Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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3 de dezembro de 2011

D. Mafalda de Sabóia (retrato de uma mulher medieval)

A única representação de D. Mafalda que encontrei

D. Mafalda de Sabóia (ou Matilde, ou ainda Mahaut, em fancês), a primeira rainha de Portugal, faleceu com cerca de trinta anos, a 3 de Dezembro de 1157, na sequência do parto da infanta D. Sancha.

Não se sabe bem quando nasceu, presume-se que teria de 18 a 20 anos, quando casou com D. Afonso Henriques, em 1146. Era filha do conde Amadeu III de Sabóia e de Mafalda (ou Matilde) de Albon. A família era muito devota, o pai participou em várias cruzadas e fundou muitos mosteiros, vários dos seus irmãos seguiram a vida religiosa. Mas Mafalda viu-se obrigada a partir para Portugal, uma terra de que ela talvez nunca teria ouvido falar, a fim de casar com o seu rei (sobre os motivos que levaram à escolha de D. Mafalda já aqui falei).

Este era, aliás, um destino comum para jovens da nobreza daquela época. Oficialmente, elas deviam dar o seu consentimento para a união matrimonial, a Igreja sempre fez questão de referir esse aspecto. Mas sejamos francos: quem era a jovem que se atrevia a discordar de seu pai, recusando casar com quem ele escolhera? Depois de terem passado toda a sua infância e parte da juventude a não se atreverem a contradizer os mais velhos e a nunca poderem expressar as suas preferências, não tinham meios para recusar qualquer proposta que fosse.




Esta imagem não tem nada a ver com D. Mafalda, mas gosto de a imaginar assim

D. Mafalda esteve doze anos casada com D. Afonso Henriques, deu sete filhos à luz e acabou por morrer dias depois do último parto. Dito assim, é uma história de vida bastante trágica. Teria sido feliz?

No meu romance, eu optei pelo "sim", depois de dificuldades iniciais. Uma das razões foi o facto de o número de filhos se adequar (por assim dizer) aos anos em que estiveram casados; a outra foi porque não se conhecem filhos ilegítimos do rei durante esses doze anos. A versão oficial é que D. Afonso Henriques teve dois filhos em solteiro e duas filhas depois de enviuvar.

O sucessor de D. Afonso Henriques, D. Sancho I, tinha apenas três anos, quando a mãe morreu, não se devia lembrar dela. Para não falar dos dois que nasceram depois dele. Dos sete filhos, aliás, só três chegaram à idade adulta: além do príncipe herdeiro, as duas filhas mais velhas, Urraca e Teresa.

Acabou por ser um destino bem medieval, este, da nossa primeira rainha. Infelizmente, as mulheres eram apenas meios para certos fins, não uma individualidade em si. Mesmo assim, houve quem se destacasse, como D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, que se intitulava "rainha",  o que leva muitos a considerá-la a primeira rainha de Portugal. E é verdade que, depois da morte de seu pai, o imperador da Hispânia, D. Teresa não mais prestou vassalagem ao rei de Leão.

O romance que estou, neste momento, a escrever é dedicado às mulheres medievais anónimas. Já era tempo!

16 de abril de 2011

A importância de D. Châmoa Gomes na vida de D. Afonso Henriques (III)



Com a liberdade que me dá a qualidade de romancista, Afonso Henriques viu, na vinda do cardeal Guido de Vico à Hispânia, uma oportunidade de conseguir autorização para casar com a sua amada Châmoa Gomes, como ele próprio lhe revela:


            Depois de se sentar e a encarar, achou-a mais apetecível do que nunca. A camisa de noite desenhava-lhe o contorno das pernas, ligeiramente afastadas. Os braços, agora pousados sobre o regaço, já não cobriam o peito e Afonso adivinhava-lhe os seios bonitos por entre as pregas do tecido. Precisou de um pouco de tempo para se concentrar e encontrar uma maneira de iniciar o seu relato:
            - Já deves ter ouvido dizer que receberemos, neste Verão, a visita de um legado do Papa Inocêncio II.
- Sim, as aias comentaram qualquer coisa. Porquê?
- O arcebispo, a quem tu chamas nomes tão feios, até acha que pode levar o cardeal a libertar-me do jugo de meu primo e...
            - Vens-me outra vez com o imperador e a homenagem? - interrompeu-o ela, levantando-se. - Arrancas-me da cama, a meio de noite, por causa dessa história?
            - Acalma-te, não tornes a acordar os pequenos! Senta-te e ouve-me até ao fim.
            Obedeceu-lhe, contrariada. Afonso olhou-a em silêncio durante algum tempo, antes de perguntar:
            - E se eu expuser a nossa situação ao cardeal?
            Châmoa escancarou as esmeraldas:
            - A nossa situação? Que queres dizer com isso?
            - Refiro-me a uma conversa a sós com o cardeal, em que lhe explico que a mãe dos meus dois filhos descende da família condal mais poderosa da Galiza. Guido de Vico compreenderá a urgência em legitimar as crianças. E se o conseguir pôr do meu lado, o arcebispo perderá qualquer poder de interferência!
            Châmoa fixava-o como se ele fosse um animal exótico. De repente, levantou-se de um salto e exalou, de respiração cortada:
            - Afonso, meu amor, mas isso é uma ideia brilhante!
            Estava tão encantadora, com as esmeraldas a luzirem de entusiasmo, os cabelos sedosos espalhados pelos ombros, o peito a arfar de excitação. Afonso manteve-se sentado, como se nada daquilo o impressionasse, e acrescentou:
            - A ideia só tem a desvantagem de ainda demorar a pôr em prática. Mas, dadas as circunstâncias, arranjarás mais um pouco de paciência, não é verdade?
            - Naturalmente.
            - Ainda há outra coisa que tens que levar em conta: só falarei com o cardeal, depois de o arcebispo ter resolvido a questão da minha vassalagem. Não pretendo arriscar de maneira nenhuma o sucesso do seu plano.
            - Como queiras... Conquanto me prometas que falarás com esse cardeal sobre nós, enquanto ele cá estiver.
            Afonso levantou-se, aproximou-se dela e puxou-a para si. Desta vez, ela não ofereceu resistência. Como era bom tornar a senti-la assim abandonada nos seus braços, cheirar-lhe os cabelos sedosos e o pescoço macio.

Mas o arcebispo de Braga, seu grande amigo, D. João Peculiar, antecipou-se-lhe, negociando, com o cardeal, o casamento com D. Mafalda (ou Matilde) de Sabóia:




            Guido de Vico bocejou:
            - Com isto, despachámos os assuntos do dia, não é verdade?
            - Bem… - João Peculiar tossicou. – Desejava a vossa colaboração para mais uma questão, eminência.
            Guido de Vico passou a mão pela testa, num gesto de impaciência. Mas, em seguida, cruzou as mãos sobre a barriga e anunciou:
            - Sou todo ouvidos.
            - Trata-se do matrimónio de D. Afonso Henriques.
            O cardeal permitiu-se uma expressão de espanto, ao erguer as sobrancelhas.
            - Do matrimónio?
            - Já ouvistes certamente dizer que ele tenciona casar com a sua barregã.
            - Sim. Mas também me chegou aos ouvidos que essa... senhora, que já lhe deu dois varões, tem origem nobre.
            - É verdade - admitiu o arcebispo a contragosto. - É filha do antigo conde de Toroño, que, humilhado pelo imperador, acabou por professar no mosteiro beneditino de Pombeiro. E, pelo lado da mãe, é sobrinha do conde de Trava, o nobre mais poderoso da Galiza.
            - Ora, caro arcebispo, sei que sois muito cioso dos vossos deveres. Mas nós prelados também não nos devemos afastar demasiado do mundo terreno. Bem sabeis que uniões desse tipo são toleradas pela Igreja e D. Afonso estaria longe de ser o primeiro monarca a fazer um casamento desses. Até vos digo: os dois pequenos deviam ser legitimados o mais depressa possível, a fim de assegurar a descendência do pai.
D. João Peculiar sentiu um calafrio, mas manteve a pose:
            - Nada poderia ser mais desvantajoso para el-rei de Portugal do que uma união matrimonial com uma parenta dos Trava. Eu diria até que seria uma verdadeira tragédia!
            O arcebispo explicou toda a situação, sem se esquecer de mencionar as razões que sustentariam uma anulação do matrimónio.
            Guido de Vico reflectiu, tornou a passar a mão pela testa, enfastiado, e acabou por dizer:
            - Não estou em condições de julgar o caso, assim de repente. Terei que confiar no vosso juízo. Se dizeis que a união é inconveniente... pois será. No entanto, continuo a não perceber em que vos possa ser útil.
            - Sou de opinião que D. Afonso devia casar com uma donzela, cuja família estivesse livre de quaisquer influências do poder imperial hispânico, a fim de melhor marcar a distância que obterá ao confiar-se à Santa Sé. Vós, eminência, conheceis as famílias mais nobres da Cristandade. Não poderíeis dar uma sugestão que fosse?
            - Eu? Bem... talvez. Mas porque haveria D. Afonso, que já não é nenhum jovem imberbe, de casar com uma dama proposta por mim?
            - A libertação da suserania do imperador depende de vós, não é verdade? Digamos que, a fim de a merecer, ele teria que fazer certas concessões... Por exemplo, que Roma se reserve o direito de decidir sobre quem deverá ser a futura rainha de Portugal. - Depois de uma pausa: - Peço-vos que considereis este assunto, eminência! Nem imaginais o peso que me tiraríeis dos ombros.

O cardeal acaba por propor a união com a filha do conde Amadeu III de Sabóia.

Em breve, D. Châmoa Gomes se haveria de afastar da vida de D. Afonso Henriques, deixando-lhe, no entanto, dois filhos, que teriam sido criados na corte coimbrã. O mais velho, Fernando Afonso, terá até lutado pelo seu direito de suceder ao pai. Na sua biografia de D. Afonso Henriques, o Prof. Mattoso fala-nos na existência de tensões e conflitos, talvez mesmo conflitos graves, entre o herdeiro D. Sancho e o meio-irmão Fernando Afonso, pois a derrota e a diminuição física de Afonso Henriques no desastre de Badajoz criaram no reino um ambiente de apreensão.

Mas isso só aconteceria quase trinta anos depois do Tratado de Zamora, o próximo assunto de que aqui falarei.

14 de abril de 2011

A importância de D. Châmoa Gomes na vida de D. Afonso Henriques (II)

Para o meu romance, eu não podia deixar de pegar na ideia de que D. Afonso Henriques terá tentado casar com D. Châmoa Gomes. Estava apaixonado, ela pertencia à alta nobreza galega e, além disso, tinham, pelo menos, um filho: Fernando Afonso. Terão tido um outro, Pedro Afonso, mas há fontes que identificam este nome com um meio-irmão do nosso primeiro rei.




Aos barões portucalenses não agradava tal casamento. As razões são referidas numa conversa entre D. Egas Moniz e D. João Peculiar, arcebispo de Braga:


            - Estamos, porém, todos de acordo, em que D. Afonso não deve casar com D. Châmoa Gomes, não é verdade?
            - Aqui para nós, eminência, não seria melhor?
- Pelo amor de Deus, D. Egas!
- Rendamo-nos à evidência! Afinal, D. Châmoa é filha e sobrinha de condes. Deu a D. Afonso um menino forte e saudável e o segundo filho vem a caminho... É capaz até de já ter nascido, enquanto aqui conversamos.
- O herdeiro de D. Afonso Henriques não pode ser um sobrinho do conde de Trava! Morresse o soberano nos próximos tempos (Deus nos livre de tal destino), os Trava logo tratariam de manter o pequeno Fernando sob a sua influência. Um casamento destes tem que ser evitado a todo o custo!
            - Mas como conseguiremos mudar os intentos do próprio D. Afonso?
            O arcebispo reduziu os olhos perspicazes a duas linhas e retorquiu:
            - Talvez nem seja tão difícil quanto isso.
            - Não? D. Châmoa pode levá-lo a fazer um casamento clandestino. E o que Deus uniu...
            - Pode tornar-se a separar!
            - Que dizeis, eminência?
            - A Igreja tem o poder de anular uniões matrimoniais. Neste caso, haveria até duas razões de peso. Em primeiro lugar, podia-se invocar o incesto...
            - Santo Deus!
            - O incesto vai até ao sexto grau de parentesco, D. Egas! D. Châmoa é sobrinha de D. Fernão Peres, que viveu numa união de facto com D. Teresa. O que faz dele o padrasto de D. Afonso Henriques. E faz primos dos dois amantes!
            O arcebispo fez uma pausa, a fim de beber mais um pouco de água, e prosseguiu:
            - Vejamos agora a segunda razão de peso: à morte de D. Paio Soares da Maia, D. Châmoa ingressou no convento beneditino de Vairão, à semelhança de muitas viúvas nobres…
            - Oh sim, com as consequências que se conhecem. Viúvas novas e, acima de tudo, bonitas não se deviam precipitar.
            - O mais importante é que, por pouco tempo que fosse, D. Châmoa se fez monja. Qualquer casamento lhe está proibido! E não esqueçamos que deixou o mosteiro para se amancebar ao senhor de Tougues. Este motivo, por si só, não seria impeditivo de uma nova união matrimonial. Mas, entre nós, D. Egas, quereremos nós ver uma dama de passado tão pouco recomendável ocupar o trono de Portugal? Porque é de um trono real que se trata! Embora não reconhecido oficialmente, D. Afonso vem-se intitulando rei há mais de um ano.
            Egas remeteu-se ao silêncio e, depois da curta pausa, o clérigo acrescentou:
            - D. Châmoa que construa as suas armadilhas! Não é ela que me tira o sono. O verdadeiro problema assenta no facto de D. Afonso nem se preocupar em procurar uma noiva apropriada... e o tempo vai passando.
            - O nosso rei meteu-se numa bela alhada. Com uma parenta dos Trava! Muitas vezes, penso ser esta uma maldição que a própria mãe lhe lançou.

Fiz, por isso, de D. João Peculiar, arcebispo de Braga e grande amigo e colaborador de D. Afonso Henriques, o opositor mais acirrado do rei nesta questão. E liguei o assunto a mais dois, de elevada importância: o Tratado de Zamora e o casamento do monarca com D. Mafalda de Sabóia. D. João Peculiar terá pensado encontrar a solução do problema na vinda do Cardeal Guido de Vico à Hispânia, em 1143. A intenção do legado papal é participar em dois concílios, um em Valhadolid e outro em Girona, mas também servirá de mediador num tratado a assinar entre Afonso Henriques e o imperador, em que este reconhecerá o título real ao primo. Falo do Tratado de Zamora, assinado a 5 de Outubro de 1143.




Mas o que tem tudo isto a ver com D. Châmoa Gomes e o casamento do rei com D. Mafalda? A ideia foi-me "dada" pelo Prof. Joaquim Veríssimo Serrão, que, na sua História de Portugal (Editorial Verbo), nos diz que poderá ter sido o cardeal Guido de Vico quem advogou, junto de Afonso Henriques, o casamento com a filha do conde Amadeu III de Sabóia. E como se lembraria o cardeal de fazer uma coisa dessas? Talvez o arcebispo de Braga lhe tivesse pedido para o fazer, a fim de acabar, de vez, com o problema chamado D. Châmoa Gomes.

Para apimentar mais o meu romance, Afonso Henriques, que não fazia ideia dos planos do seu amigo arcebispo, terá, ele próprio, visto na vinda do cardeal uma oportunidade de conseguir autorização para o casamento com a sua amada.

Mais no próximo post.