Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

12 outubro 2016

Mimos, Palhaços, Flores de Figueira



Não leio apenas livros publicados e hoje dou a minha opinião sobre um excelente romance, com uma estrutura complexa, de autoria de João J. A. Madeira.

Mimos, Palhaços, Flores de Figueira desenvolve-se em três níveis narrativos e tem o seu quê de policial, pois há um crime que nos mantém em suspenso até ao fim. Embora haja uma personagem, Mário Pastor, que alega ter matado o pai e todas as evidências para isso apontem, o leitor duvida que assim seja e só no fim o caso é esclarecido.

Fugido da polícia, Mário Pastor torna-se sem-abrigo, revelando-nos as agruras deste tipo de vida, o mais baixo patamar do ser humano. Apelidados de vagabundos, escumalha, ralé, os sem-abrigo são apenas gente, gente tão digna como a que vira a cara à miséria, que destrói vidas sem o saber, que repudia a cor da pele sem o admitir.

Num segundo nível narrativo encontramos uma história de amor que se demora a revelar. A fim de retomar uma amizade que, absurdamente, se perdera, Marcelo marca um número quase esquecido no telemóvel. Alguém atende num silêncio só interrompido por uma respiração ofegante e, subitamente, pelas palavras secas, nuas "acabo de matar o meu pai". Na sua busca pela verdade, Marcelo conhece Matilde e o facto de não a achar particularmente bonita impede-o de ver nela a mulher da sua vida. Por seu lado, Matilde foi a última pessoa a falar com Mário Pastor, uma ausência tão presente na vida dela, que lhe torna difícil admitir o amor de Marcelo.

 O terceiro nível narrativo conta-nos a história do Castro, o homem que dez anos antes decidiu fechar a pequena firma de porcas e parafusos, deixando no desemprego cinco funcionários que agora resolve chamar para o mesmo local de trabalho, ainda que para um comércio algo estranho e original. Castro é o retrato do pequeno empresário português, idealista e manhoso, mas com um lado humano, à moda antiga, criando um ambiente familiar no local de trabalho. Os seus quatro funcionários completam o leque de personagens interessantes, personagens de segredos guardados, de vidas mal resolvidas e que se vão cruzando com outras na busca de um assassino que nem se sabe se o foi. A firma do Castro é o ponto onde acabam por convergir todos os fios narrativos, já que o quinto funcionário, desaparecido, é precisamente o homem que terá sido morto pelo próprio filho.

João J. A. Madeira é um bom observador da vida e da natureza humana e sabe cativar e surpreender o leitor, com viragens de enredo inesperadas e situações insólitas, característica de que já me tinha apercebido nos outros dois romances que li dele: O Rio que corre na Calçada e A Lenda desconhecida de Francisco Caga-Tacos.

Agradeço-lhe, por isso, o privilégio de ter igualmente podido ler esta bela obra, que espero seja publicada, para que mais gente (muito mais) possa usufruir dela.


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