Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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26 de abril de 2015

E soltaram-se os prisioneiros



Libertava-se a plenos pulmões a repressão acumulada durante décadas. As vozes, os punhos erguidos, os cravos nas mãos. «O povo unido jamais será vencido». E dezenas de jornalistas e fotógrafos, flashes, perguntas…
Esposas, maridos, pais, filhos, amigos em êxtase. Mal acreditando que aqueles por quem aguardavam saíam em liberdade. Ansiavam por os abraçar, por festejar com eles.
Fomos engolidos pela multidão, era um nunca mais acabar de abraços e lágrimas. Alguns tentavam desesperados furar o mar de gente, a fim de se juntarem aos seus.
Outros não tinham ninguém à sua espera… 
Eu não tinha ninguém à minha espera. 
Seria a única? 
Nunca o averiguei.
No início, nem pensei em tal. Cheguei a responder a algumas perguntas de jornalistas e houve quem me abraçasse, nem sei se era gente que conhecia. 
Depois, comecei a ficar atordoada. À medida que as pessoas se encontravam e iam ficando juntas, crescia o meu isolamento. Dei-me conta da minha solidão. Estivera presa, fora torturada, era agora libertada e ninguém em particular me aguardava em júbilo, recebendo-me e amparando-me no seu calor, no seu amor.
Nem pai, nem mãe.
Ninguém.



24 de abril de 2015

A Véspera



Enfim, não havia como recuar. Restava-lhe tentar compor as coisas de maneira a que o resto da família não sofresse as consequências do comportamento da filha subversiva e criminosa. O facto de outros filhos de boas famílias se deixarem igualmente envolver em ações subversivas dava-lhe um certo conforto, sentia-se menos sozinho, mais compreendido. Talvez devesse dirigir-se aos seus antigos contactos da PIDE, explicar-lhes que era vítima de uma filha desmiolada e que fazia questão de que ela fosse tratada com toda a dureza. Talvez até se oferecesse para ir a Caxias dar-lhe umas bordoadas.
Começaria por se desculpar perante o Professor Marcelo Caetano, não deixando margem para dúvidas de que lhe saíra na rifa uma «filha má», apesar do empenho que ele pusera na sua educação. Dedicou vários dias à escrita da carta, relendo e corrigindo, até ela lhe parecer perfeita. Depois, num serão de quarta-feira, aproveitou o facto de a mulher e o filho estarem a ver televisão, para se posicionar no meio da sala e ler-lhes a missiva, do alto do seu orgulho, deixando claro ao miúdo, ainda a acabar o liceu, a vergonha que a irmã fazia toda a família passar.
Apesar de o rapaz se mostrar enfastiado por aquela interrupção de um jogo de futebol, nada disse. Jogava-se a segunda mão da meia-final da Taça das Taças, com participação portuguesa: o Sporting Clube de Portugal enfrentava o Magdeburgo, da República Democrática Alemã. Ernesto também gostava de futebol, mas a escrita da carta tornara-se na sua obsessão, atirando o resto para segundo plano.
 Depois do jantar, tornou ao escritório e datou finalmente a carta: 24 de abril de 1974. Enfiou-a, cheio de brio, num envelope, que endereçou ao Presidente do Conselho de Ministros. No dia seguinte, metê-la-ia no correio. 
Olhou para o relógio. Eram quase onze horas. Ligou o rádio para ouvir as notícias. Passava, mais uma vez, a canção interpretada por Paulo de Carvalho, que representara Portugal no Festival da Eurovisão, havia quase duas semanas. Ernesto não ligava a cantorias, mal sabia distinguir as canções umas das outras. Mas, por acaso, conhecia alguns versos de E Depois do Adeus, tantas vezes a ouvia…

                        Tu vieste em flor
                        Eu te desfolhei
                        Tu te deste em amor
                        Eu nada te dei.



11 de março de 2015

Lousas, 11 de Março e Verão Quente



Alma Nostra


Ainda sou do tempo em que se usavam lousas na escola primária: um pedaço de ardósia, de forma quadrada ou retangular, dentro de um caixilho de madeira. Escrevíamos com um ponteiro, também de lousa, que se partia facilmente. Nada simples, para crianças de seis ou sete anos. E, embora fosse barato e a professora costumasse ter muitos, guardados num armário da sala de aula, torcia o nariz e havia sempre uma repreensão, quando tal acontecia. Se o acidente se repetisse com alguma frequência, a criança tinha um problema.

Também as lousas se partiam facilmente. Por vezes, ao abrir a pasta, no início da aula, dava-se com a lousa partida. E logo nela tínhamos feito o trabalho de casa! A lousa servia para os trabalhos de casa e para fazer exercícios de aritmética, por se poder apagar com facilidade o que lá se escrevia. Normalmente, com cuspo. Só depois de estar tudo direitinho, se copiavam os exercícios para o caderno, onde se escrevia com esferográfica, ou até com caneta de tina permanente. Assim nos ensinavam a sermos asseadas e a ter o caderno em ordem.

Engana-se, porém, quem julgue que estou a suspirar pelos bons velhos tempos, em que as crianças aprendiam a fazer cálculos de cabeça e a ser asseadas. Vivíamos subjugadas, com terror de darmos um passo em falso, com medo que nos batessem. E, quando olho para a fotografia tirada na minha quarta classe, só vejo uma miúda tímida, submissa e assexuada.


Esta fotografia foi tirada no inverno de 1975, talvez em março, já não me lembro. O que é certo, é que o país andava em convulsões, com o contragolpe de 11 de março e a consequente viragem à esquerda, a radicalização que provocou nacionalizações em massa e que culminaria no Verão Quente, com a guerra civil a espreitar a cada canto.

Eu pareço viver a leste de tudo isso. E vivia! Eu era ainda uma menina de escola salazarista.


29 de abril de 2014

Inspirações Revolucionárias (8)



- Para onde vais?
Lena encarou-o e respondeu, na sua candura de criança:
- Não sei.
Duas pequenas palavras, que se repetem várias vezes ao dia, pelos motivos mais prosaicos, e que, naquele momento, fizeram-no engolir em seco. Leonel não conseguia imaginar algo mais triste do que não ter para onde ir.


25 de abril de 2014

Inspirações revolucionárias (7)



Leonel viu-a perdida, desorientada, de lágrimas nos olhos, no meio da multidão em delírio.
«O povo unido jamais será vencido».
A aura de solidão que a envolvia arrepiou-o. Uma redoma sombria parecia pairar sobre ela, naquela hora em que se exultava a liberdade alcançada. Lena continuava presa por amarras invisíveis, haviam-lhe tecido uma teia diabólica à volta que nem a revolução parecia conseguir rasgar. Leonel recordar-se-ia daquela imagem pela vida fora, a imagem de uma jovem que fora presa e torturada e cuja família nem sequer lhe vinha dar um abraço!