Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

14 outubro 2015

Índice Médio de Felicidade



Este livro tem coisas muito boas e coisas menos boas.

Comecemos com as primeiras:

Está escrito de forma muito original, em forma de diálogo entre o narrador e um amigo que está preso. O diálogo é, porém, imaginário, pois o preso recusa-se a falar e a receber visitas do narrador. Por isso, é também um diálogo interior, pois o narrador, no fundo, fala consigo próprio.

Lê-se muito bem, peguei sempre nele com prazer e curiosidade em saber como o enredo avançaria. Apesar de tratar de assuntos sérios e tristes, por vezes mesmo trágicos, está escrito de maneira divertida, irónica.

É muito adequado ao nosso tempo e à situação portuguesa, pois fala de crise, desemprego, desagregação familiar, discriminação. Fala em esperança de que a vida, apesar de tudo, melhore. E fala na maneira como podemos ajudar os outros, mesmo que estejamos no fundo do poço.

Agora, as coisas menos boas:

A capa deu-me a sensação de déjà vu. Onde era mesmo? Ah, já sei: o filme Pequena Miss Sunshine.



Ainda pensei ser coincidência e, durante grande parte do livro, acreditei nisso mesmo. Mas depois lá vem a grande viagem, numa carrinha com problemas, os passageiros ainda com mais problemas, não faltando o depressivo que se tenta suicidar e o pai que tenta manter a sua família unida. Não tem mal nenhum usar um filme como fonte de inspiração. Mas precisavam os designers da capa de fazer uma colagem tão evidente? Ainda se tivessem escolhido outra cor…

Fui induzida em erro pela editora que, no seu blogue, falou num herói que luta desenfreadamente pela sua felicidade. Sim, ele luta. Mas também faz muita coisa que piora a sua situação! Claro que ele não tem culpa de ficar desempregado e impossibilitado de pagar a prestação da casa. Por outro lado, recusa-se a juntar-se à mulher e aos dois filhos que abalaram para Viana do Castelo, onde o sogro tem um café. OK, ele recusa-se a ser sustentado pelo sogro. Mas leva essa recusa ao absurdo, tornando este passo do enredo, na minha opinião, um pouco inverosímil. Afinal, ele ainda ama a mulher, sente falta dos filhos, mas não vai ter com eles, nem quando tem de deixar a casa e dormir no carro várias noites, acabando por descobrir que o escritório da antiga agência de viagens onde trabalhou (e que faliu) continua vazio e passa a dormir debaixo da sua antiga secretária durante mais de um mês. Penso que esta situação é levada longe demais.

É interessante constatar que se está a planear um filme baseado neste romance que, desde o primeiro momento, associei a um outro filme. Desejo ao autor e ao realizador muito sucesso! E decerto gostarei de ver a película!


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