Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

06 fevereiro 2015

Criminosos sem arrependimento


O comportamento criminoso é inato, ou aprende-se? Pode qualquer pessoa transformar-se num assassino? Pode-se ver o “Mal” numa tomografia do crânio de um criminoso? Foi a perguntas como estas que um documentário do canal alemão 3Sat tentou responder, no passado dia 29 de janeiro.

O neurobiólogo Gerhard Roth, do Instituto de Pesquisa do Cérebro de Bremen, compara tomografias dos crânios de assassinos com o de pessoas “normais”. No cérebro em si, ele não constata qualquer diferença. Porém, se são apresentadas aos examinandos imagens de pessoas a serem atacadas ou molestadas, constata-se que, no caso dos criminosos, praticamente não se regista atividade na parte cerebral responsável pela empatia, pela piedade ou pela dor; nos cidadãos comuns, essas partes revelam-se então muito ativas. Gerhard Roth afirma convictamente que vivências terríveis, na infância, são responsáveis pelo comportamento criminoso, já que existem duas maneiras humanas de reagir: ou se fica extremamente sensível a determinadas violências, ou se “desliga” pura e simplesmente a região do cérebro responsável por certos sentimentos.

O neuropsicólogo Thomas Elbert, da Universidade de Constança, envereda por um caminho semelhante, ao dizer que qualquer pessoa pode aprender a ser um assassino. Há vários anos que ele trabalha, no Congo Leste, com jovens que foram crianças-soldados, recolhidos em centros onde se tenta a sua recuperação. Esses jovens não só assistiram a atrocidades, também as cometeram, em idades ainda muito tenras. Confessam o prazer que sentiram, a vontade de fazer mais e mais. Não são jovens particularmente escolhidos pelos seus maus instintos, qualquer um pode ser transformado numa máquina assassina.

Uma outra psicóloga, cujo trabalho é traçar o retrato psicológico de presos por violação, com ou sem assassínio, a fim de decidir sobre a sua capacidade de culpa, lembra que, quando falamos de criminosos desse tipo, os distanciamos de nós, como se eles fossem aliens. Não são aliens, diz ela, são seres humanos, como qualquer um de nós. E é isso que assusta, digo eu.

A psicologia é uma ciência recente, com pouco mais de cem anos de existência. As dúvidas ainda são muitas. Porém, à medida que se avança, os especialistas parecem inclinar-se cada vez mais para a hipótese de o comportamento criminoso ser «aprendido», com ou sem intenção. No caso das crianças-soldados, é adquirido através de lavagens ao cérebro. Na nossa sociedade, ele parece ter a ver com vivências da infância, sofrimentos insuportáveis, que nem sempre são resultado de violência física, ou traumas identificáveis. Também se pode exercer muita crueldade a uma criança, desleixando-a, humilhando-a, depreciando-a ou subjugando-a para lá de todos os limites. O favorecimento exagerado de um irmão em relação a outro é também uma fonte de ódios e pode ter consequências trágicas. Que ninguém se iluda: atos desses nunca ficam sem consequências!

Isto não é desculpa, não pode servir de desculpa, para comportamentos inadmissíveis! A meu ver, porém, é motivo de esperança, na medida em que será realmente evitável que alguém se transforme num assassino sem piedade. Tenhamos fé na consciencialização de adultos com crianças a seu cargo!


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