Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

06 agosto 2015

A Lenda Desconhecida de Francisco Caga-Tacos




Um miúdo misterioso e solitário, do qual se desconhece o pai, nem a própria mãe faz ideia de quem seja; um músico que deixou de tocar o seu violino, por um acidente lhe ter levado o amor da sua vida; um vendedor de imóveis que olha apenas para os próprios sapatos; um agente da autoridade cooperador com os arranjinhos e a corrupção local; uma aldeia que é o microcosmos do nosso país. São estes os pontos de partida que João J. A. Madeira escolheu para desenvolver o seu romance melancólico, trágico mesmo.

As pessoas são desconfiadas, por natureza, receiam o desconhecido, em suma, tudo o que lhes parece estranho, não hesitando em inventar explicações abusivas para certos fenómenos, que se transformam em verdades absolutas e que podem pôr existências em perigo. A aldeia que serve de palco a este enredo encerra em si mesma a miséria e a falta de perspetivas causadas pela crise atual, mas também os vícios da sociedade portuguesa, na sua mesquinhez, na sua aptidão para a solução fácil, o jogo de interesses e o pequeno delito, ao qual todos fecham os olhos, porque, enfim, temos de nos ajudar uns aos outros. E muitas pessoas, não obstante o seu bom coração, escondem algo no seu íntimo, pelo qual se envergonham, incapazes de o confessar. Algumas adotam comportamentos excêntricos, que nem elas próprias sabem explicar. E o único remédio parece ser a morte, que tudo acaba e tudo resolve…

Será?

«Estranhamente não leva os olhos ao céu que vislumbra através da abertura da porta. Lá não acontece nada. É ali, em baixo, na terra que ela pisa e que se gruda a uma bola redonda que os mistérios acontecem. Mas, resolvidos uns, outros acontecerão. Até quando?». (p. 301)

No meio da melancolia e da tragédia, há sempre uma réstia de esperança. Porque, afinal, o amor é sempre possível, mesmo para quem já desistiu dele (ou pensa ter desistido). E assim se cria um pequeno foco de felicidade, num romance sem final feliz.

 Mais um livro de João J. A. Madeira que vale a pena ler!
(Já aqui tinha falado de O Rio que corre na Calçada)


3 comentários:

Iceman disse...

Interessante!
Recordo-me da minha mãe falar nesse "Caga Tacos".
:)
Beijinho!

Bartolomeu disse...

Vale a pena ler sim senhora! Uma história simples, bem contada, bem escrita e que prende a atenção até ao revelante final.

Cristina Torrão disse...

Olha, Iceman, por acaso, eu não conhecia a expressão. Ao ler este livro, aprendi que é uma alcunha utilizada em certas regiões do país.
Beijinho :)