Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

14 julho 2015

«Um filho falso é melhor do que uma filha»



A expressão é afegã. E a palavra “falso” não tem a ver com ser mentiroso, ou traidor. Os filhos falsos são… filhas!

No Afeganistão, pode-se transformar temporariamente uma filha num filho! Cortam-lhe o cabelo, vestem-lhe roupa de rapaz, arranjam-lhe um nome masculino e ela (ele) pode brincar à vontade na rua, com os outros rapazes. A transformação dura até à puberdade, quando se torna mais difícil fingir que uma menina é um rapaz. Então, o filho falso torna a ser filha, vê-se proibida de coisas que, até então, estava habituada a fazer e os pais tratam de a casar. 

A sociedade coopera e até aprova. Os pais obtêm mais aceitação social, pois casal que só tem filhas não é bem visto. Uma mulher que não dá rapazes à luz é objeto de piedade e dá uma má imagem da família, porque existe a crença que uma mãe não tem filhos rapazes por ser fraca de carácter, por não o desejar com força suficiente, enquanto está grávida. 

Tudo isto vem explanado no livro As Meninas Proibidas de Cabul, da jornalista sueca Jenny Nordberg. Estas meninas são conhecidas por bacha posh, que literalmente significa “vestida como um rapaz”.


Os pais não o fazem, porém, apenas por prestígio social. Jenny Nordberg relata o caso de uma menina de dez anos que, de manhã, vai à escola, de lenço na cabeça e saia, e, de tarde, se transforma numa bacha posh para trabalhar numa loja. Como rapariga, não tinha hipóteses e o seu salário de 1,30 dólares por dia serve para alimentar a mãe e oito irmãs.

Também nem todas as meninas deixam de ser rapazes na puberdade, como o caso de uma jovem que, por decisão dos pais, foi transformada num rapaz assim que nasceu. Só com dezanove anos, altura em que a quiseram casar, ela assumiu a sua verdadeira identidade. Até aí, andava com os outros rapazes na rua, de jeans e casaco de couro, com uma faca no bolso, participava em brigas e até lançava piropos às moças. Depois, começou o seu tempo penoso, quando teve de aprender a andar e a falar como uma mulher, tentando adaptar-se a outra vida. Nunca o conseguiu totalmente, sente-se uma deslocada, isola-se. 

Além dos estragos que situações destas possam provocar na psique das moças, impressiona-me esta sociedade do faz-de-conta. Como se tudo não passasse de uma brincadeira… Mas uma brincadeira cruel, a prova viva de que as mulheres não são seres humanos de plenos direitos.

Nota: escrevi este texto baseada numa reportagem da KirchenZeitung.


2 comentários:

Anónimo disse...

Gostei muito de ler o teu texto Cristina. Fiquei também com vontade de ler o livro.

Dentro da mesma linha, aconselho-te a leitura de "Baguettes chinoises" do escritor chinês Xinran. Eu li a tradução francesa da obra, mas o livro deve ter sido traduzido para outras línguas.

Um beijinho,

Isabel

Cristina Torrão disse...

Muito obrigada, Isabel, pelo teu comentário e a tua sugestão :)

Beijinho