Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

30 junho 2014

A Citação da Semana (15)

No silêncio, a alma encontra o seu caminho de luz e todos os enganos e mentiras se diluem em claridade cristalina. A alma precisa de paz, a fim de alcançar a sua grandeza.

Mahatma Gandhi


28 junho 2014

Excertos # 9



O povo ali aguardou que terminasse a missa, nem quando começou a chover arredou pé, pois não se queria perder a oportunidade de, mais uma vez, pousar os olhos na noiva d’el-rei.
À saída, porém, a cena repetiu-se, a donzela saboiana permaneceu abrigada no seu manto, até porque a chuva miudinha persistia. Havia agora ainda mais gente do que antes da cerimónia religiosa e o grupo de Jacinta foi empurrado para um local tão perto do cortejo nobre, que ela se viu obrigada a desviar-se para não ser atropelada pelo cavalo de um dos acompanhantes de D. Mafalda. Por um momento, almejou vislumbrar a face que o capucho escondia e sentiu como se aquele pedaço de pele pálida lhe houvesse revelado os sentimentos da sua dona. Não parecia ser muito mais feliz do que ela própria, limitada a criada de soldadeiras. D. Mafalda, noiva de um rei, a donzela mais nobre que alguma vez vira, não tinha, tal como ela, direito a escolher o próprio destino. Quem sabe de que sonhos e paixões ela se vira obrigada a desistir...




24 junho 2014

Regresso

As férias em Portugal estão a chegar ao fim, na quinta-feira iniciamos a viagem de regresso à Alemanha. Mas nem sei bem se foram férias, houve tanto movimento! Bem, se considerar que "corri por gosto", posso chamar-lhes férias, pois desdobrei-me em apresentações do meu novo livro - experiência nova, não tinha havido lançamentos nem  apresentações dos anteriores. Além disso, comprámos um apartamento em Macedo de Cavaleiros, local em que são mais baratinhos (e onde moram os meus pais). Planeamos passar mais tempo em Portugal. Para isso, o meu marido reduziu o tempo de trabalho, reduzindo igualmente o ordenado, voluntariamente, o que é bem diferente da situação em Portugal. De qualquer maneira, não deixa de ser uma decisão corajosa e ainda estamos para ver se foi boa...

Espero poder aumentar a atividade aqui no blogue, depois do regresso. Há muito tempo que não publico uma opinião literária e há um livro que está à espera há semanas: A Noite das Mulheres Cantoras, de Lídia Jorge. Entretanto, estou a ler, pela primeira vez, A Ilustre Casa de Ramires, que se tem revelado uma surpresa. A seu tempo explicarei porquê.

Enfim, espero que o Andanças torne a ser, na próxima semana, um blogue mais pessoal, pois tem vivido de posts programados, com muitos excertos de "Os Segredos de Jacinta". O que aliás também convém, nesta altura...



Excertos # 8



Desfeita a porta, três homens entraram no abrigo. Um deles segurava um archote e, depois de olharem em volta, soltaram dois sabujos que não tiveram dificuldade em dar com o esconderijo dela. Com o manto pela cabeça, Jacinta protegia-se o melhor que podia dos animais acirrados. Um fixou-se no seu antebraço, o outro na canela. Sentiu-lhes as dentuças na carne.

Julgou que a deixariam morrer, desfeita pelos cães, quando dois dos homens vieram, enfim, segurar os animais. O terceiro acercou-se dela e, por mais que Jacinta tentasse resistir-lhe, ele conseguiu descobrir-lhe a cabeça. Agarrou-a pelos cabelos e vociferou:

- Some-te, rameira, que andas a ensombrar a vida da minha filha!


Por entre as lágrimas de dor, raiva e vergonha, Jacinta viu os olhos furiosos de D. Martim de Gração. Balbuciou:
- Irei… Mal o sol nasça… Juro-vos…
- Vais-te pôr a andar mas é já, zoupeira! Os lobos que te comam!