Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

23 julho 2015

A filha de Jairo


Todos já ouvimos a história de como Jesus fez ressuscitar uma menina de doze anos. Era filha de Jairo, o chefe de uma sinagoga. Jairo foi ter com Jesus, muito aflito:

«A minha filha está morrer. Vem e põe as mãos sobre ela para que fique curada e possa viver».
Mc 5, 23

Quando chegaram a casa de Jairo, deram com toda a gente a lamentar e a chorar, pois a menina já teria morrido. Mas Jesus disse:

«Que agitação e gritaria é esta? A menina não está morta, está a dormir».
Mc 5, 39

Depois:

«Pegou-lhe na mão e disse: «Talita kum», que quer dizer: «Levanta-te menina! Sou eu que te digo!» E a menina, que tinha doze anos, levantou-se imediatamente e começou a andar. Todos ficaram muito impressionados. Então Jesus ordenou-lhes que não contassem nada a ninguém e disse-lhes para darem de comer à menina».
Mc 5, 41-43

Deparei com este episódio ao ler o jornal católico do bispado de Hildesheim, que recebo regularmente. E pus-me a meditar em certos pormenores. Em primeiro lugar, não se menciona, uma única vez, o nome da menina. Ela é sempre «a filha de Jairo». Naquele tempo, as meninas e as mulheres eram muito subjugadas, à semelhança do que ainda hoje acontece em certos estados islâmicos (recordemos o apedrejar da adúltera). Sentir-se-ia esta menina tão oprimida, tão perturbada psicologicamente, que tivesse desistido de viver? Teria perdido a força, a motivação, quiçá, deixado de comer? A anorexia não terá surgido apenas no nosso tempo... Recusaria ela a comida, emagrecendo quase até à morte, sem ninguém perceber porquê? Foi quando a última frase desta história me saltou aos olhos: «Jesus disse-lhes para darem de comer à menina»!

Tudo parecia encaixar. O facto de Jesus lhe ter segurado na mão e se ter dirigido a ela, só a ela, podia ter-lhe transmitido a confiança necessária para que ela saísse da letargia em que se encontrava, recuperando a vontade de viver. Todos nós sabemos que Jesus devia transmitir uma confiança e uma segurança incríveis. E o tocar numa mão com carinho, a quem não está habituado, o considerar pobres diabos como pessoas de plenos direitos… Tudo coisas que podem, de facto, operar milagres.

Depois destas cogitações, tornei a pousar os olhos no jornal. Normalmente, a seguir a uma passagem do Evangelho, há um comentário de uma/a colaborador/a, normalmente, sugerindo o que podemos aproveitar do episódio para a nossa vida.

Mal pude acreditar no que lia! Emocionei-me. Não será por acaso que, desta vez, o comentário foi escrito por uma mulher. E não resisto a traduzir as impressionantes palavras da jornalista Andrea Schwarz:

Eu sou a filha de Jairo. Não tenho nome, sou um nada, não sou ninguém, sou apenas a filha de…
Assim, não posso ser uma pessoa, não me posso tornar mulher. Assim, não posso crescer, evoluir, seguir o meu caminho. Enquanto o meu pai me mantiver, sou apenas filha – e não posso tornar-me mulher. O amor do meu pai mantém-me presa, de mãos atadas.

Lutei muito – e perdi. Agora, desisto.

Se não posso tornar-me mulher, também não quero continuar a ser filha. A minha energia esvai-se, recolhe-se. E morro todos os dias um bocadinho – porque não me deixam viver.

Mas, no fundo do meu ser, a vida ainda espera. Espera que chegue alguém que me toque e reconheça o que tenho dentro de mim. Espero por alguém que me chame. E, um dia, esse alguém chegará… Sei-o.

Até lá, escondo-me. À minha volta, cresce uma sebe de espinhos, que me protege. Para os outros, estou morta. Mas apenas durmo.

Quando ele chegou, pôs a mão dele sobre a minha. Olhou-me – e viu-me! Ele viu quem se quer tornar mulher. E disse: «menina», não «filha de…». Ele referiu-se a mim.

E disse: «Levanta-te!» - Segue o teu caminho, como pessoa, como mulher!

Encarada, tocada, reconhecida, amada, salva, liberta.

Foi quando os espinhos se transformaram em rosas.

E eu levantei-me e fiz-me ao caminho – e pude viver, finalmente viver.



Edição da KirchenZeitung nº 26, de 28-06-2015


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