Em todos os momentos da História, seja na Antiguidade, na Idade Média, ou no nosso tempo, são as mesmas paixões e os mesmos desígnios que inspiram os humanos. Entender a História é entender melhor a natureza humana.
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11 de agosto de 2015

Deus Branco


Brutais, as palavras da escritora e jornalista Ana Margarida de Carvalho, na sua crítica ao filme húngaro Deus Branco, publicadas na Revista Visão do passado 28 de Maio, mas que só agora li. Passo a citar:

«A nossa condição de omnívoros porduz atrocidades contra as espécies comestíveis. Mas acontece que entre o cão e  homem há uma ligação que remonta ao fundo dos séculos, um entendimento único entre espécies, e um grau de confiança que não tem equiparação com nenhuma outra - nós somos uma espécie de Deus para eles (e isto não é necessariamente bom). Por isso assistimos a este filme de coração esmagado. Primeiro, o abandono, a perplexidade do animal, a ameaça do trânsito, na perspectiva do cão, as rodas do carro roçam-lhe a cabeça... Depois, a perseguição dos canis, matadouros em série. Em seguida, a maldade, as lutas de cães, os espancamentos, os doppings para se tornarem agressivos, máquinas de matar... E um cão dócil é forçado a aprender a maldade, por parte daqueles em quem sempre confiou, e que ainda por cima têm a responsabilidade de serem homo duplamente sapiens...»

Muitas vezes, não sei porque é que Deus nos deu inteligência (ou aquilo que consideramos inteligência).
Resta acrescentar que não vi o filme, nem tenciono ver. Confesso que sou fraca demais, que não tenho estômago.

15 de fevereiro de 2014

Sex sells? Já era!

Num estudo feito pela Universidade de Columbus/Ohio, em conjunto com a Universidade de Pennsylvania e a Universidade de Amesterdão (reproduzido na KirchenZeitung de 12 de Janeiro passado), chega-se à conclusão de que os filmes de violência são os preferidos dos jovens. A fim de se obter sucesso comercial, são introduzidas cada vez mais cenas de violência espetacular nos filmes para maiores de 12 anos. As armas exercem grande atração nos adolescentes, o mero olhar para um revolver provoca uma reação de euforia semelhante ao assistir a uma cena erótica.

Nos Estados Unidos, encara-se a violência nos filmes com menos criticismo do que cenas eróticas ou de sexo. Daniel Romer, um dos responsáveis pelo estudo, diz: «Consideramos o sexo como coisa de adultos. Devíamos igualmente assim considerar cenas de grande violência com armas».


11 de maio de 2013

O Leitor


Este filme costuma ser reduzido à importância que a literatura nele desempenha. Sim, é certo que Hanna Schmitz (Kate Winslet), a mulher madura, pede a Michael (David Kross), o seu amante adolescente, que lhe leia obras-primas da literatura, quando estão na cama. E também é certo que Hanna, analfabeta (um segredo que guarda a sete chaves), aprende a ler por si própria, através das gravações que Michael lhe envia para a prisão dessas mesmas obras literárias. Para mim, uma das cenas mais fascinantes deste filme (e do cinema, em geral) é precisamente quando ela tenta perceber como funciona a língua escrita, a partir da primeira frase de A Dama do Cachorrinho, de Anton Checkhov.

Mas este filme é muito mais do que isso. É sobre uma Alemanha que, em muitos momentos, se sente incapaz de viver com um passado indizível. É sobre aqueles que nasceram depois da guerra e se veem a braços com esse passado doloroso, do qual têm vergonha e pelo qual se sentem culpados. É sobre gente mais ou menos humilde e inculta, posta sob pressão pela ditadura nazi, obedecendo, por medo, e contribuindo para a execução de crimes abomináveis. E, last but not least, sobre a incapacidade de perdoar esses crimes, mesmo quando se ama quem os ajudou a cometer, ou se vislumbra um motivo para o fazer.

Há, realmente, atos imperdoáveis? É legítimo herdar culpa? Como lidar com feridas que não saram? Como lidar com o amor que sentimos por alguém, vindo a descobrir as atrocidades que essa pessoa cometeu, enquanto se toma consciência que ela agiu assim porque, no fundo, não podia agir de outra maneira? E, tendo possibilidade de a ilibar de uma parte da culpa, devemos fazê-lo?

São estas as questões colocadas neste filme, que tem o mérito de nos dar as várias perspetivas. As mensagens mais importantes estão nas palavras que ficam por dizer. E cada um que julgue, se puder...

A ver e rever!

Nota: Michael, o amante adolescente, é interpretado por Ralph Fiennes, em adulto.


8 de março de 2013

As Noivas de Alá

Todos já ouvimos falar de mulheres que participam em ações terroristas do fundamentalismo islâmico, algumas, em ataques-suicidas. A realizadora israelita Natalie Assouline quis saber o que leva mães de família, ou grávidas, a matarem-se a si e aos outros, sem piedade. Para isso, acompanhou e filmou, durante dois anos, detidas palestinianas numa prisão israelita de alta segurança. No seu filme Shahida - Brides of Allah, estreado em 2008, ela apresenta-nos essas mulheres e as suas declarações, sem comentar, ou explicar. O espetador deve tirar, por si, as suas conclusões.

Confesso que, por vezes, me senti indignada, ao ouvir aquelas mulheres declararem fria e laconicamente que só descansarão quando morrerem todos os israelitas; ou que os seus filhos (a maior parte deles, crianças) sentem orgulho pela mãe presa, que mandou uma data de israelitas pelo ar. Pelos vistos, chega para os compensar por uma infância e uma juventude vividas sem mãe!

O caso da mulher grávida à altura da sua detenção (e do ataque de sua autoria), que deu à luz na prisão e foi autorizada a ficar com o filho durante os primeiros dois anos deste, provocou-me sentimentos muito contraditórios. Por um lado, ela e as outras reclusas não se cansavam de dizer à criança (um rapaz) que ele haveria de ser um lutador de Alá, um grande guerreiro da jihad. Por outro, foi difícil assisitir ao dia em que o miúdo foi obrigado a deixar a mãe, juntando-se, aliás, ao pai e aos irmãos mais velhos. A imagem da mulher a chorar sozinha, na sua cela, fica-nos gravada na memória.

Mas a pergunta fica: o que leva estas mulheres a destruirem a sua vida e as das suas famílias?

Acho que encontrei a explicação (ou, pelo menos, parte dela) numa moça, aliás, solteira e sem filhos. Começou por dizer que não fizera nada de mal, limitara-se a passear pela zona de fronteira entre a Palestina e Israel com uma faca no bolso. A sua intenção nunca fora matar, mas acharam-na suspeita, revistaram-na e encarceraram-na. Durante a conversa com Natalie Assouline, ela dá a entender que fez aquilo de propósito, desejando ser presa!

Entretanto, cumpriu a sua pena e foi libertada. Mas, passado um mês, tornou à prisão! E, desta vez, foi mais aberta com a realizadora do documentário. Afirmou que resolvera voltar, porque em casa lhe batiam, tanto a mãe, como um irmão.  Além disso, proibiram-na de falar. Era autorizada a cumprir as tarefas do quotidiano, mas sem abrir a boca. «Aqui», disse ela, referindo-se à prisão, «sinto-me melhor, sou mais respeitada!» Mais acrescentou que as outras detidas, mesmo que não o admitam, estavam ali pela mesma razão: por terem problemas em casa!

Serão, portanto, mulheres cheias de ódio e vazias de amor e esperança, resultado de subjugação extrema e maus-tratos? Em Alá, julgam encontrar o amor, a proteção e o reconhecimento de que nunca na vida gozaram. São admiradas por lutarem pela sua religião, mesmo que deixem quatro, cinco, ou seis filhos em casa, filhos que são autorizadas a ver apenas de vez em quando, por escassos minutos de visita. O ódio que foram acumulando pelas humilhações e as injustiças que sofreram desde que nasceram é projetado em todos os não-muçulmanos, especialmente, nos israelitas (neste caso).

É esta a explicação para os atos das Noivas de Alá?




22 de fevereiro de 2013

Dilemas

Quando se tem uma boa ideia para um livro e talento para escrever, é legítimo que se usem todas as possibilidades à disposição?
Explico-me melhor: é legítimo usar informações e vivências que possam prejudicar terceiros, a fim de escrever um bom livro?

O telefilme que o canal alemão ARD transmitiu na semana passada, com o título Stille (sossego; silêncio) tratava desta temática. Um jovem escritor causa furor com o seu livro de estreia e é nomeado para um importante prémio literário. Mas há vários problemas, no meio disto tudo. O primeiro é que ele se baseou nas suas vivências com um pai egocêntrico e narcisista, que nunca ligou à família. Esse pai ainda é vivo. E o próximo problema é que esse pai é um conhecido jornalista, com um talk show televisivo campeão de audiências.


O jornalista famoso fica tão afetado pela estreia literária do filho, que abandona toda a sua vida, a fim de se isolar nas montanhas tirolesas. E também o filho, que julgara ter-se finalmente libertado do círculo familiar, onde só ao progenitor era permitido brilhar, se dececiona ao constatar que muita gente acha que ele, no fundo, deve o sucesso ao pai, pois só o facto de este ser famoso terá contribuído para a atenção dada ao livro.

Apesar de tão boa temática, o telefilme também dececionou, pois deixa muitas pontas soltas. Além disso, prende-se com enredos secundários, na minha opinião, desnecessários. Por exemplo: o facto de a esposa do filho, apesar de muito jovem, padecer de uma doença grave (não se chega a saber se é incurável). Ao dividir com a sogra os cuidados a prestar à enferma, o rapaz acaba por se envolver com aquela, ainda nova e bem-parecida.

O telefilme foi baseado no livro Cleaver, de Tim Parks e, mais uma vez, seria interessante saber se o escritor resolve melhor todos estes conflitos. Não há tradução portuguesa, mas pode ser adquirido em inglês, na Wook (seguir o link).


20 de fevereiro de 2013

Miss Austen Regrets


O talento da escrita: bênção ou maldição?
«Tantas personagens na minha cabeça, tantas histórias às quais gostaria de dar vida», diz Jane Austen neste filme, uma produção da BBC, ao constatar que padece de uma doença grave e que não viverá muito tempo.

Não chegou a completar 42 anos. E não foi só a angústia do muito que deixava por escrever que a atormentou. Sacrificou a sua vida por amor da escrita, pois sabia que, casando e tendo filhos, não arranjaria tempo para cumprir aquilo que entendia ser a sua maior paixão.

Arrependeu-se? É disto que trata este filme. Jane Austen recusou várias propostas de casamento, uma delas, de um vizinho rico. Começou por aceitar, mas mudou de ideias durante a noite e, no dia seguinte, foi-lhe dizer isso mesmo. Uma mulher inteligente, espirituosa e irónica, que sabia aconselhar as suas familiares e amigas, que as queria ver todas casadas com o homem certo, esquecendo-se dela própria, exatamente como a sua heroína Emma.


Mas, para Emma, a escritora arranjou aquilo a que se chama um final feliz, ao contrário dela própria, vivendo nesse dilema de dar voz aos seus sonhos, sem se livrar da sensação de ter desperdiçado a sua vida.

«A vida não é como os romances», diz a personagem que interpreta a mãe de Jane Austen, neste filme. «Os romances acabam com o casamento. Na vida real, é aí que tudo começa, que tudo passa a ser interessante». Jane Austen sabia. Mas não deixou de escrever livros em que o casamento com o homem certo era o objetivo primordial. Livros de encontros e desencontros, de paixões arrebatadas, de cálculos e oportunismos, de sentimentos contidos. Livros que nos continuam a encantar e a inspirar, passados duzentos anos. E, no entanto, parecem tão simples...

É essa a magia dos grandes escritores.




19 de janeiro de 2013

Pequena Miss Sunshine


Um avô viciado em cocaína, um pai obcecado com a receita do sucesso, uma mãe stressada, um tio homossexual que se tenta suicidar, um filho de quinze anos que passa a vida a ler Nietzsche e se recusa a falar, uma filha gordita de sete anos que sonha em ganhar o título de Little Miss Sunshine. São estes os elementos de uma família que se mete numa carrinha VW antiga, percorrendo mais de mil quilómetros, precisamente para que a pequena Olive possa participar no tal certame.

Os problemas estão programados: discussões, ataques de fúria, depressões e, como se tudo isto não bastasse, o avô morre pelo caminho e a caixa de velocidades da carrinha avaria. Deixam de funcionar a primeira e a segunda velocidades, pelo que o veículo tem de ser empurrado para que possa arrancar em terceira. Assim se repete a cena hilariante de que todos, à exceção do condutor, têm de entrar na carrinha com ela em andamento, em passo de corrida.


Este filme fresco e original mostra-nos a importância do amor, sem ser um dramalhão de puxar à lágrima. Pelo contrário: irónico e descontraído, tem ainda o mérito de arrasar com os concursos de beleza americanos para crianças (meninas). Nada mal, para um filme americano!



16 de dezembro de 2012

As Virgens Suicidas


É um bom filme. Mas fiquei um pouco desiludida, porque julgava que era melhor. Não só por a realizadora ser Sofia Coppola, mas também porque as críticas que tinha lido lhe eram muito favoráveis.

O enredo anda à volta da família americana Lisbon (terá o nome a ver com a religiosidade exacerbada?). Profundamente católicos, os pais (principalmente, a mãe) condenam as suas cinco filhas a um isolamento total. Depois do suicídio da mais nova, com apenas treze anos, resolvem abrir-se ao mundo, a conselho de um psiquiatra. No entanto, como todas as tentativas "contra-natura" de mudar um estilo de vida, também esta se revela desajeitada e artificial, ou seja, é pior a emenda do que o soneto: as restante quatro filhas acabam por se suicidarem todas no mesmo dia, embora cada uma use o seu próprio método.

O filme não mostra apenas a desagregação da família Lisbon, mas também a vida deprimente e artificial de um subúrbio de classe média nos anos 1970. E aí é que está, na minha opinião, o problema deste filme, patente num pequeno promenor, logo no início. Depois da primeira tentativa de suicídio da mais nova, começa o falatório dos vizinhos, especulando sobre as razões da ocorrência. Mas eles são caracterizados com tal ironia, que eu não levei a sério o rumor de que seria o isolamento da jovem a causa do seu desespero. Esta ideia perseguiu-me durante todo o filme, passei o tempo à procura de um outro motivo, o verdadeiro. Uma busca inglória, pois os vizinhos hipócritas e ignorantes tinham razão! Acho, por isso, que a realizadora não soube gerir esse pequeno promenor, que, como digo, influenciou toda a minha visão do filme.

Aliás, é tudo muito subtil, à semelhança do que faz o pai, Francis Ford Coppola, faltando, no entanto, o seu "toque de Midas". Só com muito esforço nos apercebemos de que a subjugação das filhas resulta do medo extremo da mãe de as perder, enquanto o pai navega pela vida, sem opinião nem iniciativa, como que ausente, sujeitando-se à regência da mulher. Trata-se de uma constelação catastrófica. E, como sempre, o medo exagerado acaba por gerar a situação temida: a mãe perde todas as suas filhas, para sempre. Já agora, uma palavra para a atuação de Kathleen Turner, que desempenha o seu papel numa perfeição que chega a ser assustadora. Outra coisa não seria, aliás, de esperar, de tão excelente atriz.

Este filme foi baseado num romance de Jeffrey Eugenides, que não li, mas ponho a hipótese de ele conseguir transmitir melhor a mensagem do que Sofia Coppola. O filme não deixa de ser bom, mas, quando as expetativas são grandes...


3 de novembro de 2012

A Hora da Liberdade

ADOREI! SIMPLESMENTE, ADOREI!


A Hora da Liberdade foi uma ficção documental emitida pela SIC em 1999, a fim de comemorar o 25º aniversário da revolução. Em Abril passado, a Bizâncio editou o livro A Hora da Liberdade - O 25 de Abril, pelos protagonistas, da autoria de Joana Pontes (realizadora do filme), Rodrigo de Sousa e Castro e Aniceto Afonso, junto com o DVD.



Eu vi a versão completa no YouTube.

Tinha oito anos, quando se deu o 25 de Abril e, naquela altura, elogiou-se tanto o facto de se fazer uma revolução sem praticamente derramamento de sangue, elogiou-se tanto o civismo do povo português, que eu sempre pensei que tinha sido uma coisa mais ou menos fácil de levar a cabo. Pensei que bastara cercar o Quartel da GNR do Carmo, obrigando o Prof. Marcello Caetano a render-se... E pronto! Foi a ideia com que fiquei de criança. E, como nunca mais me ocupei do assunto, foi a ideia que permaneceu durante quase quarenta anos.

Agora, pela primeira vez, tomei contacto com toda a complexidade da operação, com todo o perigo que envolveu. E não estou a exagerar se disser que este foi um dos filmes de que mais gostei, em toda a minha vida. É pura "História ao vivo", serviço público ao melhor nível europeu, uma linda homenagem a todos aqueles que fizeram a revolução dos cravos. É impossível ser-se português e não se emocionar com A Hora da Liberdade! Os meus parabéns à realizadora, aos produtores, aos atores e a todos os que estiveram envolvidos!

Mais uma vez: o link do YouTube. Mas reservem tempo, dura quase três horas! Eu dividi em duas partes. E a velocidade a que passou o tempo é só comparável a quando escrevo ;-)

Deixo-vos com um excerto de dois minutos, mostrando o capitão Salgueiro Maia a falar às suas tropas, na Escola Prática de Cavalaria de Santarém:



Esta ficção documental devia ser conhecida no estrangeiro. O canal franco-alemão ARTE, de vez em quando, mostra filmes portugueses. Por acaso alguém sabe se este já por lá passou?


19 de outubro de 2012

O Encantador de Cavalos

Devido a críticas pouco favoráveis, só recentemente vi este filme, realizado e protagonizado por Robert Redford, em 1998. E tenho a dizer que as críticas estavam corretas. O enredo é previsível e contém incongruências; Robert Redford é velho demais para o papel que desempenha; Dianne Wiest também não está bem no seu papel de esposa de rancheiro, dando mesmo a impressão de o fazer com ironia, quando se pedia seriedade; há bastantes clichés sobre a vida no campo versus vida na cidade.

No entanto, tenho a dizer que gostei! E não só pelas excelentes paisagens de Montana. Este filme é honesto no seu propósito de contribuir para a harmonia entre humanos e animais. Trata os cavalos com respeito e dignidade. Tiro o meu chapéu a Robert Redford, que o conseguiu, sem cair na tentação de nos mostrar animais com capacidades fora do normal. O cavalo ali retratado é simplesmente isso: um cavalo.


Além disso, o filme também não nos mostra milagres. Mostra, sim, que qualidades como paciência, respeito e perseverança nos ajudam a atingir o nosso objetivo e nos tornam mais felizes. Mostra-nos como os animais nos podem tornar mais felizes; que a felicidade suprema pode estar no cavalgar um cavalo que amamos. Isso não é demagogia, nem cliché, é mesmo verdade! E é-nos transmitido, no fundo, sem grandes dramatismos.


Uma última palavra para certos diálogos bem conseguidos, quando se trata de sarar feridas e transpor obstáculos entre relações humanas, principalmente, a forma como a personagem de Robert Redford devolve a confiança e a auto-estima à jovem traumatizada pelo acidente (a Scarlett Johansson, bem novinha).


Tudo isto nos ajuda a passar por cima do enredo fraco, com cenas desnecessárias, algumas tornando-se patéticas. Ou seja: as melhores cenas são mesmo aquelas em que o cavalo é a personagem principal.




13 de setembro de 2012

Slumdog Millionaire


"O horror... O horror", são as últimas palavras do coronel Walter Kurtz, intrepretado por Marlon Brando, no filme Apocalypse Now. Lembrei-me delas em várias cenas de Slumdog Millionaire, que, em português, tem o título Quem quer ser Bilionário?. O horror parece ser o quotidiano das crianças que vivem nas favelas de Mumbai.

São indescritíveis as provações por que Jamal e o seu irmão mais velho Salim passam, principalmente, depois da morte da mãe, na sequência de uma luta de bandos. Viver numa enorme lixeira a céu aberto é a mais inofensiva, se pensarmos que os dois caiem nas mãos de um gangster que põe crianças a pedir esmolas por ele, chegando a cegar algumas delas (arrancando-lhes os olhos - vá lá, anestesia-as antes) para que provoquem mais piedade nos passantes.


Jamal e Salim conseguem fugir, mas escusado será dizer que se entregam a uma vida criminosa, para sobreviverem. O mais novo, no entanto, permanece puro no seu coração, ao contrário de Salim, que acaba em assassino. Além disso, Jamal vive obcecado com a memória de Latika, uma menina que conheceu enquanto estava no poder do gangster e que perdeu de vista. Com dezoito anos, resolve participar no concurso Quem quer ser milionário, apenas porque sabe que Latika costuma ver esse programa.

O inesperado acontece: o jovem oriundo dos slums, que nunca frequentou a escola, avança até à pergunta final. As respostas são-lhe dadas pela experiência de vida (é assim que a história vai sendo contada, em flashback). Acaba, porém, por despoletar a desconfiança do locutor e é interrogado pela polícia sobre o seu verdadeiro fito em participar no concurso. Também querem descobrir onde arranjou toda aquela sabedoria. A polícia indiana vale-se de métodos de tortura, nos seus interrogatórios, entre eles, dos choques elétricos, que não deixam marcas, para que, nas palavras de um dos polícias, "não tenhamos problemas com esses gajos da Amnistia Internacional".

Enfim, o filme dá uma imagem bem horrível de certas facetas da sociedade indiana, bem longe da transmitida nos musicais de "Bollywood". Por outro lado, Slumdog Millionaire acaba por cair nesse paradoxo "bollywoodesco", pois tem um final bastante kitsch, onde não falta uma cena de dança, bem coreografada, ao som de Jay Ho (vídeo em baixo). Teria o realizador Danny Boyle uma intenção irónica, ou terá cedido à co-realização indiana?


Slumdog Millionaire é um filme polémico na própria Índia, entre outros motivos, por causa do nome Slumdog para os habitantes das favelas (que contrapõem que não são cães) e pelo facto de as crianças que nele participaram, oriundas dos próprios slums, terem sido mal pagas e regressado à origem, sem melhoria das suas condições de vida, depois de correrem mundo, enquanto o filme estava na berra. Estiveram, inclusive, na cerimónia da entrega dos Óscares, em 2009, junto com Danny Boyle, na qual o filme arrecadou oito estatuetas.

Nem sei bem o que pensar da película. Quer dizer-nos que nos devemos manter puros e honestos, não importa o que nos aconteça? Ou que a experiência de vida vale mais do que qualquer escola? Ou, ainda, alertar-nos para uma certa faceta da sociedade indiana? Enfim, pelo menos, tem o mérito de nos mostrar os horrores.



Nota: espero que, em Portugal, também seja conhecido o termo "Bollywood", usado para os musicais made in India.

1 de agosto de 2012

O Verdadeiro Artista


Uggie, o cão ator do filme o Artista (um Jack Russell Terrier, como a minha Lucy), tem, agora, as suas patas impressas no Walk of Fame de Hollywood, ao lado de nomes como Marilyn Monroe e Clark Gable.


A história de Uggie é curiosa, pois, devido ao seu temperamento, em cachorrinho, esteve quase a ir para o canil. Por sorte, foi adotado pelo treinador de cães Von Muller, que nos diz: «He was a crazy, very energetic puppy, and who knows what would have happened to him if he [had] gone to the dog pound. But he was very smart and very willing to work. One of the most important thing[s] is that he was not afraid of things. That is what makes or breaks a dog in the movies, whether they are afraid of lights, and noises and being on sets. He gets rewards, like sausages, to encourage him to perform, but that is only a part of it. He works hard.»

Estas últimas palavras de Von Muller são significativas: He works hard. De facto, um cão, em situações destas, passa por tanto stress como os humanos e é preciso muito tato para saber quando se está a esforçar demais o animal, ou como agir, quando ele não faz aquilo que esperamos dele. Um cão empenha-se de tal maneira para agradar ao dono, que, ao notar a desilusão deste, o seu nível de frustração pode ser grande e afetá-lo psicologicamente. Mas, como reconhece o próprio Von Muller (e, aliás, toda a gente que lida e/ou se dedica a animais): «Everybody thinks I am a great trainer. I don't think so. I think he is just a great dog».


Muita gente pensará que o registo no Walk of Fame é um exagero, já que o cão não está consciente do que se passa. É verdade. Mas, na “pessoa” de Uggie, assim se reconhece e agradece o trabalho de todos os animais que, em filmes, já nos fizeram rir, chorar, ou sonhar. Porque nós, humanos, costumamos ser mal agradecidos e ter a memória curta.


Thanks Uggie! I love you!




15 de maio de 2012

Novo regresso de Sherlock Holmes


O detetive criado por Sir Arthur Conan Doyle continua a inspirar cineastas. Guy Ritchie (também conhecido por ser o ex-marido de Madonna) realizou, em 2009, este filme, com Robert Downey Jr. e Jude Law nos principais papéis. Existe já a sequela, A Game of Shadows, com os mesmos atores.

Achei interessante, mas não posso dizer que tenha gostado. O ritmo é tão acelerado, que quase não temos tempo de raciocinar sobre o que está a acontecer. Dir-me-ão que sou antiquada, mas penso que um ritmo destes não se adequa à época vitoriana. E o enredo entra muito no fantástico, ou seja, o verosímil é sacrificado em nome do espetáculo (o que não corresponde às minhas preferências).

De qualquer maneira, penso que o trabalho do realizador é de louvar, há sequências muito bem engendradas e boas cenas em câmara lenta, acompanhadas de efeitos sonoros a condizer. Além disso, o caráter do detective está bem conseguido. Sherlock Holmes tem um cérebro genial, mas, como pessoa, é difícil de suportar, criando uma relação de amizade/ódio interessante com Dr. Watson, em que há mais ironia do que no original de Sir Arthur Conan Doyle. Ah... E há uma mulher na sua vida!

Como alternativa, podem-se adaptar as aventuras de Sherlock Holmes ao ritmo do século XXI, situando-as na nossa era. Um Sherlock Holmes com telemóvel, GPS e internet? Na verdade, a BBC já produziu essa série, que me agrada bem mais do que o filme de Guy Ritchie.


A série intitula-se simplesmente Sherlock. O detetive é representado por Benedict Cumberbatch e o Dr. Watson por Martin Freeman. Já foram produzidos dois blocos de três episódios cada um. Eu só vi o primeiro bloco, de 2010, pois passou na televisão alemã, e não me consta que o segundo já tenha passado. Todos os seis episódios existem em DVD e Blu Ray. Deixo-vos com um trailer:


Adenda: mais sobre esta série aqui.

20 de abril de 2012

Avatar


Impossível uma pessoa não se comover com este filme, apesar de algumas fraquezas de enredo e de exageros de um realizador como James Cameron. E, claro, nem preciso de mencionar a qualidade dos efeitos especiais.

Avatar é, todo ele, uma alegoria. Ao racismo, ao egocentrismo, à ganância, ao culto da violência, à lei do mais forte, ao desrespeito pela Natureza, ao desrespeito pelos animais, ao desrespeito por minorias e outras formas de ver a vida/mundo, ao menosprezar de pessoas com deficiência, à guerra do Vietname, à submissão dos nativos americanos, etc.

Por outro lado, pergunto-me se ajuda a modificar aquilo que se propõe, já que não convida à reflexão. A esmagadora maioria dos espectadores passa duas horas bem entretidas, revolta-se contra os maus da fita, comove-se com os bons... Mas modifica alguma coisa na sua maneira de ser? Quem é racista deixa de o ser? Quem usa violência deixa de usar? Quem maltrata animais deixa de maltratar? Quem não respeita o ambiente passa a respeitar?

O problema deste filme é querer ser várias coisas ao mesmo tempo. Sob o ponto de vista cinematográfico, consegue-o. Mas as inúmeras mensagens que pretende transmitir anulam-se perante o culto do espectáculo em si mesmo.

8 de março de 2012

Operação Valquíria



Eu até nem gosto de Tom Cruise, mas ele está quase irreconhecível neste filme. A pala no olho também ajuda (talvez devesse actuar sempre assim), mas muito do mérito vai para o realizador Bryan Singer que o disciplinou numa representação muito contida, sem trejeitos nem sorrisos imbecis.

Operação Valquíria agradou-me, é muito fiel aos factos reais, passe um ou outro tique sensacionalista, próprio dos americanos. Trata-se de um atentado falhado a Adolf Hitler, em Julho de 1944. Mesmo sabendo o final da história, o filme é construído com muito suspense, fica-se, até ao fim, numa esperança ingénua de que Hitler esteja mesmo morto e que a guerra acabe um ano mais cedo.


Houve várias tentativas de matar Hitler, todas falhadas, uma delas levada a cabo pelo general Henning von Treskow, aqui interpretado por Kenneth Branagh, conseguindo pôr uma bomba num avião em que o ditador embarcou, mas que, por algum motivo, não chegou a explodir. Por isso, também o general Henning von Treskow se junta ao grupo de conspiradores à volta do coronel Claus von Stauffenberg, interpretado por Cruise.

Claus von Stauffenberg assiste à explosão que ele mesmo provocou e regressa a Berlim na convicção de que Hitler está morto. Uma vez na capital alemã, inicia todo o processo de desmantelar o regime nazi, que passa pela prisão dos elementos da SS Gestapo, a fim de poder negociar, o mais depressa possível, um cessar-fogo com os Aliados, provocando uma autêntica revolução.


As novas ordens são cumpridas, em muitos casos, com entusiasmo, pelo simples motivo de acreditarem na morte de Hitler. Quando esta é desmentida, tornam a mudar de atitude. Cobardia? "Vira-casacas"? Não há dúvida de que se trata de medo, de puro medo! Um medo que passa para o espectador, que também se pergunta o que faria, naquela situação, pois é certo que qualquer traidor será executado. Este estado de espírito culmina na cena em que Goebbels, o chefe da Gestapo, está na iminência de ser preso, na minha opinião, um dos melhores momentos do filme.

Escusado será dizer que o coronel Claus von Stauffenberg e muitos dos seus colaboradores são executados, nessa mesma noite.


Este filme lembra-nos que o terror da ditadura nazi também se fez sentir na própria Alemanha. Não estou a negar que montes deles eram nazis por convicção. Mas também é verdade que, com uma arma apontada à cabeça, qualquer um de nós se pode transformar num assassino.