Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

14 maio 2016

Cantiga de Escárnio

Do ponto de vista poético, Dom Dinis é sobretudo conhecido pelas suas cantigas de amor e de amigo. Mas ele compôs também algumas cantigas de escárnio e aproveito para lembrar uma passagem do meu romance, onde enquadrei uma dessas cantigas:

Serão na Corte 2.jpg

Assim se viu Dinis rodeado de fidalgos pomposos a disputar-lhe a atenção, tentando impressioná-lo com as suas proezas, sem sequer haver uma sessão musical que o distraísse. O Paço episcopal não era o local indicado para fazer a corte às senhoras através de cantigas trovadorescas, para já não falar de uma ou outra dança.
Por entre as conversas, Dinis recordou uma cantiga de escárnio que compusera sobre um fidalgo de província, por ele apelidado de Dom Foam e que falava intermitentemente, sem se aperceber do cansaço e do tédio que causava ao seu soberano:

U noutro dia seve Dom Foam,
a mi começou gram noj’ a crecer
de muitas cousas que lh’ oí dizer.
Diss’ el: - «Ir-m’ ei ca já se deitaram»;
e dix’ eu: - «Boa ventura hajades
porque vos ides e me leixades».

E muit’ enfadado do seu parlar
sevi gram peça, se mi valha Deus,
e tosquiava estes olhos meus.
E quand’ el disse: - «Ir-me quer’ eu deitar»
e dix’ eu: - «Bõa ventura hajades
porque vos ides e me leixades».

El seve muit’ e diss’ e porfiou,
e a mim creceu gram nojo por em,
e nom soub’ el se x’ era mal se bem.
E quand’ el disse: - «Já m’ eu deitar vou»
e dix’ eu: - «Bõa ventura hajades
porque vos ides e me leixades».

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