Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

22 dezembro 2015

Conto de Natal (4)



Sandra sentia uma certa afinidade por aquele primo, que, tal como ela, era aquilo a que chamava «apêndice da família». A família do tio Januário funcionava ao contrário da sua. Em casa de Géninha e Narciso, o pedestal pertencia a Filipe. O tio Januário e a tia Guiomar, contudo, haviam elegido a filha Clara como a rainha do lar. O primo Toninho, de doze anos, como filho único, era poupado a tais oscilações familiares.
Sandra e o primo Mário não passavam portanto de «apêndices»: viam-se obrigados a contentarem-se por pertencerem à família, sendo-lhes permitido viver sob o mesmo teto e ser sustentados pelos mesmos pais. Ambos eram calados, com o seu quê de misterioso. Géninha costumava dizer que a filha era introvertida.
Com miúdas da sua idade, porém, Sandra não era nada introvertida. E, afinidades com o primo à parte, não se cansava de conversar com a prima, enquanto os três rapazes iam extravasar as suas energias para o corredor do primeiro andar, onde se situava o quarto deles, um dos maiores da casa, albergando três camas de solteiro. As netas costumavam dormir no sofá-cama da sala, no rés-do-chão, os restantes quartos eram ocupados pelos quatro casais.
Na cozinha, iniciava-se a balbúrdia. As rabanadas da tia Guiomar eram famosas, pelo que não foi difícil decidir que tarefa lhe competia. Cortou o pão adequado em fatias. Umas seriam passadas em leite, outras em vinho, a fim de contentar todos os gostos. Géninha e Tininha descascaram as batatas e arranjaram os grelos, que seriam, depois, cozidos em panelas enormes, assim como o bacalhau e os ovos.
A cautelosa divisão de tarefas não evitou um conflito. A avó, que criara uma família em plena ditadura salazarista, tencionava fazer o leite-creme e a aletria com uma mistura de água e leite. As filhas e a nora protestaram: leite-creme e aletria faziam-se unicamente com leite! A avó alegou que sempre assim fizera e, já arrependida de ter condescendido na invasão do seu domínio sagrado, declarou-se disposta a medir dois terços de leite e um terço de água. E não admitiu mais conversa.
Os homens conversavam aos berros, na sala, como se fossem todos surdos. Examinavam as garrafas de tinto da Bairrada, selecionadas pelo avô, na sua adega ao fundo do quintal. Os genros puseram a hipótese de serem poucas, pai e filho garantiam que chegavam. As primas Sandra e Clara tagarelavam ao quentinho da lareira, entretanto acesa. Os rapazes continuavam entretidos no corredor de cima, imunes ao frio, que aumentava, à medida que escurecia.
Na cozinha, as enormes panelas ferviam, cada qual com o seu conteúdo. Devido às grandes quantidades e aos diferentes tempos de cozedura, os ingredientes haviam sido separados. As batatas coziam junto com os ovos, enquanto os grelos ocupavam outra panela e o bacalhau se dividira em duas, pois desenvolvia muita espuma.
As primas foram encarregadas de pôr a mesa, tarefa que Clara executou sob protesto, por os rapazes serem poupados. Narciso olhou desagradado para a moça. Sandra estava tão habituada a ajudar a mãe sem que o irmão mexesse uma palha, que não reclamou, embora achasse que a prima tinha razão.
A fim de se irem distraindo, agora que a fome começava a apertar, os homens sentaram-se à mesa, ocupando-se da preparação dos seus molhos. Picaram alho para os seus pratos, ao qual juntaram piripiri e um pouco de azeite. Sandra juntou-se-lhes, mas Clara prescindiu, alegando que não queria ficar a cheirar a alho. O tio Carlos, que era obcecado por aquele condimento, troçou dela, perguntando-lhe se tinha algum namorado à espera, naquela noite. Atrevendo-se a dar opiniões, ou a fazer críticas, a jovem Clara expunha-se amiúde à troça dos tios e dos primos. O avô mantinha-se calado e inativo, como sempre. Não lhe interessavam as garrulices da neta e alguém lhe haveria de picar o alho, fosse a mulher, ou o filho.


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