Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.

11 fevereiro 2017

Aventuras de João Sem Medo





Este “panfleto mágico em forma de romance”, ao estilo de Alice no País das Maravilhas, é um registo raro na literatura portuguesa e, por isso, digno de nota. João, um rapaz de cerca de doze anos, cansado das lamúrias da sua aldeia Chora-Que-Logo-Bebes, decide saltar o Muro construído em redor da Floresta Branca, «onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam instalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos».

João entra assim num mundo de fantasia, vivendo as aventuras mais estranhas. É de louvar a imaginação de José Gomes Ferreira na criação de mundos e personagens absurdas, com os quais João aprende muito sobre a vida, os dilemas humanos e a sociedade em geral, que, muitas vezes, se revelam precisamente absurdos.

Porém, fazendo este livro parte do Plano Nacional de Leitura, para o 3º ciclo, não posso deixar de fazer duas críticas desfavoráveis.

O objetivo principal desta narrativa é mostrar a jovens que se deve viver sem medo. Em grande parte do livro, isso é conseguido, João supera de maneira destemida os testes mais perigosos e absurdos. Chega, porém, a um capítulo em que encontra o seu contrário: João Medroso. Esta parte não me parece aconselhável, do ponto de vista pedagógico. João Sem Medo trata com bastante rudeza o rapaz medroso, com ordens de «cala-te» e apelidando-o de «medricas» e outros nomes menos simpáticos. É certo que João Medroso exagera, tem mesmo medo e desconfia de tudo, mas não me parece que a agressividade seja a melhor maneira de lidar com alguém medroso. Não se lhe consegue tirar o medo, apenas se lhe ensina a desprezar-se a si próprio. O próprio João Sem Medo diz: «jurei esconder o medo de mim mesmo, para não me desprezar». Esta é a terapia errada, pois, a melhor solução para ganhar coragem é aprender a valorizar-se a si mesmo, o que implica aceitar os seus medos. Isso sim, é corajoso!

Os dois Joões encontram um gigante. O Sem Medo tenta fazer-lhe frente, o Medroso encolhe-se, claro. E o que lhe acontece? O gigante divide-o em centenas de bichos-de-conta que amassa numa grande bola, envolve na pele de um sapo, que depois esborracha com um murro e acaba por desfazê-lo em ar. Foi esse o castigo por ele ser medroso! Sinceramente, acho que isto só aumenta o medo de quem já é medroso.

A outra grande crítica que tenho a fazer a este livro é que parece tratar apenas das aventuras e dos medos dos rapazes. As raparigas, quando surgem, ou são personagens graciosas, mas fracas, a necessitarem de ajuda, ou são (como haveria de ser de outra maneira?) seres traiçoeiros, que só servem para enganar os rapazes e metê-los em apuros. Em defesa do autor, diga-se que a primeira versão destas aventuras foram publicadas num jornal de 1933. Estão, porém, desadequadas ao nosso tempo, pelo que me parece que os jovens até aos 14 anos não o devam ler sem acompanhamento. Se servir de leitura obrigatória numa escola, espero que a/o professor/a possua pedagogia suficiente, a fim de dar a volta a estas situações.


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