Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

28 abril 2015

Os Segredos de Jacinta - Excertos (20)



A 16 de junho, a multidão que se espalhara pelos montes e colinas sobranceiros ao Douro, assim como os habitantes do Porto e de Gaia, testemunharam a chegada das embarcações. As que transportavam os comandantes e os clérigos atracaram no cais da Ribeira, enquanto as restantes se iam acomodando lado a lado, entre uma e outra margem. Outras ainda tiveram de lançar âncora nos areais junto à foz.

Nunca se vira tão grande armada e crescia o entusiasmo em relação ao cerco. Tomava proporções de campanha sagrada, garantindo a salvação a todos que nela participassem. Pois se Deus decidira enviar tantos cruzados a el-rei D. Afonso!

Do Sul, veio Soeiro Viegas, um outro filho do falecido Egas Moniz, com uma carta d’el-rei para o bispo, informando que o monarca já se encontrava na região de Lisboa, conquistando fortalezas e atalaias, a fim de isolar a cidade, preparando o caminho para a chegada das tropas cristãs.

Também do Norte chegavam barões. O irmão de Bernardo surgiu com muitos senhores de Entre Cávado e Minho. O Sousão e Mem Pais Bofinho haviam convencido os Braganções e, no seu caminho, reuniram-se-lhes nobres de Baião, Benviver e Penafiel de Canas, ou seja, das terras entre Constantim de Panóias e o Porto, que incluíam o vale do Tâmega.

Os Braganções eram a prova de que os barões mais renitentes haviam sido convencidos. Ninguém escapava à febre do cerco, sentiam-se um povo eleito, testemunhas de uma nova era, a maioria nem considerava que faltava convencer os cruzados a auxiliar el-rei. Disso dava conta a carta enviada por D. Afonso a Pedro de Pitões, que pregou aos estrangeiros no Largo da Sé, tendo a secundá-lo João Peculiar, arcebispo de Braga, surgido entretanto com os recém-eleitos bispos de Lamego e Viseu.

Jacinta não se deixava contagiar pela febre do cerco e volvera ao seu mester de curandeira, tratando de um rapazito atacado por sezões, o membro mais novo de uma família da Terra de Refojos, composta pelos pais e mais três filhas. Não possuíam terra própria, eram trabalhadores sazonais que alugavam casais aos fidalgos. Fartos da miséria, iam em busca de melhor fortuna, crendo que el-rei os recompensaria a todos, havendo mister de cristãos para povoar as terras que tomaria aos pagãos. Tomavam D. Afonso por santo, pois se até Cristo lhe surgira, antes da batalha de Ourique!


3 comentários:

Cláudia da Silva Tomazi disse...

Este longo apontamento a história portuguesa identifica o gosto a simplicidade o direccionar intenso e o significado positivo a unidade em defesa o reino enquanto bem maior.

Cristina Torrão disse...

Muito obrigada, Cláudia :-)

Olinda Melo disse...


Uma passagem que nos dá uma excelente ideia da mentalidade da época.

Bj

Olinda