Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

21 dezembro 2015

Conto de Natal (3)



Estavam a Sandra, a mãe e a tia ainda a distribuir os chocolates pelo bordo do fogão de sala, quando surgiram os primos Filipe e Toninho aos risos abafados. Depois de a avó lhes proibir tocar nos bolharacos, haviam descoberto onde o avô guardava o seu sortido de bolachas e, em pleno desfrutar, foram apanhados em flagrante. A forretice do avô era conhecida. Em sua casa, tudo se racionava, da água ao vinho e das batatas às bolachas. Dando com os netos a gozar as suas preciosidades, o patriarca, normalmente a santidade em pessoa, como a avó não se cansava de dizer, enfurecera-se, arrancara-lhes a caixa da mão e encetara a sua caminhada pelo corredor sem a largar.
As três mulheres foram espreitar e lá andava o avô para trás e para a frente, com a caixa nas mãos atrás das costas, certamente, ruminando um novo esconderijo. Riram-se daquela caturrice, mas a avó, apercebendo-se, ralhou ao marido, o que aliás já era costume e não o impressionou minimamente, ele nem se deu ao trabalho de lhe responder. E não largou a caixa.
Pouco depois, chegou o irmão mais velho de Géninha e Tininha, o tio Januário, com a mulher Guiomar e os filhos Clara e Mário. A família estava enfim completa e Sandra alegrou-se com a chegada da prima, ansiosa por poder conversar com alguém da sua idade e lhe contar as últimas novidades. As primas não se viam muitas vezes, mas correspondiam-se por carta, um hábito não muito estranho, no início dos anos 1980, de maneira que sabiam bastante da vida uma da outra.
Ao contrário da irmã mais nova, o tio Januário jubilou com as bacias cheias de bacalhau, o cabrito, o capão e as pilhas de bolharacos, expressando-se no seu vozeirão, de olhos esgazeados, o que causava urticária à mulher e à filha. Entre admoestações destas duas e a determinação da avó em defender o filho querido, Januário engoliu meia dúzia de bolharacos num ápice. «Come, filho, come», incitava-o a mãe, depois de ter ralhado com os netos pelo mesmo motivo. Mas Guiomar não se calava. Januário tendia a ser gordo, coisa que a mulher não apreciava por, dizia ela, questões de saúde. A avó, por seu lado, gostava de ver o filho gordinho e ficava nervosa com as críticas da nora, que nunca deixava o rapaz comer em paz, credo!
A presença do sobrinho Mário causou um certo desassossego no pai de Sandra. Mário, de catorze anos, a idade de Filipe, era uma espécie de ovelha negra da família. Entre outras peculiaridades comportamentais, dizia-se que gostava de surripiar uma ou outra nota das carteiras, pelo que Narciso logo foi segredar à mulher que tivesse cuidado com a sua. O pai de Sandra estava aliás convencido que conhecia a razão para aquele desvio do sobrinho: Januário, o cunhado, era forreta como o pai dele e dava uma mesada muito magra ao filho (se é que lhe dava alguma). E sabia-se que Mário gostava de máquinas de flippers e afins, mas ninguém falava nisso, por se saber que incomodava os avós.
Por outro lado, apreciava-se a sua habilidade para reparações elétricas e, ainda antes de o deixar despir o casaco, o avô aproximou-se dele com a sua escalfeta de aquecer os pés debaixo do braço, alegando estar avariada.


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