, não há nada a combater; caso contrário, a pessoa tem de ser ensinada a combatê-la. Tarefa nada fácil. Mas não se espere que alguém nasça com essa capacidade.



7 comentários:

Manuel Cardoso disse...

Dizem que não há coincidências. Talvez não haja. Mas então há pensamentos muito convergentes. No mesmo dia em que publicavas este post,eu publicava um outro sobre Steinbeck, onde o assunto fundamental, é precisamente o da eterna luta entre o Bem e o Mal e sobre a natureza desses conceitos.
Cristina, eu acho que se pode nascer Mau ou Bom. Há sempre fatores genéticos. Mas não tenho a mais pequena dúvida que essa parte genética é muito menos importante do que a parte da formação, da educação e da socialização.
Steinbeck(que me deliciou com A Leste do Paraíso e As Vinhas da Ira) foi um enorme estudioso da alma humana e, ao mesmo tempo que declara a sua crença numa espécie de Mal genético, ou qualquer coisa como o pecado original, ao mesmo tempo ele revela uma belíssima crença no ser humano. No meu post citei Lee, o seu personagem chinês que diz o seguinte:
"Fumo os meus dois cachimbos todas as tardes, como fazem os mais velhos, e sinto que sou um homem, e o homem é uma coisa muito importante, talvez mais importante ainda do que uma estrela. Isto não é teologia. Não dobrei a espinha perante os Deuses mas surgiu em mim um novo amor por esse instrumento brilhante que é a alma humana. É uma coisa maravilhosa e única no mundo. Está sempre a ser atacada e nunca é destruída porque TU PODES."

Cristina Torrão disse...

Manuel, fui ler a tua opinião sobre "A Leste do Paraíso". Não tenho a certeza se já li esse livro ou se apenas vi uma série televisiva. De qualquer maneira, já foi há muito tempo, tanto, que já não me lembro bem de nenhum deles. Para ter uma opinião mais formada teria, por isso, de ler o livro.
Continuo no entanto a duvidar que se nasça mau, como a personagem Cathy, de quem falas (a mãe, não é? Tenho uma vaga lembrança). Duvido, mas não excluo que assim seja. A minha opinião está certamente influenciada por livros de psicologia que leio. Mas também é verdade que as teorias pesicológicas mudam ao longo do tempo, não há verdades absolutas. Se assim fosse, os psicólogos poderiam curar qualquer psicopatia. Ou talvez não! É um assunto muito complicado, porque os psicólogos servem apenas de ajuda, ninguém se cura de uma psicopatia ou de uma fobia se se recusar a fazê-lo. Para que a terapia resulte, é preciso muita força de vontade por parte do "paciente". Nesse sentido, as afirmações do criado chinês que citas ganham de facto grande relevo.
De qualquer maneira, continuo mais inclinada para a hipótese de que podemos nascer com mais ou menos agressividade e com mais ou menos tendência para a inveja, o ciúme, ou o rancor. Estas características levadas ao clímax é que podem criar maldades atrozes.
Por exemplo: há tempos, um jovem americano, depois de ter matado a mãe (que, pelos vistos, ainda dormia, ele deu-lhe um tiro, quando ela ainda estava na cama), causou um banho de sangue numa escola. Esse jovem nasceu com essa maldade, ou criou ódios terríveis dentro dele, sendo mal orientado, abusado, descriminado? Eu inclino-me mais para a segunda hipótese. Admito que nem todas as pessoas que tivessem tido as suas vivências chegassem ao ponto que ele chegou. Aí é que entram em cena características inatas. Mas também me pergunto: se ele tivesse crescido num lar em que se sentisse amado e respeitado, chegaria a esse ponto? Embora não conheça o seu passado (só me lembro de ler uma referência vaga ao facto de a mãe muitas vezes o ridicularizar e troçar dele em público), eu digo que não, que haveria uma possibilidade de ele ser diferente. É a minha convicção, mas admito que pudesse mudar, se lesse algo que me convencesse ou me demonstrassem o contrário.

É um assunto muito complicado, mas também fascinante. E o facto de nos ocuparmos dele, de nos interrogarmos sobre a origem da maldade, demonstra preocupação e vontade de nos distanciarmos dela ;) (sem a ignorar)

Cristina Torrão disse...

Agora, lembrei-me de outro caso. Não é que te queira maçar, mas já agora...
Há uns quatro ou cinco anos, um jovem alemão de 17 anos também provocou um banho de sangue num liceu. Pouco sei do seu passado, mas falou-se que ele tinha uma irmã mais nova, muito boa aluna e de quem os pais se orgulhavam muito. O jovem em si sempre teve dificuldades escolares (notas baixas), andava a ser tratado por um psicólogo e foi precisamente no liceu que frequentou (e que não conseguiu acabar) que provocou o banho de sangue. Os pais (pelo menos, o pai) seria muito severo e tinha armas em casa porque pertencia a um clube de tiro. Claro que há muita gente que pergunta: então todos os que estivessem na situação desse jovem também desatavam aos tiros? Claro que não! Somos diferentes, sim. E, por mais difícil que tenha sido a nossa infância e que seja a nossa vida, nunca nos podemos comparar com outra pessoa, porque cada um sente as coisas de maneira diferente. E também não temos maneira de saber se as nossas vivências foram melhores, tão más, ou piores do que as de outro.
Se este jovem tivesse pais que o compreendessem e acarinhassem melhor e não o marginalizassem por ele não ser tão bom aluno como a irmã, eu acredito que ele pudesse ter sido diferente (já não vive, suicidou-se, depois da carnificina que causou).

Manuel Cardoso disse...

Pois é, Cristina, tu que gostas de Psicologia sabes que o ser humano é qualquer coisa de muito complexo. Não há computador nem robot que consiga sequer aproximar-se daquilo que nós somos. É por isso que a Psicologia estará sempre muito longe de ser uma ciência exata... assim
como qualquer ciência humana.
A maldade extrema existe. Mas talvez ela seja o reverso da medalha em relação aos outros extremos, os da beleza, da arte, do amor, enfim, de tanta coisa infinitamente bela que o ser humano é capaz de fazer... as pinturas da Capela Sistina, a loucura de Dali, a poesia de Pessoa, a prosa de Dostoievski, as pedras de Notre Dame, são apenas alguns exemplos da beleza universal. Ou então a bondade extrema, o encanto de um Dalai Lama, de um S. Francisco de Assim, de uma Madre Teresa. Tudo isto é humanidade. Extremos :)

Manuel Cardoso disse...

*Assis, obviamente :)

Cristina Torrão disse...

Palavras bonitas, Manuel, muito obrigada! Eu fui tão analítica e tu foste tão poético :) Às vezes, penso que me falta esse pedaço de poesia, era capaz de me ajudar na escrita ;)
O ser humano é complexo, sim. Essa complexidade fascina-me e, por isso, tento, por todos os meios, explicações para qualquer tipo de comportamento. Mas talvez seja bom que não consigamos explicarmo-nos em toda a nossa totalidade. Tem de haver um pouco de mistério... ;)

Manuel Cardoso disse...

Como já te disse muitas vezes, o maior mérito da tua escrita é ser fotográfica, ou cinematográfica. Por outro lado és analítica quanto baste ao nível da caraterização psicológica das personagens. Logicamente, a poesia da escrita não sai muito privilegiada nesse contexto. Mas eu gosto assim :)