Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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14 de julho de 2012

Guimarães e Lisboa



É lindíssima, a moeda de 2 euros dedicada à "Guimarães 2012 - Capital Europeia da Cultura". Porém, e sem querer desprestigiar o excelente trabalho de José de Guimarães (também se chama Guimarães, que giro), confesso que a representação de D. Afonso Henriques me fez lembrar as figuras que enfeitam a estação de Metro do Martim Moniz, em Lisboa.


As fotografias foram tiradas em Novembro de 2007. Depois de termos passado duas ou três vezes por esta estação, não resistimos a parar, para fazer o registo das imagens. Estivemos cerca de 20 minutos naquilo, deixando passar duas ou três oportunidades de continuar a viagem. Enfim, de férias, há que arranjar tempo para coisas assim. Os restantes utentes do Metro, ou nos olhavam surpreendidos, ou sorriam, condescendentes, como quem diz: "Estes turistas..." (É que eu, com o meu marido ao lado, também passo por estrangeira. Já assisti, várias vezes, a expressões estupefactas, quando, por qualquer motivo, falo português com alguém).





D. Afonso Henriques
(aspeto curioso: é o único guerreiro com um olho; "quem tem olho, é rei", pois...)








Cruzados (embora se faça a habitual confusão entre cruzados e Templários. Mas, para o caso, não é relevante)





D. João Peculiar (arcebispo de Braga) e D. Pedro Pitões (bispo do Porto)








O herói, Martim Moniz, criado em consonância com o cartaz que previne sobre o perigo de se ficar entalado na porta do Metro. Genial!




 
E nem se esqueceram de homenagear os cavalos.
Bonito!


7 de outubro de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa XI

Em Miniatura
        

           A 25 de Outubro, Afonso tomou posse de Lisboa, já a população moura havia entregue os seus haveres e as suas casas aos cristãos. No cimo da torre de menagem, o rei mandou içar o estandarte com os escudetes azuis em forma de cruz e ainda erigir uma grande cruz de madeira. Descido aos jardins da alcáçova, dirigiu-se à porta onde Martim Moniz tinha morrido entalado e ordenou que se gravasse, naquele lanço de muro, o nome e o retrato do herói.
            Junto à mesquita aljama, anunciou a conversão desta em Sé catedral. A 1 de Novembro, dia de Todos os Santos, D. João Peculiar presidiria à sua solene purificação. E, para bispo da nova diocese, Afonso nomeou o prelado inglês Gilbert de Hastings, que agradeceu, emocionado.
            Aos cruzados ali reunidos, o rei comunicou ainda os seus planos de extensão das duas capelas construídas junto aos cemitérios. No oriental, onde estavam enterrados os alemães e flamengos, mandaria construir um mosteiro, que se chamaria de São Vicente e para onde seriam trasladados os restos mortais do santo. A capela junto ao outro cemitério, a ocidente da cidade, onde repousavam os corpos dos ingleses e franceses, seria transformada numa igreja, que se chamaria dos Mártires.



5 de outubro de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa X

Lisboa mourisca, por Martins Barata


D. Afonso Henriques negociou a entrega de Lisboa com o alcaide mouro e fez questão de que não se vertesse mais sangue. Mas a população moura foi expulsa das suas casas e obrigada a entregar todos os seus haveres aos conquistadores cristãos.


            Esta era a segunda noite em que ninguém dormia na casa de Aischa.
            Haviam passado a anterior aterrorizados, enquanto os cruzados saqueavam a cidade. Felizmente, não tinham vindo todos, o que poupou algumas casas à loucura. Uns quantos ainda tentaram arrombar a porta de Malik Ibn Danaf, mas nessa altura já a milícia punha fim à matança, permitindo que Aischa e os seus ficassem pelo susto. O que os levava a pensar que a sua família, por alguma razão, se encontrava sob a protecção especial de Alá, pois fora uma das poucas que sobrevivera completa ao cerco.
            Nesta noite, de 23 para 24 de Outubro, reuniam todos os seus pertences, para que o mercador e os seus dois filhos os fossem depositar aos pés dos novos senhores de Lušbūna. Como ficara acordado entre o rei português e o alcaide, um contingente de trezentos cristãos ocuparia pacificamente a al-qasbâ, logo pela manhã, a fim de confiscar todos os haveres dos mouros e dos judeus. A cidade seria em seguida inspeccionada e, se algo mais fosse encontrado, sem ter sido entregue ou declarado, o dono da casa onde fosse feito o achado pagaria com a vida.
            (...)
            De tarde, vieram quatro cristãos armados inspeccionar a casa. A família e a criadagem estavam reunidas no jardim e, apesar de as vestes das mulheres serem de linho grosseiro ou de burel e de os véus só lhes deixarem ver os olhos, os soldados miraram-nas cheios de cobiça.
            (...)
            Antes de mandarem a família embora, os ocupantes informaram ainda que os cristãos pertencentes à criadagem eram livres de ficarem na cidade. A maioria, no entanto, não tencionava desligar-se da família do mercador. Sem posses, receavam ficar entregues à sua sorte. Eram moçárabes e os portugueses vindos do norte olhavam-nos com desconfiança. Além disso, sabiam que o seu patrão receberia a ajuda do irmão rico de Batalyaws. 
             Aischa sentia-se capaz de matar os quatro estranhos, que olhavam trocistas para aquela que fora uma das famílias mais ricas de Lušbūna e que agora se afastava, depauperada e de cabeça baixa. Nem sequer o seu único burro de carga que sobrevivera ao cerco podiam levar. Transportavam eles próprios a escassa roupa e algumas peças de louça barata, com que tinham sido autorizados a ficar.

            Malik Ibn Danaf e os seus juntaram-se aos outros, judeus incluídos, que se dirigiam com as suas trouxas às portas ocidentais de Lušbūna. Mas, enquanto os judeus saíam pela bâb al-hadîd, a Porta do Ferro, a fim de ocupar o seu bairro a sudoeste da cidade que haviam deixado no início do cerco, os muçulmanos dirigiam-se à bâb al-khawkha, na intenção de se aquartelarem nas casas vazias do bairro de Alcamim, pois grande parte dos seus habitantes havia perecido. Muitos mouros tencionavam partir, mas para alguns as perspectivas noutro lado não seriam melhores do que as que ali teriam.



3 de outubro de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa IX

Ilustração de Jorge Miguel

D. Afonso Henriques negociou a rendição com o alcaide mouro de Lisboa. Não haveria saque, os habitantes muçulmanos e judeus deveriam sair da cidade, aquartelando-se fora de muros, e não se verteria mais sangue. O alcaide e o seu genro eram autorizados a manter as suas posses. O rei português adivinhava problemas, pois sabia que os cruzados não prescindiriam do saque.


            Apesar do sucesso desta conversa, Afonso regressou ao acampamento preocupado. Receava a reacção dos cruzados, assim que soubessem que ele não satisfaria algumas das suas exigências. Os ânimos tinham estado exaltados nas últimas horas e começava-se novamente a falar no tesouro, que estaria enterrado na cidade.
            A reacção não se fez esperar. Alemães e flamengos insistiam em que os portugueses pouco tinham contribuído para a vitória, o que, no seu entender, não dava ao rei o direito de negociar sozinho com os mouros, roubando-lhes aquilo que lhes prometera. Muitos deles entraram nessa noite em Lisboa e espalharam o horror, saqueando, matando e violando.
            Afonso fervia na sua fúria. Ainda mais, quando soube que, aqueles que não davam largas aos seus instintos mais ferozes intra-muros, tinham o desplante de pretender atacar o acampamento português! Mandou chamar Arnulf de Aarschot e Christian de Gistell, que surgiram acompanhados de um prelado flamengo. 




Vendo-se numa situação crítica, D. Afonso Henriques optou por uma solução radical, lançando um ultimato aos cruzados, dando o tudo por tudo.


           Estabeleceu-se um silêncio perplexo. Afonso respirou fundo, controlando a sua fúria. Urgia pôr fim àquela situação, que ameaçava a vitória. Um ataque dos cruzados ao acampamento português seria o início de uma catástrofe. As hostes cristãs envolver-se-iam em lutas sangrentas, das quais só sairia um vencedor: a mourama!
O rei só viu um caminho para sair desta crise, um caminho deveras arriscado:
            - Se não fordes capazes de acabar com os motins, partirei, ainda antes do nascer do sol, com todo o meu exército, abandonando-vos à vossa sorte. Que eu prefiro prescindir de Lisboa, a quebrar os acordos firmados com o alcaide!
            Depois da tradução, Christian e Arnulf fixaram-no assombrados. O semblante de Afonso mantinha-se impassível, fazendo-os acreditar que ele realmente renunciaria a Lisboa, caso não pudesse manter a palavra dada. Na verdade, Afonso perguntava-se se teria ido longe demais.

Os cruzados aceitam, por fim, subjugar-se ao monarca português.


           Aos estrangeiros assomava-se arriscado ficarem entregues a si próprios perante os mouros, que lhes poderiam tornar a fechar as portas da cidade, forçando-os a partir para a Terra Santa de mãos a abanar. E os que haviam decidido ficar em Portugal sonhavam com os senhorios que o monarca lhes prometera.
Todos os cruzados juraram, no dia seguinte, 23 de Outubro, fidelidade a D. Afonso Henriques e aceitaram o acordo que ele havia estabelecido com o alcaide. Porém, a devastação, que muitos deles haviam provocado na noite anterior, já ninguém podia emendar. Inúmeros moçárabes, até o seu bispo, pereceram às espadas dos cruzados em fúria. Assim mataram eles os seus irmãos de fé, que tinham vivido em paz sob a regência dos muçulmanos.
            Um tesouro não foi encontrado.

15 de setembro de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa VIII


O ponto de viragem nos acontecimentos acabou por acontecer já em meados de Outubro, quando os cruzados alemães e flamengos alcançaram os fundamentos das muralhas do lado oriental, através de um túnel que os muçulmanos não lograram destruir. Um ataque foi preparado.


            Junto com Arnulf de Aarschot e Christian de Gistell, Afonso e os seus barões posicionaram-se no cimo da colina oriental, de maneira a poderem observar os acontecimentos, que decorreriam na zona do arrabalde, entre as portas al-maqbara e al-hamā.
Os ingleses e franceses já tinham começado o seu ataque no lado ocidental, fazendo com que os mouros concentrassem aí forças, e os cruzados flamengos e alemães esperavam que o fogo, por baixo dos fundamentos ocos da muralha, tivesse o efeito desejado.
            Todos observavam suspensos as muralhas que se erguiam no cimo do morro, por detrás do arrabalde... Até que estas, debaixo de um grande estrondo, ruíram, abrindo uma brecha de uns quinze passos de largura. Lançando os seus berros de guerreiros, os cruzados precipitaram-se colina acima. Só quando a nuvem de pó e terra, provocada pelo ruir dos muros, se começou a dissipar, é que o rei e os seus acompanhantes puderam seguir as lutas sangrentas que se travavam.
            A esperança depressa se desvaneceu. O estrondo da queda das muralhas tinha feito ruir muitas das casas de taipa do arrabalde vazio e, por entre as vielas estreitas, os destroços dificultavam o escalar do cerro. Os mouros, apesar de terem que defender a brecha, encontravam-se na posição mais alta e lograram, mais uma vez, pôr os cruzados em fuga.
- Outro combate perdido - murmurou Afonso entre dentes. Mas, sentindo a frustração à sua volta, disse alto: - Este ataque serviu para enfraquecer ainda mais o inimigo. Que há-de vergar os joelhos! Todos sabemos que receia a vinda do Inverno.
            - Mais do que nós? - retorquiu Arnulf de Aarschot irónico.
Depois de ter obtido a tradução destas palavras, o rei replicou, antes de lhe virar as costas:
            - Em vez de me lançardes olhares descontentes e palavras pessimistas, devíeis rezar para que eu tenha razão.




           Seria por falta de preces que os acontecimentos continuavam a correr em desfavor do monarca português? Apesar de várias ofensivas por parte dos cruzados na zona do arrabalde oriental, os mouros conseguiram tapar a brecha nas muralhas com uma paliçada de madeira.
A 19 de Outubro, a tão esperada torre de assédio ficou finalmente pronta. Coberta pelas peles húmidas, foi deslocada à volta da torre albarrã, na ponta sudoeste de Lisboa. O seu objectivo era novamente o cimo das muralhas por sobre o pequeno postigo que dava acesso à praia.
Os atiradores de arco ingleses, no alto do engenho, apoiados pelos seus companheiros das naus, conseguiram uma primeira vitória: os mouros posicionados na torre albarrã precipitaram-se por sobre o passadiço muralhado, refugiando-se na cidade.
Não obstante, a torre dos ingleses deslocava-se a passo de caracol, por sobre a areia. Talvez por isso os mouros tenham arriscado um ataque através do postigo. Saíram para a praia e caíram em cima dos cruzados, dando início a uma das lutas mais ferozes do cerco. Sabres penetravam nos corpos, machados abriam crânios e, misturada com o sangue, a areia transformava-se numa massa vermelha e pegajosa, envolvendo os cadáveres, sobre os quais os combatentes tropeçavam.
Passado o primeiro momento de surpresa, os cruzados ganharam vantagem e forçaram os mouros a recuar. Destes, os que conseguiram alcançar o interior das muralhas, logo trancaram o postigo, deixando os seus companheiros à mercê dos cristãos, que, atacados pela febre da chacina, só descansaram quando já não havia um único mouro vivo.
            Porém, e apesar de imune às setas incendiárias, só dois dias mais tarde, a 21 de Outubro, a torre móvel alcançou as muralhas.
- Os soldados preparam-se para lançar a ponte que ligará o cimo da torre ao adarve - informou um mensageiro. - A invasão da cidade pode acontecer a qualquer momento.
            Mas logo surgiram perante o rei e os seus barões guerreiros ingleses aos berros. Falavam todos ao mesmo tempo, gesticulando como doidos. Afonso exigiu a presença de Hervey de Glanville, que, com a ajuda de um tradutor, informou que os mouros tinham baixado as suas armas, assim que a ponte de ligação tocara o cimo dos muros e antes que um só único cruzado pudesse saltar para o adarve. Os infiéis solicitavam tréguas. Mas só negociariam com Ibn Errik!


Descontentes com o facto de os mouros só negociarem com D. Afonso Henriques, os cruzados iniciaram uma série de motins, que quase deitaram tudo a perder, quando Lisboa estava já praticamente nas mãos do rei português.

13 de setembro de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa VII


Os cruzados construíram várias minas, a fim de atingirem os fundamentos das muralhas, mas os mouros, adivinhando em que direcção eles cavavam, construíam contra-minas, fazendo desabar as do inimigo, ou atacando-os nos corredores estreitos. O cruzado Konrad vê-se nessa situação:


           Deu meia-volta. As velas ao longo da mina, que ainda não se tinham apagado com a deslocação do ar, chegavam para ver o vulto do inimigo de espada em punho, envergando uma cota de malha e segurando um escudo redondo na mão esquerda. Konrad lançou-se a ele com um grito de raiva, tentando atingi-lo na cabeça com a sua espada que segurava com as duas mãos. O mouro, que não contava com ataque tão repentino, quase caiu, mas teve o reflexo de levantar o escudo, contra o qual bateu a arma de Konrad. E logo respondeu ao ataque.
            Konrad defendia-se como podia, em clara situação desvantajosa, por não estar tão bem armado. Não aguentaria muito tempo. Deu-se entretanto conta de que se formara um grande espaço entre ele e os que fugiam à sua frente. Assim que a luta o permitiu, tornou a virar-se e correu o mais que podia. Quanto faltaria até chegar ao fim do túnel? Tinha perdido qualquer noção de espaço. E quando se aproximou dos seus companheiros em fuga, mais lentos, teve de se lançar mais uma vez à luta.
            O mouro era ágil e rápido, Konrad sabia que dificilmente lhe poderia causar ferimentos letais. Além disso, via-se obrigado a usar a sua própria espada mais como arma de defesa do que de ataque. As forças começaram a faltar-lhe, mas entretanto os seus companheiros tinham-se tornado a distanciar. E o túnel haveria de chegar ao fim.
            Desta vez, revelava-se-lhe difícil arranjar uma oportunidade para virar costas à luta. Arriscou um ataque, descurando a própria defesa. Deu certo: o mouro teve que cobrir a cabeça com o escudo e Konrad aproveitou para lhe virar as costas. Mas não foi suficientemente rápido. O outro avançou de espada em punho e atingiu-lhe o braço. A dor lancinante fez com que as pernas de Konrad lhe fraquejassem. Mas, se ali caísse, era o seu fim. O desespero deu-lhe forças que ele não imaginava ter e viu-se a correr a toda a velocidade.
            O sangue escorria-lhe do braço direito e a dor roubava-lhe o discernimento. Não fazia ideia se já estava perto dos seus companheiros, nem se o mouro o alcançava. Ficou tonto, sentia-se desmaiar. Já não corria, cambaleava de encontro às paredes da mina… Até que caiu ao chão.

Konrad consegue salvar-se, pois os mouros, depois de atacarem os cruzados, regressavam à segurança das muralhas. Nesse dia, dá-se o episódio de Martim Moniz, celebrado, pelos portugueses como o maior herói do cerco.


            Já comiam, quando Konrad comentou:
            - Mais uma mina que falhou.
            - Quem haveria de dizer que os mouros resistiriam tanto tempo? - replicou Gunther.
            - E hoje não deram só cabo do nosso túnel - acrescentou Hadwig. - Também neutralizaram um ataque português à alcáçova.
            - É mesmo? - admirou-se Konrad. - Os portugueses tornaram a trepar às muralhas?
            - Não - respondeu Johann. - Desta vez atacaram a porta perto da torre da cisterna.
            - E o que é que falhou?
            - Ainda não sabemos - respondeu Hadwig. - Mas, ou muito me engano, ou os nossos dois amigos nos virão informar, depois da ceia.
            Assim aconteceu. Julião e Tomé vinham agitados, clamando que naquele dia tinha morrido um herói! Contaram uma história curiosa sobre um grupo de portugueses que, ao notarem que os mouros tentavam fazer uma surtida pela porta da alcáçova, os atacaram. Ao verem-se descobertos, os muçulmanos logo regressaram ao seu refúgio. E preparavam-se para fechar a porta, quando um cavaleiro português, de nome Martim Moniz, não se conformando com o desfecho da refrega, se precipitou sozinho para o meio dos infiéis. Ao mesmo tempo que lutava com uma horda deles, assim contavam Julião e Tomé, atravessou-se na porta, impedindo que esta se fechasse e permitindo que alguns dos seus companheiros entrassem na alcáçova…
Acabou por morrer esmagado. Julião e Tomé juravam que o seu acto servia de exemplo a todos os guerreiros. Os dois estavam convencidos de que, durante todo o cerco, ainda não houvera um herói como Martim Moniz!
            A Konrad, que naquele dia também enfrentara perigos, salvando vários companheiros da morte certa, não lhe apetecia continuar a ouvir os elogios com que os dois portugueses enchiam o tal cavaleiro. Sentindo-se com forças, depois de matar a fome, levantou-se, lançou a sua capa pelos ombros e, com o punhal enfiado no cinto, caminhou até à margem do rio.


Na verdade, os cruzados achavam que os portugueses pouco contribuíam para o cerco, o que, no fim, quando a cidade já estava praticamente rendida, causou alguns problemas a D. Afonso Henriques, como veremos.

11 de setembro de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa VI

Ilustração de Jorge Miguel

Uma cena de A Cruz de Esmeraldas, quando já se passava fome na cidade:


            Aischa não conseguia adormecer. Esperou que as outras mulheres se deitassem para se escapulir para o jardim. Chegada ao repuxo, que, nestes tempos, não era posto a funcionar, sentou-se no chão, encostada à fonte de pedra, e deixou correr as lágrimas.
            Este dia de início de Setembro tinha sido um dos mais difíceis, desde que o cerco começara. Não que os cruzados tivessem levado a cabo algum ataque mais forte, mas Abdalah morrera, sem parar de balbuciar que o fim do mundo estava próximo.
            (...)
            Abdalah morrera na certeza de que se reencontraria com o seu pai, no Paraíso de Alá, onde reviveria o esplendor do califado de al-Andalus. Mas Aischa arrepiava-se, ao pensar que o cadáver seria devorado pelo fogo, sem lhe fazerem o funeral. Esta era, no entanto, a melhor solução, pois o almocavar estava inalcançável.
Nem todos os cadáveres, porém, tinham tal destino. Morria tanta gente, que era impossível queimá-los todos e havia, além disso, o medo de incêndios. Assim se iam os corpos empilhando pelas ruas, lançando o seu odor pestilento. Doenças iam-se espalhando, o número de feridos em combate aumentava de dia para dia e houvera necessidade de improvisar um hospital na mesquita aljama. Agora, havia quem dissesse que seria melhor levar para lá também os cadáveres, a fim de evitar a propagação de mais doenças. Aischa, porém, atormentava-se com a ideia de que se chegasse ao ponto em que ninguém se prontificasse a ir tratar dos doentes que lá estavam, devido ao cheiro, deixando-os para lá a agonizar.
            Também ela e a sua família se arriscavam a morrer de fome. As refeições eram cada vez mais parcas. O pai dela possuía burros de carga e dois cavalos, mas nenhuns animais de criação. Sempre comprara a carne de cabrito, a mais apreciada entre os mouros, aos aldeões das redondezas. Muitos desses pastores haviam procurado protecção entre as muralhas, trazendo alguns animais, mas já quase não havia nenhum. Também as galinhas desapareceriam antes de começar o Inverno e os pescadores não podiam sair para deitar as suas redes ao rio.
            Ainda se poderiam alimentar dos burros ou dos cavalos, em último caso de cães e gatos. Já havia quem o fizesse e o estômago de Aischa revoltava-se perante tal pensamento. Felizmente, eles ainda tinham alguns grãos de trigo, frutos secos e azeite na cave, mas já eram racionados, o que não causava apenas problemas na alimentação. Os candis que antigamente se encontravam por toda a casa em nichos nas paredes, iluminando os quartos, corredores e até o jardim, limitavam-se agora às divisões onde estivessem pessoas.
Os dias iam ficando mais pequenos, a escuridão, a tristeza e a pestilência apoderavam-se de Lušbūna, outrora a cidade-luz.
            Aischa chorou até não ter mais lágrimas. Se não fosse tão tarde, iria buscar o seu alaúde e cantaria a melancolia que lhe atormentava a alma. Assim, fechou os olhos e começou a compor em silêncio uma cantiga sobre a Lušbūna que desaparecia: a multidão a regatear preços no suq, à sombra das coberturas de pano ou das esteiras de esparto, que se estendiam entre as casas, protegendo as ruelas do sol abrasador; o aroma da canela e dos cominhos, vindos de outras terras do Islão, através do Mar Mediterrâneo; o peixe prateado nos cestos dos pescadores; as lojas dos prateiros e dos ourives, das sedas e brocados, junto à bâb al-hammā
            Viu-se no meio da loja movimentada do pai, que lhe dizia:
            - Precisas de tecidos? Escolhe o que quiseres, minha filha!
            A frescura das sedas deslizava-lhe por entre os dedos…
            Um sopro de vento fez-lhe chegar um odor pestilento às narinas, um gemido de dor fez-se ouvir ao longe, trazendo a moça de volta à realidade, ao seu canto escuro. Lušbūna nunca mais será a mesma, pensou, e eu não tornarei a ser feliz. Mais vale morrer antes que os cruzados tomem a cidade e comecem a saquear, a matar os homens, a violar as mulheres…

Lisboa Mourisca, por Martins Barata

4 de setembro de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa V

Esquema de trabuco, usado na conquista de Lisboa; retirado de Conquista de Lisboa, Pedro Gomes Barbosa (Tribuna da História, 2004; Colecção Batalhas de Portugal)

 Modelo de torre, utilizado no assalto a Lisboa (retirado do mesmo livro).

Durante o mês de Julho, os cruzados construíram máquinas de guerra: torres de assédio e trabucos. As hostilidades abriram-se a 3 de Agosto. Aqui, o ataque sob a perspectiva do cruzado Konrad e de seu irmão Johann, em A Cruz de Esmeraldas:


            Para melhor se protegerem, os cruzados haviam construído paliçadas à volta das fundas baleares. As suas vestes acolchoadas, chamadas gibões, não resistiriam a um tiro certeiro de besta, que poderia mesmo perfurar a cota de malha de Konrad. A besta era bem mais eficaz do que o arco. Apesar de a sua cadência de tiro ser lenta, pois demorava a carregar, os projécteis atingiam distâncias mais longas e tinham muito maior poder de penetração.
            (...)
            - Que diabo - soltou Gunther. - Os mouros atacam-nos sem descanso!
            Konrad também se admirava com isso, pois os besteiros precisavam de um certo tempo para carregarem as suas armas e fazerem pontaria. Os mouros, porém, pareciam incansáveis, apesar de se encontrarem sob o ataque dos pedregulhos. As suas setas espetavam-se nas paliçadas e uma ou outra encontrava mesmo o seu caminho por cima destas, provocando baixas entre os cruzados.
            - Esperemos que os ingleses alcancem depressa as muralhas com a sua torre - disse Hadwig. - Que saltem lá para dentro e acabem com o diabo dos besteiros!
            - Pois ainda não há sinal deles por sobre o adarve - retorquiu Konrad.
            Preparavam-se para lançar mais um pedregulho, quando ouviram os gritos dos seus companheiros que operavam outro dos cinco trabucos. Depressa descobriram o motivo de tal arraial: a paliçada deles ardia!
            - Mas que raio… - começou Gunther, quando um dos homens gritou:
            - Os mouros disparam setas incendiárias!
            - Abrigai-vos! - berrou Konrad, ao ver várias dessas setas virem na direcção deles.
            Todos se baixaram. A maioria dos projécteis espetou-se na paliçada, mas um deles atingiu o trabuco, pegando-lhe o fogo.
            - Dão-nos cabo dos engenhos - lamentou Johann.
            Depois do trabalho que tinha dado a construí-los, a ideia de os ver consumirem-se à sua frente anulou o medo, começou-se a gritar:
            - Água, depressa!
            Muitos dirigiram-se com os seus cantis ao rio, outros prontificaram-se a ir buscar recipientes maiores ao acampamento. Porém, ao deixarem os seus abrigos, ficavam, mais do que nunca, à mercê das setas mouras. Em vão. Os fogos consumiam-lhes as fundas baleares num abrir e fechar de olhos.
            - Temos que fugir daqui - gritou Konrad. - Nada podemos fazer para salvar os engenhos e ainda morremos queimados.
            Os mouros, animados pelo êxito e livres do arremesso dos pedregulhos, cada vez disparavam mais. Apesar da sua pesada cota de malha, Konrad era dos mais rápidos. Muitos companheiros caíam mortos à sua volta, enquanto as setas zuniam como uma praga de gafanhotos por sobre a sua cabeça. Reparou que Johann ia ficando para trás e gritou-lhe:
            - Mais depressa rapaz, mexe-te!
            Mas o irmão estava no fim das suas forças. Konrad cerrou os dentes e deu meia volta, quando uma seta lhe atingiu o elmo de raspão. Atordoado, tropeçou num dos corpos inanimados e estatelou-se ao comprido. Rodeado pelos gritos dos feridos e moribundos, sentiu-se desesperar e, incapaz de se levantar, tapou a cabeça, na esperança de que aquele inferno passasse depressa.
           Ouviu, porém, Johann a chamar por ele e arranjou coragem para erguer o olhar. O rapaz tentava alcançá-lo, tropeçando nos cadáveres. Konrad levantou-se, conseguiu chegar a ele, agarrou-o pela mão e arrastou-o consigo.
            Os seus pulmões queimavam, fazendo-os lutar por cada lufada de ar inspirado, quando chegaram ao acampamento. Mas estavam vivos.



Os cruzados decidiram mudar de táctica, construindo minas, a fim de alcançarem os fundamentos das muralhas. Mas os mouros logravam destruí-las, cavando contra-minas, que iam de encontro às dos cruzados. As vítimas aumentavam e foram organizados cemitérios perto dos acampamentos. Ingleses e franceses no lado ocidental, flamengos e alemães no oriental. D. Afonso Henriques mandou construir capelas para que se rezasse pelas almas dos mortos, capelas que deram origem à Igreja dos Mártires e ao Mosteiro de São Vicente de Fora.

2 de setembro de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa IV

Ilustração de Jorge Miguel
Depois de assinado o pacto entre D. Afonso Henriques e os cruzados e de as tropas se terem distribuído no terreno, deu-se uma primeira escaramuça, que começou com um ataque dos ingleses ao arrabalde ocidental, chamado bairro de Alcamim, e terminou junto ao cemitério islâmico, o almocavar. A moura Aischa assiste aos acontecimentos a partir do cimo das muralhas de Lisboa:

 
            Os habitantes que restavam no bairro de Alcamim tentavam defender-se de uma tentativa de assalto perpetrada por alguns cruzados, arremessando pedras dos terraços das suas casas. O arrabalde ocidental era conhecido como bairro de Alcamim, devido à sua igreja de Santa Maria de Alcamim, uma santa moçárabe.
            - Os cruzados - perguntou Aischa - não saberão que os habitantes do bairro são cristãos como eles?
            - Ora - retorquiu Amir, - o que sabem estes homens, vindos de tão longe, sobre a realidade aqui na nossa Lušbūna?
            - Os portugueses bem sabem o que são moçárabes - replicou ela furiosa. - Ibn Errik não é o comandante deste cerco? Porque consente ele numa coisa destas?
            - Não me parece que seja um ataque planeado. Pelos vistos, os majus mal podiam esperar para usarem as suas armas e lançaram-se ao bairro já meio desabitado.
            Nisto, alguns mouros atreveram-se a uma surtida pela bâb al-khawkha, pois urgia defender os al-hurî, celeiros subterrâneos localizados no flanco da encosta da alcáçova. Mouros e moçárabes pareciam estar em vantagem devido à sua situação, por sobre a encosta. Mas cada vez mais cruzados se aventuravam pelas ruelas íngremes de Alcamim. Alguns lograram mesmo atingir a linha de cintura defensiva da alcáçova, um caminho que, começando na bâb al-khawkha, circundava o monte do castelo pelo poente e norte. Os atacados viram-se assim igualmente cercados pelo lado de cima.
Ao constatarem que os al-hurî e as suas preciosas reservas estavam perdidos, os mouros apressaram-se a regressar à segurança das muralhas, logo fechando a bâb al-khawkha e barrando a entrada à maior parte dos habitantes de Alcamim, que tentava agora desesperadamente fugir. Iniciaram-se combates sangrentos pelas ruelas do arrabalde. Os moçárabes serviam-se de adagas, punhais, ou mesmo de pedras.
            - Este espectáculo não é para os teus olhos - disse Amir à sua noiva. - Anda, vamos...
            - Não te preocupes comigo! Nada me arrancaria daqui agora. Tenho de ver no que dá esta refrega!
            O rapaz observava-a espantado, mas ela quase não notou, concentrada nos acontecimentos. Até que bradou:
            - Muitos moçárabes conseguem fugir, circundam o monte.
            A moça nem esperou pela reacção do noivo, desatou a correr pelo adarve, entrando na alcáçova. Amir corria atrás dela. Passaram a curva na ponta noroeste, onde a couraça, o lanço de escadas fortificadas, fazia a ligação à torre albarrã. Continuaram até à torre na ponta nordeste, onde Amir constatou:
            - Os fugitivos aproximam-se do almocavar!
            - E não os podemos ajudar? - Na sua fúria, Aischa dirigiu-se aos soldados que estavam de guarda naquela torre: - Porque não se torna a abrir uma das portas, a fim de deixar entrar os coitados?
            - Seria arriscado demais - respondeu um dos homens. - Muitos cruzados poderiam aproveitar a oportunidade para se infiltrarem na al-qasbâ.
            - Os perseguidores não são tantos como isso - insistiu ela. - A maior parte parece ter ficado no bairro de Alcamim, a fim de saquear as casas e os al-hurî.
            - Além disso - acrescentou Amir, apoiando-a, - os moçárabes parecem levar a melhor nos combates junto ao almocavar, põem muitos dos majus em fuga. Bem se podia abrir uma porta, enquanto não surgem mais...
            - Tarde demais - retorquiu o soldado, apontando para a encosta da colina do acampamento português.
            Aischa olhou para a sua esquerda e os seus olhos dilataram-se ao aperceber-se de que os homens de Ibn Errik vinham em ajuda dos seus aliados. E foi ali, junto ao almocavar, o cemitério islâmico onde estava enterrada a sua mãe, que deram o golpe de misericórdia naquele punhado de fugitivos moçárabes.





26 de agosto de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa III



As negociações entre D. Afonso Henriques e os cruzados foram difíceis, pois estes exigiam riquezas que o monarca sabia não lhes poder dar.


Numa primeira reunião com os comandantes estrangeiros, o rei logo deixou claro não saber quão ricos eram os habitantes de Lisboa. Além disso, e em caso de conquista, pretendia evitar um saque, a fim de proteger a população moçárabe, que era tão cristã quanto eles. Em compensação, e como todos podiam ver, a região era fértil, de bom clima e, àqueles que escolhessem ficar em Portugal, ele daria terras e senhorios. De resto, o seu era um reino ainda pobre, situação que se agravava com a guerra contra os infiéis.

As exigências dos cruzados foram transmitidas por D. Pedro de Pitões, bispo do Porto, as negociações decorriam em latim entre os prelados portugueses e os estrangeiros:


- Em primeiro lugar, exigem todas as posses dos mouros vencidos.
- Querem deixar a minha gente de fora? - admirou-se Afonso.
- Em segundo lugar - prosseguiu o bispo, - insistem no saque, ao qual qualquer vencedor tem direito, e do qual também excluem os portugueses. Em terceiro, todos aqueles que ponderam a hipótese de ficar em Portugal, exigem manter os hábitos, direitos e costumes das suas terras, assim como isenção de portagens para os seus navios e produtos em todos os nossos portos e cidades. Sem falar, naturalmente, das terras e dos senhorios que vós lhes prometestes.

Apesar de não estar de acordo com todas as exigências, D. Afonso Henriques acabou por assinar um pacto. E distribuiu as tropas pelo terreno:


Os portugueses montaram o seu acampamento num morro a noroeste de Lisboa, cujo sopé estava rodeado por dois ribeiros, local que lhes permitia vigiar a alcáçova, a couraça, com a respectiva torre de vigia, e parte da muralha ocidental.
Ingleses e franceses posicionaram as suas tendas no cimo da colina a oeste da cidade, à frente da qual se estendia a extensa planície. Os dois ribeiros que rodeavam o morro dos portugueses juntavam-se nessa planura, formando o esteiro, cujas águas se vinham a confundir com as do Tejo. Estes cruzados vigiavam, assim, todo o pano de muralha ocidental, o que incluía a porta principal e a torre albarrã, na ponta sudoeste. Além disso, as suas naus controlavam a ribeira ocidental, uma praia de pescadores.
Os flamengos e os alemães estabeleceram-se a oriente de Lisboa, também sobre um cerro. Fechavam o círculo e as suas embarcações vigiavam a ribeira oriental, que era o porto por excelência. O pano de muralha perante eles incluía duas portas: al-maqbara, junto à alcáçova, assim chamada por dar acesso ao cemitério islâmico, e al-hamā, protegida por uma torre albarrã. Al-hamā eram os banhos públicos, que davam o nome, não só à porta, como a um bairro de mercadores nas suas imediações. À semelhança do lado ocidental, havia um arrabalde incrustado nas rochas que suportavam as muralhas.

Esta imagem não está bem enquadrada e, apesar de aumentada, as legendas são difíceis de ler. Mas mostra muito bem como se procedeu ao cerco. Foi retirada do livro Conquista de Lisboa, de Pedro Gomes Barbosa (Tribuna da História, 2004, Colecção Batalhas de Portugal).
A cidade de Lisboa, naquela altura, quase se resumia à zona do castelo de São Jorge, Alfama, Santa Justa e a Costa do Castelo. Onde hoje se situa a Praça do Comércio, havia um esteiro, que se alargava ao desaguar no Tejo (lembram-se da História do Cerco de Lisboa, de Saramago?). Nessa zona, havia uma praia de pescadores e, aqui, vêmo-la ocupada com os barcos dos cruzados. Fora de muralhas, havia dois arrabaldes: o ocidental (maior) e o oriental.
À esquerda, sobre o Monte Fragoso, vê-se o acampamento dos ingleses; a noroeste, no Monte de Sant'Ana, circundado por dois ribeiros, temos o acampamento português; a vermelho, o cemitério islâmico (almocavar), junto do qual se deu uma primeira escaramuça; à direita, sobre o Monte de São Vicente (mais ou menos onde hoje se situa a igreja e o Panteão Nacional), o acampamento dos flamengos e alemães. 

24 de agosto de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa II

Lisboa mourisca, por Martins Barata

O cruzado Konrad e os seus companheiros avistam a Lisboa árabe pela primeira vez:


            Do cimo de um cerro, avistaram o lado ocidental de Lušbūna, com o seu arrabalde incrustado nas rochas que serviam de alicerce às muralhas. As casas deste bairro estavam construídas de maneira a formar um conjunto hermético, coladas umas às outras, sem aberturas para o lado exterior.
As muralhas da cidade desciam em socalcos, desde o ponto mais alto, a norte, onde dominava a torre quadrangular da alcáçova, até à margem do Tejo. Torres mais pequenas, todas quadradas, reforçavam as muralhas em vários pontos. No topo noroeste dos muros da alcáçova, um pano de muralha prolongava-se pela encosta abrupta, terminando numa torre, que delimitava e protegia o arrabalde.
            Nas ameias, entre os merlões quadrados, adivinhavam-se as sentinelas mouras, mas os cruzados encontravam-se fora do alcance dos seus tiros de besta, pois uma vasta e verde pradaria separava-os da cidade. Essa pradaria era atravessada por um curso de água, aos pés do arrabalde, que a norte se dividia em duas ribeiras, rodeando o sopé de uma colina. Para sul, alargava-se num esteiro, juntando-se ao Tejo. A foz do esteiro parecia ser um porto de abrigo e nos seus areais havia um estaleiro, mas ninguém trabalhava nas embarcações, que jaziam abandonadas. Era difícil de dizer quanta gente ainda se encontrava no arrabalde, com as casas assim construídas, em jeito de muralha. Ainda junto à foz do esteiro, no extremo sudoeste da cidade, avistava-se uma grande torre albarrã, adiantada algumas jardas das muralhas e a estas ligadas por um passadiço.
            O pano de muralha junto ao porto fundeava em terreno baixo, chegava quase ao rio, e dava a ver o casario de Lušbūna, que se distribuía pela colina. Konrad e os outros quedaram-se boquiabertos. Esta cidade era bem diferente das que eles conheciam, em que a maioria das casas era feita de madeira e onde, durante quase todo o ano, reinava a humidade, o frio e a escuridão. Lušbūna parecia ser feita de brancura e de luz. As paredes caiadas reflectiam a luminosidade do sol e a grande mesquita, a última construção que se avistava, antes de a muralha engolir a cidade baixa, ostentava sete cúpulas cobertas de telhas vidradas a verde, a cor do Profeta Maomé. Também o minarete adjacente, forrado a azulejos da mesma cor, cintilava ao sol.

Konrad, originário de Colónia, alimentava a esperança de que as negociações com D. Afonso Henriques falhassem, pois ansiava alcançar a Terra Santa. Mas, neste primeiro contacto, a Lisboa mourisca exerceu um estranho fascínio sobre ele:
             
            Toda aquela luminosidade atraía Konrad de uma maneira irresistível. A cidade, à qual ele tanto desejava virar as costas, parecia enfeitiçá-lo, querer engoli-lo...
            Konrad deixou de ouvir as conversas excitadas dos seus companheiros e foi descendo a colina, como que em transe, até chegar à planície verdejante. Os seus olhos fixaram-se numa grande Porta, rasgada numa das torres quadradas que guarneciam as muralhas, nas imediações da mesquita. À esquerda desta Porta, começava o arrabalde e, à direita, estendia-se, até à torre de vigia na ponta sudoeste, mais um pequeno bairro, na zona ribeirinha.
            De repente, Konrad teve a impressão de que as grossas portadas de madeira chapeadas em ferro se abriam! Devem ser brincadeiras deste sol diabólico, pensou, enquanto piscava os olhos.
            Sentiu necessidade de refrescar as têmporas e caminhou até à margem do esteiro, aproximando-se perigosamente do arrabalde, no qual ninguém sabia dizer se havia sentinelas por sobre os terraços das casas que formavam uma verdadeira muralha. Alheio ao perigo, Konrad humedeceu a testa e os cabelos. E logo uma brisa o refrescou.
            Observou as embarcações abandonadas, que flutuavam sobre as ondas suaves. Era altura de maré cheia e o Tejo, forçado pelo oceano, despejava água no esteiro, alargando-o cada vez mais e originando a doce ondulação, que embalava as faluas dos pescadores. Konrad teve vontade de se deitar numa delas. Que sonhos lhe traria aquele doce embalar?
O esteiro galgava a areia das suas margens a olhos vistos. Numa questão de momentos, Konrad encontrava-se enfiado na água até aos joelhos.
            Mas permanecia tranquilo. Tudo à sua volta se quedava estranhamente calmo e sereno..

22 de agosto de 2011

Cerco e Conquista de Lisboa I

Muralhas de Santarém

A notícia da chegada dos cruzados ao Porto terá apanhado D. Afonso Henriques ainda na região de Santarém, onde se quedava a solidificar o seu poder. O acontecimento causou grande euforia no reino, o que terá contribuído para que certos barões do norte, ofendidos por não terem participado na operação de Santarém, esquecessem as suas divergências com o monarca, pois todos eles participaram no cerco de Lisboa.


A notícia da conquista de Santarém espalhou-se rapidamente e, como Lourenço e Gonçalo tinham previsto, chegavam-lhes rumores do descontentamento dos barões do norte. Principalmente o alferes-mor Mendo de Bragança e o seu pai Fernando Mendes, o cunhado colérico de Afonso, estavam indignados.
Mas eis que, a 16 de Junho, se deu um acontecimento que provocou uma reviravolta e uma euforia nunca vista em todo o reino: uma armada de cruzados, duzentas galés, com cerca de quinze mil homens, atracou no Porto. E inúmeros portugueses prontificavam-se a participar no cerco a Lisboa.
Afonso mandou o Sousão às terras do norte, reunir os homens e convencer um ou outro barão mais renitente. Em direcção à cidade do Porto, com uma missiva dirigida ao bispo D. Pedro de Pitões, partiu Soeiro Viegas, o meio-irmão de Lourenço, filho do segundo casamento do falecido Egas Moniz.



D. Afonso Henriques não esteve no Porto, foi o bispo daquela cidade que ficou encarregado de convencer os estrangeiros a, pelo menos, fazerem uma paragem na foz do Tejo. Em A Cruz de Esmeraldas, apresento o discurso do bispo sob a perspectiva dos cruzados, pois um alemão de nome Konrad, originário da cidade de Colónia, é uma das personagens principais. Junto com o irmão Johann, de dezasseis anos, que possui bons conhecimentos de latim, por ter vivido num mosteiro, e mais dois amigos, ele assiste à pregação do bispo:


             Na manhã seguinte, o bispo do Porto fez a sua pregação no largo da Sé, o ponto mais alto da cidade. Tratava-se de uma ocasião solene, o prelado tinha a seu lado o arcebispo de Braga, representante máximo da Igreja Portuguesa, os bispos de Viseu e Lamego e um fidalgo cavaleiro em representação d’el-rei D. Afonso Henriques.
            Como o largo da Sé não era suficientemente grande para todos os quinze mil cruzados e D. Pedro Pitões pregava em latim, língua que apenas uma minoria entendia, a maioria resolveu esperar nos barcos pelos seus prelados, que lhe transmitiriam a mensagem do bispo. Konrad e os seus amigos pertenciam, no entanto, aos poucos mais de mil homens que assistiam à pregação, pois Johann não tinha dificuldades em traduzi-la.
            - O bispo chama a atenção para as obrigações dos bons cristãos - declarou o rapaz. - Diz que devemos colocar o serviço de Deus e da Cristandade à frente dos nossos desejos materiais. Portugal não é um reino rico, gasta muito na guerra contra os infiéis.
            - Isto não começa nada bem - comentou Hadwig. - Estarão eles à espera que os ajudemos por nada?
            - Ele pede-nos que não estejamos ansiosos por prosseguir viagem - continuou Johann. - Diz que o combate aos hereges aqui nesta terra é tão importante e tem tanto efeito sobre os nossos pecados quanto os combates na Terra Santa.
            Os outros olharam-se desconfiados e Konrad acabou por sussurrar:
            - Em Speyer, Bernardo de Claraval só garantiu absolvição para os combatentes na Terra Santa.
            - Mas estes mouros daqui não são infiéis como os outros? - indagou Gunther.
            Os outros encolheram os ombros e já Johann fazia sinal para que se calassem, enquanto ouvia atentamente o latim de D. Pedro Pitões.
            - Lembra-nos que as lutas contra os infiéis fazem parte de uma “guerra justa” - disse por fim. - Cruzados dignos desse nome não podem recusar a luta contra os infiéis, neste caso, os mouros cruéis. Mais diz que as lutas entre cristãos, não só enfraquecem a Cristandade, como são condenadas por Deus e pela Igreja. Combater só é pecado quando não tem o consentimento de quem dispõe da legítima autoridade: a Igreja.
            Neste ponto, alguns dos cruzados resolveram intervir. Exigiam saber com que recompensas podiam afinal contar, caso libertassem Lušbūna das mãos dos infiéis. O bispo do Porto retorquiu que se tratava de uma cidade rica, mas que ele não estava autorizado a negociar a recompensa. Por isso, pedia-lhes em nome d’el-rei que velejassem até à foz do Tejo, onde D. Afonso Henriques se encontraria com eles.
            Como já era de esperar, o inglês Hervey de Glanville e o seu prelado Gilbert de Hastings puseram-se ao lado dos portugueses. E no fim todos concordaram em navegar até Lušbūna, pois qual era o mal em ouvir o que D. Afonso Henriques tinha para lhes oferecer?


E assim se iniciou o grande movimento:


No Porto e em Gaia, a febre da conquista aumentava de dia para dia. Principalmente, as gentes mais pobres, incluindo mulheres e crianças, que nada tinham a perder, estavam dispostas a partir para as terras longínquas e desconhecidas, junto à foz do Tejo, na esperança de uma vida melhor. Muitos deles viajaram nos barcos dos cruzados, assim como o bispo do Porto e os restantes prelados, pois os estrangeiros acabaram por concordar em velejar até ao estuário do Tejo, a fim de negociarem pessoalmente com D. Afonso Henriques.

Nota: a azul, extractos de Afonso Henriques - o Homem, a castanho de A Cruz de Esmeraldas.