Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

02 setembro 2015

O Rei do Monte Brasil




Através do régulo Gungunhana, detentor do vastíssimo império de Gaza, no atual território de Moçambique, entramos em contacto com a cultura africana que resistia à colonização, uma cultura que se nos afigura cruel e sanguinária. Porém, o domínio branco esteve longe de apaziguar tais costumes, ou de dar um exemplo de civilidade, pois também ele se revelou na violência gratuita, com doses insuportáveis de arrogância, gerando a colossal revolta que se conhece.

O romance de Ana Cristina Silva dá-nos a perspetiva africana, pela voz de Gungunhana, mas também da portuguesa colonizadora, através do oficial de cavalaria Mouzinho de Albuquerque, o captor do régulo. Gungunhana acaba por ser trazido para Lisboa como um troféu. Ele, sete das suas mulheres e mais alguns parentes, incluindo um filho, são exibidos como animais de zoo à ignorante sociedade portuguesa de finais do século XIX. Segue-se o exílio nos Açores.

Mouzinho de Albuquerque consegue subjugar as tribos à administração colonial portuguesa e é aclamado pela imprensa como um herói da pátria, mas, nos corredores do Paço, criticam-se os seus métodos, ao mesmo tempo que o governo se revela indiferente em relação aos seus planos para África. Sentindo-se incompreendido e inútil, a que se junta uma paixão secreta pela rainha D. Amélia, Mouzinho de Albuquerque acaba por se suicidar.

A notícia da sua morte é recebida com algum regozijo por Gungunhana, no seu exílio no Monte Brasil, uma floresta da ilha Terceira onde ele se refugia e se entretém a caçar coelhos, por ser um local que lhe lembra a sua terra-natal. O antigo régulo nunca mais pisará terras africanas, morrendo amargurado.

As reflexões perante a evidência da morte, tanto do régulo africano, como do seu captor, são o ponto de partida para este romance escrito a duas vozes. A autora apresenta-nos as duas versões sem tomar partido nem deixar transparecer um julgamento ou uma opinião que seja, o que muito apreciei. Põe igualmente em evidência a amargura do fim, qualquer fim, mesmo o daqueles que, em algum momento da sua vida, conheceram a glória.


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