Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

04 agosto 2015

Judas – traidor, ou um simples peão nos planos de Deus?



Judas, por Carl Heinrich Bloch


No seu livro Judas, Amos Oz dá uma nova explicação para o comportamento do apóstolo, através do estudante Schmuel Asch, a personagem principal (link em alemão). Schmuel Asch possui a firme convicção de que Judas tanto amou e acreditou em Jesus, que estava à espera que ele descesse da cruz, provando que, de facto, era Deus. Ao constatar que tal não aconteceu, enforcou-se.

É curioso constatar que em Bad Gandersheim, uma pequena cidade alemã, se pode assistir a uma peça de teatro, da autora holandesa Lot Vekemans, igualmente sobre a interpretação do comportamento de Judas. A peça, que dura hora e meia, consiste num monólogo do próprio Judas. Numa entrevista à KirchenZeitung, Christian Schramm, um estudioso da Bíblia, fala dela.

O teólogo chama a atenção para o facto de que, na Bíblia, há muito poucas informações sobre Judas e rigorosamente nenhuma sobre os motivos que o teriam levado a entregar Jesus. E, na verdade, a entrega foi crucial para que os planos de Deus, anunciados pelo próprio filho, se concretizassem, ou seja, se Judas não o tivesse traído, ele não teria morrido na cruz, salvando a humanidade.

Christian Schramm evidencia a contradição existente na Bíblia: o próprio Cristo anuncia que tem de cumprir o caminho que lhe foi destinado, mas, ao mesmo tempo, condena-se quem o entrega. Talvez por isso, na peça, Judas pergunte aos espetadores: não estão contentes por eu ter feito o que fiz?

Um outro aspeto focado na peça é o político: Judas terá ficado profundamente desiludido, ao constatar que o Messias, afinal, não pretendia resistir aos opressores romanos. A Bíblia não menciona este aspeto, mas Judas parece ter pertencido ao grupo daqueles que estariam dispostos a lutar contra as forças ocupantes. Christian Schramm põe mesmo a hipótese de se terem juntado vários desses apoiantes, muitos deles, armados. Judas terá insistido com o Messias para que agisse. A desilusão teria provocado a traição.

O monólogo de Judas não representa uma defesa dos seus atos, é mais uma tentativa de explicação, porque, afinal, no Evangelho, não temos a sua perspetiva. O seu comportamento é-nos apresentado e comentado por terceiros.


Nota: não sei se o livro de Amos Oz já existe em Portugal. Pesquisando na internet, só encontrei, na Amazon, uma versão «em português do Brasil».

 

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