Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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14 de maio de 2013

Cristo e as Mulheres Desaparecidas (3)



As traduções tradicionais da Bíblia dão-nos a entender que Cristo falava só com homens. Estudos recentes provam que não é verdade. Havia muitas mulheres entre os seus seguidores, algumas talvez até fossem consideradas apóstolas, sendo Maria de Magdala a primeira, entre elas.

Todos nós conhecemos o episódio em que Jesus Cristo impede o apedrejamento de uma adúltera, proferindo a famosa frase: «Aquele de entre vós que nunca pecou, atire-lhe a primeira pedra» (João 8:7). Seguindo a tradição medieval, este episódio é apenas visto como sinal da extrema bondade e misericórdia de Cristo. E rouba-se-lhe o seu verdadeiro significado.

Na verdade, este gesto constituiu uma autêntica revolução! Os doutores da lei e os fariseus presentes lembram a Jesus que «Moisés, na lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres até à morte» (João 8:5). Cristo atreve-se a contrariar essa lei, numa sociedade profundamente patriarcal! Não fosse encarado como o Messias e teria sido igualmente condenado (como o foi, mais tarde, mas não neste momento, em que todos lhe obedeceram e deixaram a mulher em paz).

Os Evangelhos não relatam factos históricos em si e, sim, simbologias, pelo que este é um bom exemplo de como Jesus encarava as mulheres. Considerava-as, igualmente, parceiras de diálogo. O seu mais longo diálogo (registado na Bíblia) é tido com uma mulher, a samaritana, junto ao poço de Jacob (João 4:7,26). É, por isso, legítimo concluir que Cristo considerava todos os humanos iguais, homens e mulheres.

São João Evangelista identifica como Maria de Betânia a mulher que lava os pés de Jesus com óleo perfumado (João 12:3). No Evangelho de São Marcos, porém, ela não tem nome (Marcos 14:3). Além disso, não perfuma os pés do Messias, mas deita o óleo sobre a sua cabeça. É censurada pelo desperdício, mas Cristo defende-a: «garanto-vos que em qualquer parte do mundo, onde for pregada a boa nova, será contado o que esta mulher acaba de fazer e assim ela será recordada» (Marcos 14:9).

Sim, o seu gesto é lembrado. Mas é pena que não saibamos, exatamente, de quem se tratava.

Nota: todos os posts desta série são baseados num documentário da ZDF.

7 de maio de 2013

Cristo e as Mulheres Desaparecidas (2)



No documentário transmitido pela ZDF, a 1 de Abril, e no qual me baseio para escrever sobre este tema, foi apresentada Jacqueline Straub, uma jovem alemã, estudante de Teologia, que está convencida de que a Igreja Católica precisa de mulheres. O sonho da sua vida é ordenar-se padre. Ou deveria eu dizer madre? Ou sacerdotisa, a forma feminina de sacerdote? Ou diácona, apontada como erro ortográfico? Por aqui se vê ao ponto a que a Igreja Católica nos levou: nem sequer existem formas femininas para certas palavras, na nossa língua! Se querem saber a minha opinião, isto roça o escandaloso.

Na perseguição desse seu objetivo, Jacqueline Straub ocupa-se com uma interessante investigação: o que perdeu a Igreja Católica, por ter vindo a ignorar as mulheres, nestes seus 2000 anos de existência? A sua grande inspiração é Santa Maria Madalena, uma mulher aceite por Jesus Cristo como apóstola e rebaixada, injustamente, a meretriz e pecadora, pela Igreja.

O processo foi iniciado pelo papa Gregório I, numa pregação (pelo ano 600) em que juntou três mulheres numa só! Segundo ele, Maria de Betânia, que lavou os pés de Jesus com óleo perfumado (João 12:3), seria a mulher pecadora do Evangelho de São Lucas e as duas seriam, por sua vez, identificadas com Maria de Magdala. A tradição medieval seguiu esta versão, fazendo, desta mulher, uma espécie de figura de propaganda da Igreja. Nas palavras da teóloga austríaca Andrea Taschel-Erber, que tem dedicado a sua vida a investigar Santa Maria Madalena, esta tornou-se num repositório de fantasias e medos medievais, numa femme fatale da Cristandade, uma meretriz que se fez santa, a fim de redimir o comportamento de Eva, que trouxe o pecado e a morte ao mundo. Andrea Taschel-Erber diz-nos que nada disto tem a ver com a verdadeira história de Maria de Magdala (tornarei a este assunto num outro post).

Muita gente aconselha a jovem Jacqueline Straub a tornar-se Protestante, nomeadamente, Luterana, ainda para mais, sendo ela natural de (e vivendo em) um país em que metade da população é Luterana. Continuaria cristã e realizaria o seu sonho de se tornar sacerdotisa (pastora protestante). Mas Jacqueline diz, claramente: «Não! Eu sou católica!» E acrescenta que a Igreja tem de se modificar por dentro, o movimento tem de surgir de dentro e, não, de fora.


30 de abril de 2013

Cristo e as Mulheres Desaparecidas (1)



No passado dia 1 de Abril, não por ser o Dia dos Enganos, mas por ser Segunda-Feira de Páscoa, feriado na Alemanha, o canal ZDF mostrou um documentário que devia ser transmitido em todas as línguas, em todas as televisões do mundo. O papel das mulheres, no Novo Testamento, foi ignorado, menorizado e votado ao esquecimento, ao longo dos séculos. Do «novo povo de Deus», anunciado por Cristo, foi criada uma «Igreja de homens» (para usar as palavras dos autores do documentário). A ação dos chamados «Pais da Igreja» (em alemão Kirchenväter) foi ainda mais longe, ao transformarem uma apóstola num apóstolo!

Apóstola, sim, não é erro (embora o Word o assinale como tal). Os teólogos e as teólogas citados no programa são perentórios a afirmar que, no tempo de Cristo, e nos primeiros anos do Cristianismo, existiam apóstolas e diáconas (mais um erro, diz-me o Word). A primeira apóstola teria sido Maria Madalena (Maria de Magdala), anunciadora do milagre da Páscoa, mas, mais tarde, rebaixada a meretriz e pecadora. Na verdade, a religião cristã não se iniciou com a morte de Cristo, mas com a sua ressurreição. É o acontecimento mais importante do Cristianismo, embora, hoje em dia, tenda a ser o Natal. A ressurreição teria, assim, de ser testemunhada por personagens importantes, credíveis. E, nos Evangelhos, essas personagens são mulheres (em Mateus, Marcos e Lucas são várias mulheres; no Evangelho de São João, Maria Madalena depara sozinha com o túmulo vazio).

O documentário centrou-se em quatro mulheres fundamentais para o estabelecimento do Cristianismo: a já referida Maria de Magdala; Febe de Cêncreas (diácona e teóloga, cujo significado tem vindo a ser menorizado pela Igreja Católica); Júnia (denominada apóstola por São Paulo e transformada num homem por estudiosos da Bíblia medievais!) e Lídia de Filipos, a primeira pessoa, na Europa, a converter-se ao Cristianismo e a ser batizada por São Paulo, que a elevou a líder religiosa e, no entanto, hoje, ela é apenas conhecida por ser a Padroeira dos Tintureiros!

Inicio, aqui, uma série semanal dedicada a este tema. Nos próximos posts, continuarei a falar do papel das mulheres, no nosso tempo e no tempo de Cristo, e passarei, depois, a analisar pormenorizadamente o das quatro citadas, sempre baseada no documentário da ZDF.

P.S. (1) O título original do documentário é Jesus e as Mulheres Desaparecidas (Jesus und die verschwundenen Frauen). Na minha tradução, optei por Cristo, pois, hoje em dia, em Portugal, quando se enuncia o nome de Jesus, há a tendência para o confundir com o do treinador de futebol.

P.S. (2) Quem souber alemão e se interessar pelo tema, pode ver o vídeo do documentário.

P.S. (3) Podem pensar que exagero na linguagem feminista, mas foi precisamente este o tom usado no programa da ZDF. Notava-se uma grande vontade de mudança na Igreja Católica, em todos os teólogos e teólogas consultados e que serão nomeados e citados nos próximos posts.


2 de janeiro de 2013

Proteção dos Animais


A propósito do 175º aniversário da fundação da primeira Sociedade Protetora dos Animais, na Alemanha, fiquei a saber que o movimento tem raízes na Igreja. No início do século XVIII, o pastor luterano Adam Ludwig Weigen, da região de Estugarda, exigiu caridade em relação aos animais, no seu livro Über die Rechte des Menschen gegenüber den Kreaturen (Acerca dos Direitos do Homem sobre as Criaturas).

O livro foi, porém, esquecido e só cerca de cem anos mais tarde um outro pastor luterano, Christian Adam Dann, da mesma região, se dedicou ao tema. O ponto de partida foi uma cegonha que construíra um ninho na torre da sua igreja. Certo dia, ao dar um passeio, Christian Adam Dann descobriu o cadáver da cegonha crivado de balas. Ficou tão indignado, que publicou um texto com o título Bitte der armen Tiere, der unvernüftigen Geschöpfe, an ihre vernüftigen Mitgeschöpfe und Herren, die Menschen (Pedido dos Pobres Animais, as Criaturas Irracionais, às Criaturas Racionais, os seus Donos, os Humanos). Neste texto, ele condenava o abandono e os maus tratos, pois os animais, como criaturas de Deus, mereciam ser respeitados. Citava um provérbio do AntigoTestamento: «O justo cuida das necessidades do seu gado, mas as entranhas dos ímpios são cruéis».

Christian Adam Dann faleceu, porém, alguns meses antes de ver concluída a sua obra: a fundação da Verein zur Verhinderung der Tierquälerei (Sociedade de Prevenção dos Maus Tratos aos Animais), a 17 de Junho de 1837. Um outro pastor luterano, Albert Knapp, deu-lhe continuação e, embora tivesse de enfrentar bastante oposição (também da própria Igreja), conseguiu que se promulgassem leis de proteção dos animais domésticos. Desde aí, os amigos dos animais não mais pararam de crescer e de se organizar.

7 de agosto de 2012

O Maior Sacrifício


Se há episódios da Bíblia difíceis de compreender, é aquele em que Abraão, por ordem de Deus, se prepara para sacrificar o filho.

Genesis 22, 1-2.9-12:
Deus pôs Abraão à prova e chamou-o: «Abraão!» Ele respondeu: «Aqui estou». Deus disse: «Pega no teu filho, no teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à terra de Moriah, onde o oferecerás em holocausto, num dos montes que Eu te indicar».
Chegados ao sítio que Deus indicara, Abraão levantou um altar, dispôs a lenha, atou Isaac, seu filho, e colocou-o sobre o altar, por cima da lenha. Depois, estendendo a mão, agarrou no cutelo para degolar o filho. Mas o Anjo do Senhor gritou-lhe do céu: «Abraão! Abraão». Ele respondeu: «Aqui estou». O Anjo disse: «Não levantes a tua mão sobre o menino e não lhe faças mal algum, porque sei agora que, na verdade, temes a Deus, visto não me teres recusado o teu único filho».

No jornal do Bispado de Hildesheim diz-se que alguns estudiosos da Bíblia interpretam este episódio como a altura a partir da qual o povo de Israel renuncia aos sacrifícios humanos e passa a sacrificar "apenas" animais, para aplacar a ira de Deus. Outros acham que se trata de exemplificar a submissão total aos desejos de Deus, mesmo que estes nos pareçam absurdos.

Enfim, os sacrifícios, de humanos ou de animais, felizmente, não existem no Cristianismo. E a obediência cega a Deus é uma questão de fé, competindo a cada um decidir. Mas que dizer do pobre Isaac? Como pode um filho superar uma experiência tão traumatizante? O seu próprio pai o levou ao local de sacrifício e se preparava para o degolar e queimar! Debaixo de um final supostamente feliz, esconde-se, na minha opinião, um episódio de extrema violência e de desrespeito pela vida de um rapaz. Não penso que um filho que passasse por uma experiência destas pudesse recuperar das mazelas psicológicas.

Às vezes, apetece-me concordar com Saramago: a Bíblia é (também) um "livro de maus costumes"...

19 de março de 2012

Imprimir como Gutenberg

Agora, que estamos a iniciar a era dos livros electrónicos, nada como regressar às origens. Foi isso mesmo que nos aconteceu na nossa visita à lindíssima catedral gótica de Magdeburgo.


Deparamos, sem o saber, com uma exposição sobre publicações da Bíblia ao longo dos tempos, na qual o ponto forte eram as lindíssimas versões da Idade Média, escritas e ilustradas à mão.



Peço desculpa pelos reflexos das vitrinas nas fotografias. Na próxima, que mostra um pormenor, não existe esse problema:


Mas a Bíblia foi também o primeiro livro impresso (em alemão: das erste gedruckte Buch)


Por isso, a exposição foi aproveitada para lembrar aquele que revolucionou o mundo dos livros. Três estudantes imprimiam gratuitamente, com os meios de Gutenberg, uma página, para quem a quisesse levar.













Claro que não resistimos à oferta e aqui está o resultado, que levámos para casa:


É uma passagem do Evangelho de São João (14,6) : Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim.

18 de dezembro de 2011

"Deves amar o próximo como a ti mesmo"

Assim nos ensina a Bíblia. Mas sejamos sinceros: quem consegue dizer que se ama? Não nos achamos cheios de defeitos? Não nos tratamos mal, chamando-nos de parvos e estúpidos? Não nos achamos, inúmeras vezes, inferiores aos outros e não desejamos ter a vida deles, que julgamos mais felizes do que nós?

Condenamos o egoísmo. E há um egoísmo prejudicial, sim, mas ao mesmo tempo, existe um egoísmo saudável e, eu diria mesmo, vital. Não encontraremos paz interior, enquanto não nos ocuparmos de nós próprios. Só assim reuniremos condições de amar e ajudar o próximo. Caso contrário, somos vítimas fáceis do egoísmo prejudicial e doentio. E aí não adianta que nos preguem a humildade, a obediência, o sacrifício e a paciência. Se não temos nada para dar a nós próprios, também não encontramos nada para os outros.

Dito por outras palavras: antes de irmos ajudar os outros a arrumar a casa deles, será melhor arrumarmos a nossa. Que energia temos para as casas dos outros, se sabemos que, na nossa, reina o caos? Podemos abrigar-nos no artifício de nos distrairmos: enquanto arrumamos o lar alheio, esquecemos a desordem e a sujidade do nosso. Mas tanto maior será a desolação e a tristeza, quando lá regressarmos.

Não devemos ter medo, nem vergonha, de admitir que velamos, acima de tudo, pelo nosso próprio interesse. Não no sentido de nos julgarmos superior aos outros e de querermos ostentar riqueza, enquanto eles se afogam na miséria, mas no sentido de arranjarmos a energia e a paz que nos permitam encarar, seja quem for, em pé de igualdade; a energia e a paz que nos permitem subir ao degrau mais alto, mas, também, descer, sem preconceitos, a um mais baixo, em caso de necessidade.

Devemos tratar de nós próprios como, em criança, desejávamos que os nossos pais nos tratassem.

22 de novembro de 2011

"Fazei, pois, e observai tudo o que eles disserem...

"... mas não imiteis as suas obras, pois eles dizem e não fazem."
(Evangelho segundo São Mateus, 23,3)

Segundo São Mateus, já Cristo chamou a atenção para o facto de haver pessoas, neste caso, os fariseus, que fazem o contrário daquilo que dizem. Infelizmente, pais educadores e professores não fogem à regra. E como querem os pais filhos bem educados, se eles próprios não dão o exemplo?

Uma autora alemã, Gundula Gause, num livro em que dá conselhos de educação, diz o seguinte:

O melhor método de transmitirmos boas maneiras aos filhos é através do exemplo. Todos devíamos cultivar valores como o bom comportamento, a amabilidade, a pontualidade, a solidariedade e o respeito. Não devemos, aliás, repreender os filhos diante dos outros, mas fazê-lo mais tarde, com calma.

Num jornal católico alemão, são apresentados testemunhos de crianças sobre a contradição em que os pais, educadores e professores, muitas vezes, caem:

O meu pai diz-me sempre que não devo começar a fumar, mas ele fuma. E nem pensa em deixar.

Os pais dizem sempre que devemos usar capacete ao andar de bicicleta, mas, quando os meus pais andam de bicicleta, nunca usam capacete.

A minha mãe zanga-se sempre quando está a falar e nós a interrompemos. Mas ela está sempre a interromper-nos, quando falamos.

Os idosos dizem sempre que são os jovens que devem cumprimentar e não o contrário. Mas, quando nós cumprimentamos muitos dos idosos da nossa vizinhança, a maior parte não responde, alguns até olham para o lado.

A minha mãe diz-me que não devo ver tanta televisão, mas ela vê muito mais do que eu.

Um professor disse-nos, uma vez, que não queria ouvir nunca a palavra "merda". Mas uma vez, quando tentava mostrar-nos um vídeo e a televisão não funcionava, berrou: "Mas que merda é esta?"

O meu pai diz: "Vai tirar a louça da máquina", ou "Vai ajudar a tua mãe!" Ele próprio, no entanto, nunca ajuda.

Nas minhas observações do dia-a-dia constato, muitas vezes, que há pais que julgam não precisarem de educar os filhos, limitando-se a dar-lhes um tecto e a alimentá-los.
Sirvamos de exemplo! E lembremo-nos, todos os dias, de que educar crianças não é nenhuma brincadeira de crianças!

15 de outubro de 2011

Humildade

Aprendemos, desde pequenos, que devemos ser humildes. O culto da humildade está muito enraizado na nossa cultura e tradição religiosa. Cristo é visto como o símbolo máximo da humildade, ao ter sido crucificado para salvar a Humanidade.

Mas não usaremos nós um conceito deturpado de humildade? Devemos subjugar-nos perante os outros, em todas as circunstâncias? Devemos atender mais às necessidades dos outros, do que às nossas? Ter os outros em melhor conta, do que nós próprios? E onde fica a auto-estima, a consciência do nosso valor e das nossas qualidades?


Na verdade, só quem possui auto-estima e uma personalidade forte tem algo para dar aos outros. Cristo, no fundo, é o melhor exemplo disso. Um homem servil, com tendência para a subjugação e sem poder de decisão, nunca seria capaz de arrastar multidões. Mesmo alguém como São Francisco de Assis teve de irradiar carisma e ser resoluto para convencer tanta gente a seguir o seu exemplo.

O Jornal do Bispado de Hildesheim diz-nos que a humildade deve expressar-se em respeito mútuo e, não, em servilismo. Mas a verdade é que a Igreja nos tem ensinado a sermos servis, sem respeito nenhum pelas nossas próprias necessidades.

Vejamos a seguinte passagem da Carta de S. Paulo aos Filipenses (2, 3-4): Nada façais por espírito de partido ou por vanglória, mas, com humildade, considerai os outros superiores a vós mesmos, sem atender cada um a seus próprios interesses, mas aos dos outros.

Isto pouco tem a ver com respeito mútuo, que implica que nos encaremos ao mesmo nível. Contudo, é interessante verificar que, na versão alemã, há uma pequena diferença no texto. Mantém-se o considerai os outros superiores a vós mesmos, mas diz-se: sem atender cada um apenas a seus próprios interesses, mas também aos dos outros (Jeder achte nicht nur auf das eigene Wohl, sondern auch auf das der anderen). Duas palavras acrescentadas, que fazem toda a diferença.

25 de setembro de 2011

Instituto para a Zoologia Teológica

A Igreja Católica alemã ocupa-se de temas como a defesa do meio ambiente e os direitos dos animais, o que eu considero ser uma boa forma de reinvenção, de provar a sua utilidade na sociedade actual. No Jornal Católico do Bispado de Hildesheim, li um artigo sobre o Instituto para a Zoologia Teológica (Institut für Theologische Zoologie), em Münster. O seu símbolo é uma imagem medieval, representando São Jerónimo, na companhia de um leão.



Um dos fundadores deste Instituto é o Padre Dr. Rainer Hagencord, que, já depois de ter sido ordenado, tirou os cursos de Biologia e Filosofia, com foco na Biologia do Comportamento. Interessou-se pelo diálogo interdisciplinar entre Teologia e Biologia, precisamente o tema em que se doutorou, com uma tese intitulada: "O Animal: um desafio para a Antropologia cristã" (Das Tier: Eine Herausforderung für die christliche Anthropologie).

O Padre Dr. Rainer Hagencord é um defensor da inclusão de animais na psicoterapia humana, como aliás vem sendo prática na Alemanha. Dos golfinhos, aos cavalos e aos cães, todos eles ajudam seres humanos a superarem doenças psicológicas e/ou deficiências. Está provado, por exemplo, que, em contacto com os animais, as crianças criam auto-estima e confiança em si próprias e nos outros. Aliás, a ideia de usar animais em psicoterapia vem dos anos 60. O psicólogo infantil Boris M. Levinson constatou que conseguia "alcançar" melhor um dos seus pacientes, uma criança desprezada e extremamente introvertida, quando esta levava o seu cão para as consultas.

A vantagem dos animais, segundo o Padre Dr. Rainer Hagencord, é que o encontro entre um humano e um animal acontece sempre para além do plano racional. Um cão encara todas as pessoas com as mesmas amizade e despreocupação e desprovido de preconceitos, esteja a pessoa doente, mal lavada e vestida, ou mesmo a babar-se. Porque o animal, através do contacto visual, reconhece a pessoa como um ser perante ele, como um "tu", nunca como uma "coisa", daí se poder estabelecer desde logo uma relação entre os dois.

Mas o Padre Dr. Rainer Hagencord vai mais longe, para falar na questão da alma. Na sua opinião, todos os seres vivos, pessoa ou animal, são providos de alma. Diz ele que a alma é o mistério do outro, uma aura que estabelece proximidade e confiança. Na tradição europeia, os animais foram esquecidos. Descartes via neles autómatos desprovidos de alma e Kant considerava-os coisas. Na Bíblia, no entanto, dá-se um outro valor à relação entre o ser humano e o animal e, mesmo, entre Deus e o animal. Para Jesus Cristo, os pássaros servem de exemplo e de modelo às pessoas. Por isso, na opinião do Dr. Rainer Hagencord, do ponto de vista bíblico, pessoas e animais são almas tornadas vida, São Tomás de Aquino disse mesmo que os animais vivem numa grande proximidade a Deus.

O Instituto para a Zoologia Teológica esforça-se por restituir a dignidade aos animais e, claro, combate o consumo desenfreado de carne, tão característico da nossa época. Este Instituto é muito considerado pelos bispos alemães, o jornal católico acima referido já por duas vezes lhe deu grande destaque, dignificando a imagem dos animais no nosso mundo, criado por Deus.

Brevemente, falarei na psicoterapia com a ajuda de cavalos e de Barney, um cão labrador-retriever que apoia os professores numa escola alemã.

10 de junho de 2011

Criancices, Bíblia & Felicidade

Há um lado infantil em cada um de nós que permanece ao longo de toda a vida, escreveu a Maria do Rosário Pedreira no seu blogue.

Como comentário, eu deixei: Quanto maior for a importância desse lado infantil na nossa vida, mais felizes somos. Já reparou na felicidade que sente quando faz uma criancice? Claro que não estou a dizer que se façam criancices a torto e a direito, temos o lado crescido que toma conta de nós. Mas deixemos o lado infantil imperar, sempre que seja possível (e não prejudiquemos os outros).

Quem vem seguindo estas Andanças, sabe que eu sou apologista de manter um diálogo com a nossa criança interior, a fim de tratarmos de nós próprios como gostaríamos que os nossos pais tivessem tratado de nós em criança (Kim-Anne Jannes).




Neste, como em muitos outros casos, podemos aprender com os cães. Tenham a idade que tiverem, desde que a sua condição física o permita, eles adoram brincar como se ainda fossem cachorrinhos. Sem preconceitos, sem recearem fazer figura de parvos, ou que os outros os tomem por infantis. Além disso, são sinceros, espontâneos, leais, fiéis. Bem hajam!


Na verdade, se nos atrevermos a fazer uma criancice, proporcionamos a libertação daquelas hormonas ou substâncias da felicidade, de que não me lembro agora o nome. Eu sei que o chocolate também o faz, mas o chocolate engorda!

Atitudes saudáveis são, por exemplo, brincar com os filhos a algo que sempre adorámos, na infância; ou desatar a dançar, se ouvirmos uma canção no rádio que costumávamos dançar na discoteca, quando éramos mais jovens; ou cantá-la bem alto. As crianças costumam ser assim espontâneas. Porque não seguir esse impulso? Se o fizermos, experimentamos uma sensação de felicidade dentro de nós, pode mesmo ser muito intensiva. Com a vantagem de que não engordamos. No caso da dança, até queimamos calorias ;-)






Daqui

Temos, cá em casa, duas versões da Bíblia, uma portuguesa e uma alemã. Numa das suas passagens mais conhecidas, a tradução não coincide a 100%, um aspecto, aliás, frequente. A tradução da Bíblia é um processo contínuo e há quase tantas versões, como publicações. Neste caso, acho que a pequena divergência faz mesmo a diferença.

Na portuguesa leio:

Deixai vir a Mim as criancinhas, não as afasteis, pois a elas pertence o reino de Deus. - Mc 10, 14b


Na alemã:


Deixai vir a mim as crianças; não as impeçais! Pois a pessoas como elas pertence o reino de Deus.
(no original: Lasst die Kinder zu mir kommen; hindert sie nicht daran! Denn Menschen wie ihnen gehört das Reich Gottes. - Mk 10, 14b).


Ora, se a diferença nas expressões "não as afasteis"/"não as impeçais", se revela irrelevante, o mesmo não acontece em "a elas pertence o reino de Deus"/"a pessoas como elas pertence o reino de Deus".

No primeiro caso, é-se levado a pensar que, para quem não é criança, a mensagem perde importância. Gera, apenas, condescendência por parte dos adultos perante as crianças, na pior das hipóteses, indiferença: para quê preocuparmo-nos com elas, se estão nas mãos de Deus?


No segundo caso, diz-se directamente que os adultos devem ser como as crianças. É uma diferença abismal, que influencia o nosso comportamento de maneira bem diversa.

 Preservemos, pois, o nosso lado infantil e deixemo-lo actuar, sempre que tivermos possibilidade!