Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

03 janeiro 2016

Infanta Dona Constança de Portugal, Rainha de Leão e Castela



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A 3 de Janeiro de 1290 nasceu a infanta Dona Constança de Portugal, a primeira filha de Dom Dinis e de Dona Isabel. O casal teve apenas mais um filho, o futuro rei Dom Afonso IV, que nasceu cerca de um ano mais tarde.

Apesar de nascida em berço de oiro e se ter tornado rainha, a infanta Dona Constança não terá sido muito feliz na sua curta vida, como acontecia a muitas donzelas da época medieval. Foi obrigada a separar-se dos pais com apenas sete anos, por ocasião do Tratado de Alcañices, a 12 de Setembro de 1297, pois estava prometida em casamento ao rei Fernando IV de Leão e Castela. Em casos destes, era habitual que a noiva fosse criada pelos sogros.

Fernando IV tinha apenas doze anos, à altura do Tratado de Alcañices, mas era rei por morte de seu pai Sancho IV. Sua mãe, Maria de Molina, exerceu a regência durante a sua menoridade.

Fernando IV e sua mãe Maria de Molina*
O casamento foi celebrado em Janeiro de 1302, tinha a noiva doze anos e o noivo dezassete. Fernando IV, porém, morreria subitamente dez anos mais tarde. Constança escreveu aos pais a pedir proteção para o filho Afonso, o novo rei, de apenas um ano.

A cena política de Castela tornou a agitar-se, despertando lutas pela sucessão do trono. Levantava-se o problema da tutoria do pequeno rei e da regência do reino e a situação tornou-se insuportável para a frágil rainha, incapaz de lidar com as intrigas. Passou uma fase muito confusa, cortando inclusivamente relações com a sogra que a criara.

Sobre isto, dois excertos do meu romance:



No início do Outono, chegou à corte um apelo desesperado de Constança. O pequeno rei, de apenas dois anos, encontrava-se em Toro, com a avó, que, ofendida com a nora, a proibia de ver o filho! No seu desespero, Constança suplicava o apoio do pai para levar o tio Juan a exigir a custódia completa do filho, contra Maria de Molina!

Dinis censurou Isabel por ter arrastado a filha para o tio aragonês e a rainha, mortificada, escreveu a Constança, pedindo-lhe que viesse ter com eles. A filha, porém, respondeu que tentaria fazer as pazes com a sogra, esperando que esta a autorizasse a entrar em Toro.




- Que se passa? 
Isabel respondeu num sussurro:
- Tive um sonho…
- Um pesadelo?
- Não sei… Uma mensagem… Ou uma premonição…
Mais uma? Dinis fez esforço por vencer o enfado, pois haveria uma razão forte que a trouxera ali, numa noite tão fria. Acabou por dizer:
- Sentai-vos e contai-me o que vos atormenta!
Depois de pousar a vela sobre a mesinha ao lado da cama, Isabel iniciou o seu relato:
- Há cerca de uma semana, andando para os lados da Azambuja, deparei com um eremita à beira da estrada. Parecia muito perturbado e eu desmontei da minha mula e perguntei-lhe se havia mister do meu auxílio. Ele não respondeu, limitou-se a fixar-me numa tristeza infinita. Já tratei de muitos enfermos e assisti a muitas aflições, mas nunca vira olhos tão tristes. Insisti na minha pergunta. Depois de me fixar durante mais alguns momentos, ele abanou a cabeça e afastou-se de mim sem uma palavra.
Isabel baixou a cabeça e prosseguiu:
- Não mais olvidei aquele olhar. Passado uns dias, tornei ao local, a fim de o procurar. Mas não o encontrei. Perguntei por ele nas aldeias da região, descrevendo-o o melhor que podia. Ninguém parecia conhecê-lo. Indicaram-me alguns eremitas que por ali viviam e fui ter com eles. Mas nenhum era o que eu havia visto. O homem parecia ter-se esfumado, ou sido engolido pela terra… Tentei olvidá-lo. Mas hoje…
Começou a tremer mais violentamente:
- Sonhei com ele…
- Ora, ficastes impressionada com a sua figura…
- No sonho, ele falou comigo. E disse-me… - Olhou-o, muito trágica: - Que Constança havia morrido!


Constança faleceu a 18 de Novembro, com apenas 23 anos, vítima de uma febre que a levou em três dias. Sem ter feito as pazes com a sogra, sem ver os pais uma última vez, nem sequer o filho de dois anos.



Também a 3 de Janeiro, mas no ano de 1312, dá-se um acontecimento, à primeira vista, corriqueiro, mas que se revelaria de importância, pois avolumou as discórdias entre Dom Dinis e o seu herdeiro: a sentença do tribunal régio no processo dos herdeiros do 1º conde de Barcelos Dom João Afonso Telo.

A sentença favoreceu Afonso Sanches, um dos genros do falecido e filho ilegítimo de Dom Dinis, que é nomeado mordomo-mor do pai. O outro genro, Dom Martim Gil de Riba de Vizela, apesar de ter sucedido ao sogro no título, tornando-se no 2º conde de Barcelos, foi muito prejudicado nas partilhas. A sentença chocou-o tanto, que se exilou em Castela, morrendo antes do fim do ano. O seu testamento referia que nenhum dos seus bens fosse parar às mãos do cunhado Afonso Sanches, o que, por decisão régia, acabaria por acontecer!

O escandaloso favorecimento do filho bastardo Afonso Sanches, por parte de Dom Dinis, terá sido uma das razões para a revolta do príncipe herdeiro Afonso, revolta que desembocou numa guerra civil, amargurando os últimos anos de vida do rei Poeta e Lavrador.

Afonso IV, filho de D. Dinis



Nota: não encontrei nenhuma representação de Dona Constança. Deparei, nas minhas pesquisas, com esta imagem de Sansa Stark, uma personagem d'As Crónicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. Decidi usá-la porque se aproxima muito da Constança que descrevo no meu romance D. Dinis, a quem chamaram o Lavrador.

* Pintura de Antonio Gisbert Pérez, 1863


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