Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

26 fevereiro 2014

Arrependimentos

 Já por várias vezes li que, na iminênica da morte, as pessoas arrependem-se mais por aquilo que não fizeram do que pelo que fizeram. A australiana Bronnie Ware, que trabalhou vários anos como enfermeira em cuidados paliativos, confirma. Foi reunindo as suas experiências num blogue e, devido ao êxito alcançado, acabou por publicar o livro THE TOP FIVE REGRETS OF THE DYING - A Life Transformed by the Dearly Departing. Como o título indica, Bronnie Ware discorre sobre os cinco maiores arrependimentos dos pacientes que acompanhou.

1 - «Desejaria ter tido a coragem de viver a minha própria vida».
A autora chama a atenção para que muita gente passa a maior parte do tempo a fazer certas coisas, apenas por acreditarem que os outros esperam que elas façam.

2 - «Desejaria não ter trabalhado tanto».

3 - «Desejaria ter tido mais vezes a coragem de expressar os meus sentimentos».
Bronnie Ware escreve que, muitas vezes, recalcamos os nossos sentimentos para evitar discussões. Será que sempre se justifica?

4 - «Desejaria ter mantido o contacto com os meus amigos».

5 - «Desejaria ter-me permitido ser mais feliz».
A autora diz que todos nós temos a oportunidade de decidir quão felizes queremos ser, embora refira que as condições nem sempre são as melhores, como é o caso da pobreza, da falta de sucesso, ou mesmo da guerra.

Não há fórmulas de felicidade, mas penso que, de uma maneira geral, as pessoas não deviam ter tanto medo de procurarem satisfazer os seus desejos (desde que não se prejudique intencionalmente ninguém). E, em relação ao medo da morte, talvez ajude a última frase que um velho padre terá dito, ao morrer: «Agora, estou, acima de tudo, curioso»!*

* Lido na KirchenZeitung


25 fevereiro 2014

A família tradicional - teoria e realidade

Uma pequena análise histórica mostra-nos que não há uma forma natural de família. Quem vive com quem e quais os papeis atribuídos aos homens, mulheres, crianças e restantes parentes varia muito, conforme a cultura e a época. Clã, tribo, parentela, família, casa - os conceitos que, ao longo da História, serviram para identificar um sistema de humanos a viver sob o mesmo teto variaram muito.

Entre os Sumérios, Egípcios e outros povos da Antiguidade era comum a existência de várias esposas, do que resultavam grandes "famílias" de meios-irmãos, até existia o casamento entre irmãos. À "família" romana pertencia igualmente a criadagem, semelhante ao conceito medieval de "casa". Aos pais e filhos juntavam-se os avós, tias e tios solteiros, criados e outro pessoal. Muitas vezes, a ligação entre pais e filhos nem era muito forte, principalmente entre os nobres. Estava fora de questão uma fidalga amamentar os seus rebentos e existia o costume de enviar as crianças para uma outra casa, a fim de serem educadas. Normalmente, saíam de casa dos pais pelos sete anos, mas podia também ser mais cedo. Em Portugal, o nobre responsável pela educação de um filho de outro fidalgo era o Aio, assim como D. Egas Moniz foi Aio de D. Afonso Henriques.

O conceito atual de "família" só surgiu na França do século XVIII, desenvolvendo-se, no século XIX, com a Revolução Industrial, a família nuclear, englobando pai, mãe e filhos, mais por motivos económicos.

A análise histórica também nos mostra que nem tudo era melhor antigamente, pelo contrário. Durante esses tempos difíceis do século XIX, negligenciavam-se, muitas vezes, crianças mais pequenas, a fim de diminuir o número de bocas a alimentar, assegurando a sobrevivência do resto da família. E todos sabemos que quase não havia casamentos por amor, mas sim por conveniências sociais, económicas, etc.

Um outro aspeto era a frequente inclusão de filhos ilegítimos na família nuclear, o que, ao contrário do que possa parecer, não favorecia um convívio são dessas crianças com os outros membros da família. Os bastardos eram normalmente vistos como um fardo, discriminados e obrigados a executar trabalhos mais duros. Também morriam muitas mulheres de parto, pelo que os homens tornavam a casar, duas, três ou mais vezes, ou seja, eram frequentes as famílias que hoje apelidamos de patchwork. Os enteados, aliás, à semelhança dos ilegítimos, quase nunca eram bem tratados.

Hoje em dia, todos sabemos que a família passa mais tempo separada do que junta: os pais trabalham, os filhos passam o dia nos colégios, escolas ou infantários. E ainda não há muito tempo se proibiam as crianças de "boa casa" de brincarem com filhos de pais separados.

Por tudo isto, talvez fosse bom que a Igreja Católica se adaptasse aos tempos atuais, aceitando novas formas de família. À convicção do arcebispo alemão Gerhard Ludwig Müller de que não se mexe nos dogmas da Igreja, respondeu o cardeal hondurenho Oscar Rodriguez Maradiaga: «o mundo meu irmão, o mundo não é assim. Devias ser mais flexível, ao ouvir as opiniões dos outros, para que não te limtes a dizer não»*.

A doutrina cristã não devia ser uma teoria abstrata, reduzida a uma ideologia. Devia estar ao serviço das pessoas, cumprindo o seu pressuposto de fortificar a sua fé, em vez de as afastar.

* Declarações lidas na KirchenZeitung



23 fevereiro 2014

História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (9)


A massa popular, ainda que saibamos ter havido uma evolução temporal e espacial, professava uma religiosidade que se exprimia em actos colectivos de devoção, fossem eles mais penitentes e purificadores, ou mais festivos e lúdicos. Religiosidade essa em que os homens, numa íntima comunhão com o cosmos, celebravam festivamente os movimentos cíclicos sazonais e os ritos fecundadores e produtivos da natureza, que se identificavam em pleno e eram até mesmo propiciadores da fertilidade humana. É a festa a reverter em intimidade e privacidade. Como a intimidade e privacidade conduzem à sociabilidade e à festa.

Expressão de uma celebração, de uma comemoração que só ao homem cabe, como senhor da memória, a festa assume-se primariamente, em tempos medievais, como uma festa do religioso e do sagrado.

A festa - a convivialidade, Maria Helena da Cruz Coelho (p. 145)

Comentário:

Aproveito para notar um contraste curioso que se verificava na Idade Média: apesar de haver muita identificação com a natureza, havia um grande distanciamento em relação aos animais. Penso que os homens não se viam propriamente como fazendo parte da natureza. Distanciavam-se dela, a fim de a dominarem, de a usarem para seu próprio benefício, a fim de estabelecerem a sua condição de "ser especial", criado à imagem de Deus. Apesar de se considerar que tudo o que existia fora criado por Deus, distinguia-se entre o natural e o divino.


21 fevereiro 2014

Nem tudo era mau


Com o título DDR - nicht alles war schlecht (RDA - nem tudo era mau), a ZDF transmitiu, a 28 de Janeiro e 4 de Fevereiro, um documentário, dividido em duas partes, sobre a antiga República Democrática Alemã. O jornalista Constantin von Jascheroff, que nasceu na Alemanha de Leste e tinha apenas três anos quando o Muro de Berlim caiu, foi à procura do país dos seus pais. E quis pesar os prós e os contras, ou seja, ser o mais objetivo possível, pôr as pessoas a falar do que também era bom.

A República Democrática Alemã, a nível de regime, era uma espécie de União Soviética em miniatura, seguia à risca os preceitos ditados por Moscovo. E, de facto, nem tudo era mau. Não havia desemprego nem pobreza extrema. Além disso, a emancipação feminina parecia perfeita, já que existiam creches gratuitas em todo o país, que cuidavam das crianças de todas as idades, durante todo o dia. E o regime punha igualmente à disposição dos cidadãos alojamentos em locais de férias praticamente de graça.

O reverso da medalha não é, porém, de desprezar. A falta de iniciativa ou propriedade privada baixava a autoestima, as pessoas sentiam-se desmotivadas, principalmente, os jovens. Além disso, entre as crianças que ficavam aos cuidados das creches, a percentagem das que faziam chichi na cama era enorme, constituía mesmo um problema nacional que, no entanto, era abafado. Pensa-se que seria por elas sentirem a falta da família, a proximidade dos pais.

Mas o que mais me impressionou e que, na minha opinião, nada justifica (nem mesmo a quase total erradicação de desemprego), foi a existência da STASI, a polícia política da RDA. Os relatos dos antigos presos, as torturas, as represálias, as imagens das prisões, etc. transportaram-me para um livro que li há pouco tempo: Os Últimos Presos do Estado Novo. As polícias políticas dos regimes comunistas eram exatamente como a PIDE. E vieram, em 1974, os comunistas portugueses exilados em Moscovo reclamar a liberdade!

Os comunistas que viveram na clandestinidade e foram presos e/ou exilados, durante a ditadura salazarista, (com Álvaro Cunhal à frente) merecem todo o meu respeito. Mas que eles queriam instituir um regime repressivo, com características em tudo semelhantes ao fascismo, lá isso queriam!


19 fevereiro 2014

As crianças e o medo


Conselhos para lidar com o medo das crianças, do psicólogo alemão Ulrich Toberge, diretor do centro de atendimento católico para questões de educação, no bispado de Osnabrück:

Os chamados medos ancestrais - medo do fogo, da dor, da escuridão, ou de ruídos repentinos - são inatos. Constituem uma espécie de sistema de prevenção. Se não os tivéssemos, não reconheceríamos muitos perigos. Sem medos, a humanidade talvez já estivesse extinta.

Uma infância sem medos só é desejável à primeira vista. Os medos típicos desta fase são normais e até importantes para o desenvolvimento. Todas as etapas de crescimento possuem medos próprios e produzem emoções que fortalecem a criança. Quem entra numa nova fase, fica nervoso, pensa que não vai superar os novos desafios que se lhe apresentam. Mas vencer esses desafios dota-nos de coragem e contribui para o nosso amadurecimento psicológico. Por isso, o evitar de medos significa estagnação, virar as costas ao mundo.

Os pais devem levar os medos dos filhos a sério e evitar frases do estilo: «Não tenhas medo disso», ou «Não se deve (ou não é preciso) ter medo disso». Mesmo que nos soe estranho, é aconselhável descer ao nível da criança. Se ela tem medo do crocodilo debaixo da cama, examinar bem o local com uma pilha, em conjunto com ela, e dizer, amigavelmente: «Estás a ver? Não há nada aqui debaixo». E oferecer-lhe ajuda: «Se tornares a ter medo, podes vir ter com a mamã ou o papá». O importante é transmitir segurança, ouvir atento a descrição dos medos da criança e fazer perguntas, até ter a certeza do que a angustia.

Na puberdade, atitudes de insegurança, isolamento e introversão são perfeitamente normais. Os pais não devem logo entrar em pânico, antes tentar permanecer em diálogo com o/a filho/a.

Os pais também podem fomentar medos nas crianças, se eles próprios recearem as novas fases e evitarem as experiências com elas relacionadas. Transmitem, assim, a técnica do evitar, do não enfrentar. Especialmente negativa é uma educação cheia de receios e avisos, em que se descrevem cenários maléficos, do género: «Se não fizeres isto, acontece-te aquilo e aqueloutro». E muito importante: em caso algum usar de violência, ou ser agressivo verbalmente, com berros e/ou ameaças!

É claro que também há perigos reais para as crianças. As que já frequentam a escola devem aprender que é aconselhável seguirem a sua intuição. Se elas se sentem desconfortáveis na companhia de determinado adulto, devem saber que não precisam de ser sempre amigáveis e simpáticas e que podem procurar ajuda ou o conselho de alguém da sua confiança.

Se uma criança se modifica, deixa de rir, de ter vontade de brincar, de visitar amigos ou não quer ir para a escola, os pais devem imperiosamente ouvi-la atentos, se ela resolve contar-lhes os seus problemas. Quem se sente sem capacidade para lidar com certos medos dos filhos, deve procurar ajuda profissional.

Adenda: consegui agora o link que dá acesso ao artigo, que foi publicado na edição em papel da KirchenZeitung de 27.01.2014. Os artigos só ficam disponível online para não-assinantes passado um certo tempo. Para este post, não só fiz a tradução, como um resumo do artigo em questão, publicado originalmente sob a forma de entrevista.


17 fevereiro 2014

Uma ilha no Mar do Norte (2)

Mais algumas fotografias da ilha Föhr:


Casas típicas


 Igreja com cemitério


 Praia no Inverno


Ora deixa-me pôr confortável! A patroa que se ajeite!


Um dos companheiros de viagem no ferry


Tão meiguinho... ;-)


Os carros no ferry




15 fevereiro 2014

Sex sells? Já era!

Num estudo feito pela Universidade de Columbus/Ohio, em conjunto com a Universidade de Pennsylvania e a Universidade de Amesterdão (reproduzido na KirchenZeitung de 12 de Janeiro passado), chega-se à conclusão de que os filmes de violência são os preferidos dos jovens. A fim de se obter sucesso comercial, são introduzidas cada vez mais cenas de violência espetacular nos filmes para maiores de 12 anos. As armas exercem grande atração nos adolescentes, o mero olhar para um revolver provoca uma reação de euforia semelhante ao assistir a uma cena erótica.

Nos Estados Unidos, encara-se a violência nos filmes com menos criticismo do que cenas eróticas ou de sexo. Daniel Romer, um dos responsáveis pelo estudo, diz: «Consideramos o sexo como coisa de adultos. Devíamos igualmente assim considerar cenas de grande violência com armas».


O que é importante

Um tal Dr. Hans-Jürgen Marcus solicita maior aceitação para famílias não convencionais, que devem ser mais valorizadas. Diz ele: «precisamos de mais simpatia em relação a pessoas que, vivam em que relação viverem, assumem a responsabilidade por outrém».

E quem é este Dr. Hans-Jürgen Marcus? Algum político de esquerda? Algum ativista homossexual? Longe disso! É o Diretor da Caritas na diocese alemã de Hildesheim. E o artigo em questão foi lido num jornal católico.

Gostei!

13 fevereiro 2014

Um ato de amor

Ainda me lembro de, na minha juventude, venerarmos os músicos que não vendiam milhões de discos. Melhores ainda eram aqueles recusados pelas grandes chancelas musicais. Considerávamo-los independentes que se recusavam a compor música comercial. Não sei porque é que com os escritores há de ser ao contrário! Na minha opinião, até pode ter mais valor o trabalho de alguém que se dedica a um livro, sabendo que não venderá grande coisa, ou que passará mesmo despercebido, do que o do escritor mediático, com a certeza de que venderá dezenas de milhar de exemplares.

Se uma dona de casa sente uma vontade indomável de pintar, monta um pequeno atelier, frequenta um curso de pintura e mostra as obras espalhadas pelas paredes da casa com orgulho. Elogiam-lhe a veia artística e a habilidade, mesmo sabendo que os seus quadros nunca competirão com os melhores e que ela não consiga arranjar patrocínios para fazer exposições. Se uma dona de casa sente uma vontade indomável de escrever, frequenta um curso de escrita criativa, mete mãos à obra, é recusada por várias editoras, resolve-se pela edição de autor e a apresenta orgulhosa, é dona de um ego descomunal e arma-se em escritora!

Surpreende-me a facilidade com que se desdenha de autores desconhecidos, ou de candidatos a autores que não encontram editora por suposta falta de talento, quando todos sabemos que uma cunha, por mais pequena que seja, pode fazer milagres, no nosso país. Desrespeita-se trabalho e dedicação, sem sequer ter conhecimento de causa. Pergunto-me qual será o motivo de tanta arrogância e desprezo.

Há cerca de mês e meio que não leio nada de novo, até interrompi a leitura de um livro de Alice Munro, que já elegi como uma das escritoras da minha vida. Mal vejo televisão e ligo-me pouco à internet. E tudo isto, porquê? Porque estou a rever o meu novo romance, a ser editado em junho por uma editora que está a dar os seus primeiros passos e mesmo tendo a (quase) certeza de que ganharei com ele menos de 700 euros num ano (isto, depois de ter passado, em 2012, quase meio ano a escrevê-lo). Necessidade de reconhecimento? Vaidade na obra impressa? Esperança de que as vendas corram um pouco melhor? Não o nego! Mas uma coisa vos garanto: trata-se, acima de tudo, de um ato de amor!



O romance é sobre uma jovem, no século XII português, que nos permite um olhar na vida das pessoas comuns daquela época.


12 fevereiro 2014

Coisas da blogosfera

O 2711 foi dos primeiros blogues onde comentei, quando comecei nestas lides, há cerca de quatro anos. Mal adivinhava eu que o seu criador, Daniel Santos, me convidaria para escrever um post, no 2º aniversário do blogue, e mais estupefacta fiquei, quando, algum tempo depois, me incluiu na sua simpática equipa.

Mas, por algum motivo (seja o Facebook, seja a falta de participação de alguns autores, seja o esvaziamento de um projeto, seja o que for), o 2711 começou a perder leitores. E é penoso tentar manter um blogue, ao mesmo tempo que vemos as estatísticas a descer. O 2711 acabou suspenso. Talvez volte um dia, talvez não.

O Daniel Santos tem agora um projeto a solo. E ainda bem! Os seus curtos textos marcam pela acutilância e a fina ironia. Vale a pena ir ao Alqueivar!


11 fevereiro 2014

Essa coisa da escrita


Leio, no blogue da Ler, que um inquérito da Digital Book World revelou que mais de metade dos escritores editados no Reino Unido recebe menos de 700 euros por ano.

Bruno Vieira Amaral, no texto publicado no blogue, pergunta o que motiva esses escritores. Será o sonho de um dia chegarem ao patamar absurdo de rendimentos dos escritores mais populares? A glória social de se apresentarem como escritores? A vaidade da obra impressa mostrada a familiares e amigos?

Todas estas razões terão o seu fundamento e são legítimas.  Mas eu acrescentaria mais uma: para a esmagadora maioria, é difícil, senão impossível, viver sem escrever (independentemente da qualidade). Também é óbvio que nenhum desses escritores se pode sustentar com tais ganhos, o que quer dizer que terão outra fonte de rendimentos, normalmente, um emprego. Sendo assim, porque não hão de procurar a publicação dos seus textos, em vez de os guardarem numa gaveta?

Concordo, por isso, com o diretor editorial da empresa que realizou o inquérito, quando diz que essas pessoas «querem partilhar alguma coisa com o mundo ou obter alguma espécie de reconhecimento». Afirmações destas costumam ser vistas com ironia, ou desprezo, o que supera o meu entendimento. Qualquer um de nós tem uma necessidade imperativa de partilha e de obtenção de reconhecimento. Quem o negue, está a mentir! Porque haviam os escritores de ser diferentes?

Bruno Vieira Amaral duvida, e muito bem, que o mundo ganhe alguma coisa com isso. Já não concordo que ele defina «isso» como «generosidade e sacrifício». Escrever é um prazer. E a publicação em troca de uns míseros tostões não tem, como vimos, nada a ver com generosidade (e ele estava a ser irónico, mas pronto, eu quis partilhar isto com a blogosfera).

10 fevereiro 2014

História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (8)


De acordo com o sistema linhagístico puro, digamos assim, as vias que se abriam a um secundogénito excluído da herança familiar passariam pelo serviço ao irmão mais velho ou a um senhor mais poderoso, por uma carreira no clero secular ou pelo afastamento do claustro monástico, ou até pelo ingresso numa ordem militar, ou pura e simplesmente por uma vida de aventuras apostada na sorte das armas ou no favor de uma herdeira. Quanto às senhoras, as soluções eram menos variadas, destinando-se para a maior parte o celibato monástico, enquanto algumas outras - poucas delas, como é óbvio, tendo em conta a perda patrimonial que o dote implicava - poderiam contribuir para os interesses estratégicos da linhagem através das alianças matrimoniais.

Em Portugal, porém, e como já se percebeu, a imagem ideal deste modelo teórico foi vivida com outros contornos. Na verdade, a documentação do século XIII e ainda da primeira metade da centúria seguinte, sobretudo através dos testamentos e das cartas de partilhas, revela uma prática continuada da divisão da herança por todos os irmãos.
(...)
Na impossibilidade de recorrer às velhas práticas endogâmicas, e para além, depois das partilhas, de trocas ou compra de bens efectuadas entre os vários herdeiros (o que permitia a reconstituição, pelo menos parcialmente, dos bens familiares), deve-se sobretudo sublinhar o elevado índice de celibato, especialmente feminino.

Na verdade, a única forma de impedir que os bens distribuídos pelas senhoras fossem enriquecer o património da linhagem dos respectivos cônjuges, era impedir o seu matrimónio.

A família - estruturas de parentesco e casamento, Bernardo Vasconcelos e Sousa, José Augusto de Sotto Mayor Pizarro (pp. 138/139)


07 fevereiro 2014

Uma ilha no Mar do Norte

E tenho-me esquecido de publicar fotografias da minha estadia na ilha Föhr. E algumas são bem interessantes. Ora vejam:


Numa ilha do Mar do Norte, à altura da fronteira entre a Alemanha e a Dinamarca, dou com uma «sapataria», assim mesmo, em português!!! Fica por saber se pertence a um/a compatriota ou a alguém que esteve em Portugal e achou piada à palavra (desculpem a qualidade da foto, cheia de reflexos no vidro da montra).


Representação de um marinheiro do Mar do Norte. Sei que parece o capitão Haddock, mas eles vestem-se mesmo assim.


Tradução: «Nós também gostamos de ir à praia». A seta indica a praia em que são admitidos cães. E eles nem se importam com o frio, o que querem é correr e pular ;-)

 

- Então, onde é o tal restaurante?


A cheirar um sabonete feito a partir de leite de cabra.




05 fevereiro 2014

Silêncio e Paz


Nota: neste texto, uso o conceito de «paz» como antónimo de «ruído», não propriamente de «guerra».

O monge beneditino e líder espiritual Anselm Grün distingue entre «silêncio» e «paz» (uso esta tradução para distinguir os termos alemães Stille e Schweigen, embora se possam usar outras versões). O silêncio é algo que já existe, independentemente do que possamos fazer. Na natureza existe silêncio e também se pode entrar num edifício onde impere o silêncio. Mas esse silêncio só persiste se nos abstivermos de falar, ou seja, implica iniciativa própria. Assim funciona a paz, é necessário construí-la, temos de nos tornar ativos.

Anselm Grün parte do princípio de que só nos podemos libertar daquilo cuja existência admitimos. Daí, não ser saudável fazer de conta que o negativo na nossa vida não existe. Peguemos, como exemplo, numa emoção considerada altamente destrutiva: a inveja. Se eu me quiser libertar dela, tenho, primeiro, de admitir que sou invejoso. Só depois de me aceitar como sou, conseguirei a energia necessária para me distanciar desse pensamento. Para isso, não é imprescindível meditar no silêncio (embora ajude). Há outras estratégias, como fazer jogging concentrado nessa emoção destrutiva e, através do cansaço físico, libertar-se dela.

Admitir emoções destrutivas exige, porém, grande coragem. Por isso, há pessoas que receiam o silêncio, algumas entram mesmo em pânico. Anselm Grün diz que, no fundo, têm medo de descobrir que nunca viveram. E, no entanto, não há nada que mais desejem do que encontrar paz. Andam esgotadas, gastam toda a sua energia a recalcar tudo o que consideram destrutivo.

Segundo o beneditino, a paz interior é apreciar o facto de não ser obrigado a dizer nada. Silêncio e paz significam permitir-se apenas ser, existir.


03 fevereiro 2014

Silêncio



Neste nosso mundo apressado e barulhento, há muita gente à procura de silêncio. Na Alemanha, pode-se quase dizer que está na moda passar férias num convento (sim, também os há por aqui). Desligam-se os telemóveis, ipads, internet e passa-se o tempo a meditar e a passear pela natureza.

Mas basta isso para conseguirmos paz? E será a melhor estratégia esquecer os problemas, fazer de conta que eles não existem?

Muita gente segue uma linha estoica, a fim de criar uma espécie de resistência às dificuldades da vida, ignorando as emoções destrutivas. Wilhelm Vossenkuhl, um prestigiado professor de filosofia em Munique, com vários livros publicados, não vê vantagens nesta «estratégia da negação», como lhe chama, porque a pessoa gasta todo o seu tempo e a sua energia a recalcar o negativo. Cícero, por exemplo, terá tentado superar o desgosto pela morte da filha, alegando que o desagradável não é a morte em si, mas o pensar nela. Não pensando, ficamos imunes!

Anselm Grün, um monge beneditino, autor de vários livros sobre espiritualidade, acompanha pessoas que vão para o seu convento à procura de paz e, à semelhança de Wilhelm Vossenkuhl, não concorda com o estoicismo. Segundo ele, a alma só encontra o seu equilíbrio se admitir o negativo, pois só nos podemos libertar de algo que admitimos.

Para Anselm Grün, os conceitos de silêncio e sossego estão para além da mera ausência de ruídos, já que o mais importante é apaziguar o nosso interior. A uma senhora que lhe disse: «eu não posso ir para o meio do silêncio, sempre que o faço, sinto um vulcão a crescer dentro de mim», o beneditino respondeu: «deve gastar muita energia da sua vida a domar esse vulcão».

Sobre este tema e Anselm Grün continuarei no próximo post.


01 fevereiro 2014

História da Vida Privada em Portugal - A Idade Média (7)


Do forte impulso dado à Reconquista por Afonso III de Leão (866-910), levando decididamente a linha de fronteira para o vale do Douro, ou mesmo para o do Mondego na sua extrema sudoeste - aproveitando a profunda crise interna por que passou o emirato cordovês ao longo da segunda metade do século IX -, resultou a criação dos condados de Portugal (868) e de Coimbra (878). Os seus respectivos presores, Vímara Peres e Hermenegildo Guterres, foram os fundadores das duas principais famílias em torno das quais se alicerçou a chamada Nobreza Condal,  que em grande medida liderou até ao final do século XI os destinos políticos do território que mais tarde seria Portugal.

Para além das funções políticas e judiciais/administrativas que exercia por delegação dos reis leoneses, esta nobreza condal definia-se também através de uma série de características claramente reveladoras da sua estruturação cognática. Desde logo, na forma da transmissão do título condal, isto é, da chefia da família, que tanto podia ser feita por via masculina como por via feminina.

Mas é ao nível do regime matrimonial e da transmissão do património que aquelas características mais se evidenciam. Quanto ao primeiro, já devidamente valorizado no ponto anterior, não se pode deixar de acentuar o alto nível de endogamia que o caracterizava. Na verdade, o casamento entre parentes com um grau de consanguinidade muito próximo - primos coirmãos ou tios/sobrinhos - era bastante frequente.

A família - estruturas de parentesco e casamento (pp. 134/135), Bernardo Vasconcelos e Sousa e José Augusto de Sotto Mayor Pizarro